Eu não desmaio, Pedro

Às vezes, como hoje, eu faço xixi escovando os dentes. Não é pra ganhar tempo nem pra testar a concentração de mãos ocupadas em atividades distintas. É apenas porque sei lá. 

Um dia antes de passar o dia inteiro fora de casa, eu mexo oito vezes na terra pra adubar e colocar plantas em vasos maiores e confortáveis. E rego as plantas oito vezes pra que elas não morram abafadas pelo inverno solar de Salvador e que, ao contrário de mim, suportem sobreviver. Só que eu sempre chego atrasado em qualquer lugar porque fico horas olhando pra elas. Fico pensando que, talvez, elas gritem por socorro.

Eu limpo todos os cantinhos de casa quando como muito brigadeiro. Talvez eu sinta culpa quando, mais tarde, encontro sobras de granulados espalhados por não sei onde enquanto peço a Deus pra me livrar de gases e azia pós-lactose. Só que eu sinto mais angústia e como mais brigadeiro.

Lembre-se de contar tudo isso ao seu psicólogo, eu me aviso.

Na torrada com ricota light, eu coloco um pinguinho de mel. Faço isso no café da manhã na casa dos meus amigos e eles me chamam de fitness fake. 

Meus parentes me acham metido. Eles fazem aquele biquinho com sobrancelhas arqueadas quando minha mãe tenta explicar por que sumi, por que não visito ninguém há mais de cinco anos. Para eles, dei as costas porque virei o morador da orla, intelectual, que vive em festinhas com gente muito tatuada, liberal e tão estranha quanto eu. Outro dia deu uma saudadezinha de uma prima e corri pro WhatsApp pra falar com ela, pra saber se estava tudo bem. E ela me perguntou: “Qual favor você tá precisando agora?”.

Fui almoçar no Shanti com Camila. Havia uma mulher falando muito alto e rindo mostrando a boca aberta com a comida triturada. Tive vontade de chegar no ouvido dela e falar “engole essa torta, sua desgraçada, mal-educada”. Obviamente que não fui até ela. Mas lancei um olhar mortal e o riso dela se esvaziou no mesmo segundo. Pude ver os pedacinhos dos alimentos descerem de uma só vez pela garganta. 

Quando meu ex-namorado descobriu que estava com problemas no fígado e nos rins, eu me tranquei no banheiro do Aliança e lavei a mão e o antebraço 86 vezes e enfiei água pelo nariz 56 vezes até me livrar de tudo. Não sei o que é me livrar de tudo. A obsessão por limpeza aparece sempre que a tristeza invade meu corpo. Talvez seja só angústia.

Anotei pra contar ao meu psicólogo.

Quando minha mãe fala em morte, eu tenho vontade de fazer cortes profundos em nervos atrás dos meus joelhos. Quando ela fala da morte dela, eu tenho vontade de cortar a minha perna inteira e sair socando paredes até quebrar pequenos ossinhos dos dedos. A maior vingança de uma mãe é falar sobre despedida eterna.

Chego atrasado. Uns vinte minutos? Ele responde que não. “Quase uma hora”. E fecha a cara pra mim. Vim tomar uma daquelas cervejas com intenção sexual. Mas como é difícil transar com um cara que não entende meus jogos de dualidades com pernas e palavras aparentemente não encaixadas. E então, com três botões abertos da camisa, sorriso de quem quer me deixar cheio de marcas pelo corpo, ele me diz segurando firmemente na caneca de chope: “Desejo bom é desejo morto. Toda vez que você dá vida a um desejo, nasce outro. O desejo é um círculo vicioso”.

Entro na sala. Tá frio aqui hoje, hein? Quer que eu desligue o ar? Meu coração tem algum defeito, explico pra ele. Como? Eu quero parar de me sentir desse jeito. Eu preciso parar de rir das minhas desgraças. Eu sinto enjoo. Eu sinto uma raiva cruel. Eu sinto um medo devastador. Eu tenho vontade de correr nu na Avenida Paralela inteira, numa manifestação solitária e narcisista, em luta por uma parte de mim que eu sinto falta. Eu tinha, foi embora ou não chegou? Agora, por exemplo, eu me sinto tonto, sinto falta de ar.

“Veja bem, talvez seja arritmia, desidratação ou até mesmo cansaço extremo. Seria bom você ir ao clínico”, ele diz. Pedro, 34 anos, psicólogo junguiano, sempre quer saber se eu desmaio. Por quê? “Você é muito sensível pra ficar em pé o tempo inteiro”, ele explica.  “Eu não desmaio nunca, Pedro. Eu tenho pressão baixa, hipoglicemia, fico com a visão turva, mas desmaiar, assim desmaiar, nunca”.

Queria falar pra ele que “eu sentia muito e queria me livrar de tudo”. Queria falar sobre os meus pequenos traumas, fragmentos, imagens soltas, pensamentos, experiências, de como o outro invade a minha saúde emocional. Queria falar pra ele como a universidade adoece, como eu, antes dos trinta, troquei a balada pela farmácia. Queria falar sobre as minhas crises de pânico, da minha claustrofobia em shows, do meu medo de ser assaltado na cidade, da minha instabilidade no mercado de trabalho. 

Mas, em oitenta por cento da sessão, ele fala dele, da filha de seis anos, do apartamento novo, da vista maravilhosa que o apartamento novo dele tem, da viagem incrível, da mulher dele, da doença da mulher dele, da insuficiência respiratória dele, da ansiedade dele, da vontade que ele tem de pular a cerca sempre que ele viaja sozinho, do beijo que ele deu em outro cara quando fez intercâmbio aos 22 por pura vontade daquele dia e só. Ele me diverte e me faz esquecer do xixi, das plantas, dos granulados, do mel, dos meus parentes, da morte, da mulher do restaurante e dos casos em mesa de bar. Às vezes ele dá aquela risada que mostra todos os dentes da boca e eu amo tanto sem nem amar. Ele me dá a sensação de ser amado depois de tudo. Ele não tem aquela pressa típica dos psicólogos de plano de saúde. 

Mas, ainda assim, fiz um acordo com ele: pago apenas vinte por cento da consulta porque é o tempo que ele me deixa abrir a boca e falar sobre os sinais que eu vou me alardeando a semana inteira. Nas sessões em que só ele abre a boca, eu simplesmente não pago e encho a minha ecobag com aquelas balas de caramelo e chocolate que ficam na recepção pra me sentir recompensado de alguma forma. E por que não desisti desse homem? Porque uma vez, antes de eu sair da sala, ele me disse: “se você tiver qualquer crise de pânico dentro de um ônibus, medo da morte, o que for, me liga que eu vou até onde você estiver”. Óbvio que ele não vai. Mas ele é o primeiro homem no universo que mesmo falando só dele, não me dá a velha sensação de que meu coração tem algum defeito. O primeiro homem no mundo que acha normal desmaiar por ser sensível. O primeiro homem no planeta que não me pede pra disfarçar isso. Nem acha que eu preciso matar desejos. Semana que vem eu tô lá. Será que eu ainda preciso anotar as minhas neuras?

Como é bom ter um homem como Pedro.