Sorria, amor

 

Meu namorado não sabe, nem desconfia, mas acho que tive um caso de dois dias e meio com um fotógrafo que mora no prédio vizinho. Suas fotografias penduradas em cordinhas na área de serviço, uma coisa meio Sebastião Salgado ou talvez com um quê de German Lorca, me fazia abrir as janelas de canto a canto e suspirar pela casa. As cortinas voavam para longe das vidraças e eu podia sentir o cheiro do aerosol invadir todos os cômodos. O que ele tanto faz com manjericão e gengibre? Adoro quando ele usa avental sem camisa.      

Sonhei com meu corpo completamente nu esparramado na sua mesa de jantar, e ele, com uma câmera tentando flagrar sardas minuciosas nos meus ombros, costas e virilha, se cansava da ânsia, abandonava o equipamento no balcão da cozinha, e me beijava, tentando entender por que eu, por que ele. E a partir dali ficaríamos tão íntimos e tão amigos e tão desejando um ao outro, que a nossa relação seria embalada por flashes de todos os momentos pra não ter espaço pra encaixar a saudade e a solidão na nossa rotina. Sorria, amor, pra fazer uma foto sua escovando os dentes; pra fazer uma foto sua em gargalhadas altas ridiculamente bêbado na saída de alguma balada; pra fazer uma foto nossa com os braços abertos em alguma trilha. Vai, sorria, aproveite essa fresta de luz. Aproveite a felicidade desmedida nesses tempos infelizes. Um fotógrafo, pintor, poeta, artista. Um homem que sempre teria a ânsia de querer mais e mais e mais a ponto de querer o tempo inteiro saber: “mas e depois?”. E, após a minha resposta, não se contentaria: “e depois disso?”. 

Um namorado absurdamente apaixonado a ponto de me tirar de alguma festa interessante pra poder me beijar por horas, séculos, sem espaço pra respirar. E dançaríamos pelas ruas, no meio dos congestionamentos, no meio do primeiro bar lotado, em frente a algum restaurante francês, no meio da chuva, com os corpos molhados, sem hora pra voltar. E todos olhariam pra nós dois com brilho nos olhos, com carinho, admiração: “olha lá um casal bonito, que deu certo, que tem química, olha lá”. Um amante que sempre iria me fazer arrepiar com um leve toque de dedos em braço, cabelo e nuca, e jamais salpicaria o acento do meu vaso sanitário com pequenas pocinhas de xixi. 

Por trás da janela, o vi dançando só de cueca ao colocar roupa na lavadora. Adoro quando ele escala as pernas, com o peitoral pendente para frente, e faz de conta que é um baterista com duas palhetas e discos invisíveis.

Descobri que às segundas, entre as 9h e 11h, ele chega com sacolas retornáveis com frutas, verduras e legumes orgânicos. Um dia, apesar do fotógrafo ostentar pulseirinhas hippie no pé e anel no dedo mindinho, puxei papo numa dessas feirinhas onde os frequentadores consideram açúcares, químicas e conservantes como uma bomba atômica. Abri a boca pra falar: “Que inverno quente, não?”, mas, porque não suporto as frases que todo mundo fala, as frases que ninguém aguenta mais ouvir e a vida que todo mundo leva, acabei dizendo: “Sabia que fantasio muita coisa olhando as suas fotografias da janela?”. E a boca do fotógrafo se abriu, os olhos se encheram de lágrimas, e a testa e as bochechas foram tomadas por um vermelho rubi. No dia seguinte, ele deixou um envelope na portaria do meu prédio com uma foto minha no Teatro Vila Velha, no formato 20×24, acompanhado de um bilhete que dizia “estou em busca de inspiração há mais de um ano, acho que agora encontrei”. Achei ousado. Achei excitante. Achei invasivo. Achei tão amoroso. 

Como eu já tô de saco cheio da falta de romantismo e sensibilidade do meu namorado (e eu me dizia o tempo inteiro que aí estava o problema), achei interessante e necessário continuar o flerte. Sinta o cheiro do aerosol, eu me dizia sendo levado pela dança das cortinas, enquanto tocava nuca e peitoral sem entender se fazia calor porque o inverno estava mais quente ou se era outra coisa. Olha lá ele de avental de novo, dançando de novo, colocando roupa na lavadora, pendurando fotografias no varal. Um homem que, ao ser paquerado numa feira orgânica, é tomado pela timidez. Muito melhor do que um homem, como meu namorado, que segura firme meu braço e fala algo incisivo tipo: “Tá, vamo lá. Me explica por que eu tô sendo grosso”.

Nos encontramos no metrô num dia de inverno em que fazia frio. Ele me falou sobre sensibilidade. E sobre vida. E sobre sangue. E sobre mundo. E sobre arte. Arte como sensibilidade e vida e sangue e mundo. Andamos pelas ruas do centro sem direção, sem pensar em atrasos, sem considerar que ignoramos planejamentos. “Você se transformou no meu muso”, ele dizia. E ele seguia me fotografando em casarões antigos, em praças, e pontos de ônibus. A arte o fazia perder a noção da realidade. Ele ia, ia, ia, atendendo ao pedido do mar revolto que encanta e que puxa. Sensibilidade, Murilo. E ele focava na claridade efêmera que transitava pelas minhas íris. Não se mexa, por favor. Isso. Assim. Nossa. Olha lá aquele morador de rua, como eu posso fotografar beleza se existe a miséria humana? A vida o deixava perplexo, destruído, chatíssimo. Durante os dois dias e meio que durou nosso caso, o fotógrafo me contou que às vezes não comia, não dormia, só fumava e pensava na vida, no mundo, no sangue, na arte, e estava há muito tempo sem trabalhar por respeitar a sensibilidade da sua alma. E ele seguia chorando, seguia sofrendo.

Começou a me dar uma vontade absurda de arranjar um emprego para aquele desgraçado. Um trabalho em que ele passasse o dia inteiro ocupado, ao invés de passear pela casa com avental e pendurar fotografias com detalhes minimalistas pela casa. E de dar uns bons tapas na cara poética, artística e sensível dele. Que bosta, cara, o que fizeram com o meu fetiche do prédio vizinho? Um homem que se perde na arte e esquece da continuação da vida. Deus me livre.

Tentei esquentar a coisa ao desfilar pela janela com uma cueca de tule preta. Mas aquilo, segundo me contou pelo direct do Instagram, o fazia lembrar redinhas que a mãe usava no cabelo, o que o deixou bem deprimido, por isso fechou as janelas e começou a chorar. Tive que aturar umas seis horas de discursos montados por frases de efeito sobre o vazio, sobre a perda, sobre a falta. Sensibilidade, Murilo. Sensibilidade. 

Naquela noite, voltei a transar depois do meu namorado me olhar com desdém quando falei sobre homem sensível, graças a Deus. Sexo que começou e terminou na sala sem o pudor de sermos vistos. Gememos com as janelas abertas, em pé, segurando a redinha de proteção. Nos beijamos sendo embalados pelas cortinas. À medida que fotografias caíam do varal no escuro do apartamento do fotógrafo, pude vê-lo atrás da porta da área de serviço me focando com uma precisão que daria uma foto maravilhosa se seus olhos fossem lentes. As mãos dele enfiadas dentro da cueca retomavam o que eu queria esquecer em busca do gozo: sensibilidade.