Gente de bem, suas neocaretices e incoerências

Aconteceu recentemente e prometi guardar pra mim mesmo. Chega de discutir por aí com pessoas que normalizam o absurdo e querem transformar imbecilidades graves em debates profundos. Há tempos venho falando na terapia e em mesa de bar o quanto as pessoas vêm me incomodando com seus preconceitos disfarçados de opinião e ignorância mascarada de crítica. Prefiro desabafar no consultório. Só que dessa vez, dada a gravidade do caso, porque não aguento mais encontrar “gente de bem” por aí (sim, eles estão em todos os lugares), e como eu não me seguro, cá estou eu: nu, rasgado, esbravejando, pronto pra receber e-mails dessas pessoas bondosas, apontando dedos com unhas imensas e sujeirinhas duras de resto de cera de ouvido, me chamando de “esquerdopata” ou “petista safado” e seus derivados. Muitos me darão ​unfollows, dislikes, compartilhamentos com comentários debochados, entre outros ódios mortais e contemporâneos. Que venham todos! 

Segunda-feira eu estava no Walmart quando ouvi uma senhora na fila do caixa rápido dizendo para outra senhora que ela se mudou às pressas pra orla porque o centro está abandonado. Pensei que ela faria crítica ao poder público com o descaso das vias urbanas e arquitetura desprezada. Mas ela, empilhando embutidos e enlatados na esteira do caixa, logo mostrou a cara: cheio de mendigo que, claramente, não tem nível para conviver com “gente de bem”, como ela, e só compromete a importância histórica do bairro, sobretudo o conforto da elite soteropolitana. “São todos ladrões, traficantes. Não pode vacilar com a bolsa nem demorar com carro parado”, ela repetia. “Ai, é horrível, não dá nem para andar na calçada sem ser incomodado, é mendigo pedindo dinheiro o dia todo e quando escurece vira um filme de terror”, completou a amiga. Eu não tinha percebido o quanto que o Campo Grande não estava assim tão belo como esperado, afinal, é palco de Carnaval, palco de turista, mas percebi que está cada vez mais triste com tanta gente desabrigada. O que me incomoda é ver famílias inteiras sobrevivendo com resto de comida de lixo e indo dormir enroladas em papelões, dividindo espaço com a violência, com olhos tortos e ratos de esgoto, mas achei melhor me calar porque deve ser coisa da esquerda se entristecer pela desgraça de gente que não é “gente de bem”. Uma desconhecida delas, atrás de mim, se intrometeu: “Os zeladores têm que lavar as calçadas todos as manhãs, fica um cheiro insuportável. Haja desinfetante”. É impossível não revirar os olhos. Às vezes, eu acho que pra ser gente de bem é preciso esquecer o que é ser gente com humanidade. Nesse minuto, vejo um frízer abarrotado de latinhas. Abro um energético, mesmo que seja cedo pra isso. Preciso de energia pra suportar o dia.

Terça-feira, numa daquelas milhares de farmácias da Manoel Dias, um casal gay tentava acalmar um bebê que chorava muito. A criança estava com febre. Enquanto um comprava medicamento, o outro ninava o bebê. Assim que eles foram embora, ouvi da atendente que também se autointitula gente de bem: “dois homens com um recém-nascido dá nisso. Homem não sabe cuidar de criança, não é natural, não é de Deus. Criança tem que ter mãe”. Todos atrás do balcão concordaram. Eu, que sempre quis ser pai, achei o companheirismo daqueles dois uma inspiração de vida e até de fé: existe gente do bem a ponto de cuidar, dar amor, carinho e tudo que casais heterossexuais negaram. E eu, que passo longe de ser gente de bem, fui à farmácia comprar xampu antirresíduos, mas acabei sentindo uma dor imensa no estômago, e saí de lá com seis cartelas de antiácido.  

Quarta-feira, na academia, enquanto me exercitava no elíptico, um senhor começou a reclamar de que o brasileiro torce contra o Brasil. Pensei, lá vem o Bolsominion, o tio do zap. E veio mesmo. Sem eu ter dado permissão, ele começou a esbravejar ódio contra a Globo, o STF, ao presidente da Câmara, intitulou a imprensa de “comprada”, disse que dados ruins, como os dos incêndios na Amazônia e do desemprego no Brasil, não podem ser divulgados porque “prejudicam a imagem do país”, avisou que a Folha de S.Paulo vai fechar, e disse que Lula “é da cadeia pro cemitério” e, veja só, disse que é a hora de “gente de bem” assumir o país, com aberturas de escolas militares como revolução, com o fim da vagabundagem, da indecência na TV, dessa maluquice de ideologia de gênero e das mentiras do PT. “Dinheiro público gasto com filme de prostituta”, ele riu. Então, ele começou a falar sobre “família acima de tudo” e contou, sem nenhum pudor, que é casado há 46 anos e que, claro, já teve “umas namoradinhas por fora”, mas que a de casa sempre será a de casa. Uma moça ao lado pergunta para ele se a mulher sabe dessas escapulidas. Ele, com o maior orgulho, conta que ela descobriu “algumas farrinhas”, mas que, como uma boa esposa, sabe que família está acima de tudo. 

Hoje, pra completar a minha semana, durante o almoço na Facom, dois jovens representantes do movimento “gente de bem” falavam em “cortes pro Brasil voltar a crescer”. Ambos concordavam que “há muita mamata” dos estudantes da Ufba que querem estudar e ganhar por isso. “Pois que arrumem um trabalho caso queiram dinheiro”, um deles, com cara de que nunca viu trabalho na vida, falou. O que me espanta é a ignorância ganhando palanque. Gente que não faz ideia para que serve pesquisa (nem dá conta da vida sofrida de milhares de pesquisadores) opinando sobre cortes de bolsas de pesquisa e apoiando o desmonte da educação universitária federal. E eu, que não sou gente de bem, mas sou pesquisador de literatura da federal e faço ideia do quanto contribuo para o estudo intelectual deste país, reflito sobre a tal da “mamata acabar pro Brasil colocar um fim na corrupção e voltar a crescer”. Mas, antes disso acontecer, vai ter indicação do presidente para o filho ocupar o cargo de embaixador em Washington, parentes do presidente indicados em gabinete, carona pra Paris em avião da FAB, aumento de cargo e salário do filho do vice-presidente no Banco do Brasil e outros absurdos defendidos pelos revoltados do Brasil do B17. Às vezes, eu acho que pra ser gente de bem precisa ser incoerente. 

Antes que eu pudesse jogar um copo de suco gelado na cabeça dos dois jovenzinhos de bem para que eles pudessem acordar pra vida, uma amiga, que prefere colecionar vinis do Cartola ao invés de tirar selfie com PM, me surpreendeu com um pedaço de pudim para a sobremesa. Não sei o que esperar na sexta-feira. Preciso adoçar a vida. 

Graças a Deus tenho gente do bem ao meu lado.