Baranga em busca de colágeno

Daqui a quatro meses faço vinte e nove anos. Sempre tive horror aos jovens da minha idade e agora tenho horror a pensar em ficar velho. Não sei se o que aconteceu na semana passada foi um ataque de consumismo ou desespero porque o último ano dos vinte se aproxima. Mas na quinta-feira fui com a minha mãe comprar uma cartela de analgésico na Drogasil e saí de lá com um sacolão de creme anti-idade. Me tornei refém da busca pela juventude.

Expliquei pra Dannyelle, a atendente, que eu sempre fui um jovem com um colágeno favorável, nunca aparentei ter a idade que eu tenho, coisa de genética. Mas, Danyelle, ofertando produtos em promoção, me disse: “Mas uma hora essa festa acaba e isso chamamos de quase trinta anos, não é verdade?”. Fui inundado por uma tristeza invencível no meio de cremes e óleos que prometiam trazer felicidade em trinta dias. 

Dannyelle me convenceu que não era neura coisíssima nenhuma, é prevenção masculina. Ela deixou claro que a partir de agora um processo intenso, urgente e perverso acontece com o meu corpo e que é melhor o homem começar o quanto antes a cuidar da aparência. É ter maturidade estética. Esse pé de galinha aí ao lado dos olhos, por exemplo, já está dando sinais. Melhor levar um creme reparador pra renovar a pele. Leva o de cá também pra afinar as rugas de expressão na testa. Ah, esse energizante é ótimo pra usar durante o dia, é FPS 50, protege contra as manchas. Ah, é? Urrum. Sei. Quero.

Protetor solar, água micelar e esse que suaviza bolsas e atenua olheiras. Pronto. Mas alguma coisa? Ela deu um sorrisinho de pessoas espiritualmente evoluídas que ajudam pobres mortais que voltarão mil vezes na roda da reencarnação e me entregou a nota fiscal. “Vai ficar tudo bem”. Achei cruel. Me senti uma baranga à espera de uma plástica querendo deixar de ser Gargoyle pra me transformar em um Davi, de Michelangelo.

Lembrei de uma amiga meio barbie me dizendo pra eu tomar cuidado: “Se preocupar só com o trabalho deixa a gente meio baranga”. Comecei a limpar a pele três vezes ao dia com todos os seis sabonetes que comprei e a trabalhar em casa com máscara de argila preta na cara. Passei a correr loucamente na esteira da academia, treinar musculação alucinadamente, fazer detox orgulhoso de grão de bico e troquei o chope por água com meio limãozinho espremido. Isso foi me dando uma canseira e, como todo velho, prometi deixar pra depois, sabendo que era nunca.

Na sexta, acordei com o espírito aventureiro e selvagem. Eu me dizia o tempo inteiro que precisava aproveitar os meus últimos meses de juventude. Fiz uma pequena mala e resolvi morar por dois dias na casa de Alice, um muquifo cheio de plantas e pedras budistas na Mouraria. Organizei uma festinha do que apelidei de “baranga em busca de colágeno” e convidei todos os meus amigos neuróticos que se acham velhos demais pra fazer parte de festinhas. Achamos interessante se começar cedo, se não tiver música alta, se for perto, se só tiver gente com afinidade, se tiver comida que não dê azia e almofadas gigantes pra alongar a lombar. Pra comemorar meus últimos meses de colágeno firme, pintei meu cabelo de verde (obviamente com tinta que sai com água), furei a orelha esquerda, comprei uma sandália de couro praticamente sem sola pra usar com uma calça de linho fino que a bainha arrasta pelo chão e inventei a sessão “descamisados com conteúdo”. Como o próprio nome diz, todos deveriam ficar sem camisa, ler livros profundos e tentar interpretar longe da obviedade da coisa. Quem gaguejasse durante a leitura tinha que chupar o peito de alguém da roda. Os que liam numa mistura de espanhol, francês e inglês com sotaque britânico tinham “livre acesso” em todas as partes da casa, sendo partes também uma analogia para os cantos do meu corpo. Meia hora depois da brincadeira começar todos eles estavam meio bêbados, morgados, bocejando, abraçando almofadas. Mas como se a geladeira ainda tá carregada de cerveja? Ai, o mestrado. Ai, o meu filho. Ai, minha mulher. Nossa, tenho que trabalhar amanhã. Nossa, cê acredita que eu ainda tenho que passar no mercado pra comprar amaciante? Achei meus amigos da minha idade velhos demais pra mim.

Na volta pra casa, tentei passar por uma multidão de jovens desconhecidos que fazia uma festinha com muita maconha e cerveja barata no meio da rua. Foi quando um rapaz descamisado, com um copo de cerveja na mão, seus dezoito anos estampados em falta de pelo na cara, sem flacidez e barriga zero gordura, puxou meu braço, me rodopiou e levou pra dentro de uma casa que eu não fazia ideia a quem pertencia. “Vai fazer vestibular pra quê?”, ele perguntou. E eu disse: “28 anos, sem paciência pra estranhos, só quero ir pra minha casa”. E ele respondeu: “ah, mas eu duvido, doido”. Dançamos funk em cima da mesa de centro, ao redor de garotas com microshorts empinando bundas e moleques com pochetes e camisas GG. Todos com cabelos engordurados. Jovens não sabem lavar cabelo. Nunca fui tão feliz quanto. Por meio segundo, cogitei beijá-lo. Não sei se chegamos a fazer isso. Só sei que dormi pesado como um adolescente bêbado que liga o foda-se pro que vai acontecer depois. Acordei no dia seguinte num sofá desconhecido, com câimbra no maxilar de tanto sorrir. Finalmente vou voltar pra casa, colocar um pijama e ver alguma coisa na TV com um potão de sorvete. Adoro minha vida.    

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