Cinquenta e três dias normais

É estranho como sinto saudades quando você me deixa pelado na cama e vai tomar banho. Aqueles segundos que eu ouço você cantarolar BaianaSystem ao mesmo tempo que a água da ducha desaba em seu corpo antes das gotas descerem pelo ralo. É repetitivo o seu pulo na cama com a toalha e os cabelos molhados querendo me dizer que “agora pronto”. Agora pronto o quê? Você e sua pressa de se livrar de mim, e eu penso que tudo bem, você tem pressa até de se livrar de você mesmo. “O problema não deve ser comigo”, pensei durante um ano e meio num “tudo bem” com esperança de um dia essa água gelada fazer efeito nele. 

Combinamos, depois de muitos silêncios e discussões em carros e cobranças e pós-cinemas e constrangimentos ao apresentar amigos, que não passaria de sexo sem exigências. Nada muito difícil de entender. Só fui na sua casa porque tenho preguiça, nojo e medo de transar com um desses caras de aplicativo, e se fico mais de um mês sem sexo começo a arrumar confusão com todo mundo no meu prédio.

Você é comum, sem grandes ambições e não tem papo interessante. Você me ajuda a não te amar. Respiro aliviado e sugo tudo o que vem de você pra ter certeza absoluta de que não estou errado. Pra agarrar com unhas imensas suas impossibilidades. Pra confirmar com todas as letras de que não é você, graças a Deus. Não me imagino ao seu lado. Não imagino adorar um homem preguiçoso. Não imagino ter que roer as unhas de ansiedade pela casa nova. Imagina só planejar adotar uma criança e você com uma carinha de “por que não depois?”. Imagina só ficar velho ao lado de um homem que já nasceu velho? Eu seria completamente infeliz.

Dentro do seu carro, parado no posto de combustível, você me pergunta por que todos os nossos amigos resolveram casar e ter filhos. E resolve me falar pela milésima vez que tá todo mundo surtando. E que você vai acabar sozinho e fodam-se todas essas obrigações. E depois lá vem você segurar a minha mão, apaixonado. E me olhar pelo retrovisor com admiração, com orgulho. E no segundo seguinte ser frio, expulsando grosserias entre os dentes. E me falar que “não vale a pena”. O quê? “Sofrer”, você diz. E pra eu ir embora e pra eu me livrar de qualquer tipo de apego e pra eu não desistir de você. “Essas coisas”. Essas coisas o quê? “Bobagem minha, esquece”, você diz. E eu me digo, querendo me estrangular com o cinto de segurança, que graças eu não te amo, que graças a Deus não é você. Porque, se fosse, eu acordaria todos os dias com um sorriso de canto a canto e não com vontade de morrer. Eu teria paz ao invés de me submeter ao inferno.

Me despeço, já sem sentir a velha vontade de desabar no choro, do seu carro, da sua voz, do seu toque, do seu perfume com cheiro de mato, das suas camisas moderninhas, da sua vida, de tudo que eu amo tanto. Ainda que eu nem ame nada disso mesmo. E me despeço da sua risada fora de hora que me dava segurança. E das suas piadas idiotas que me davam vontade de socar seu peito. E bato a porta do seu carro já sem deixar cair uma lágrima. Um ano e meio chorando por você serviu ao menos pra me secar por dentro.

Preciso de um copão com água e açúcar pra aliviar meu corpo trêmulo. Mas sinto um vento de alívio passar pelos meus cabelos porque acabaram as incertezas, acabaram as dúvidas, acabaram os nós na garganta, acabaram as centenas de sensações de algo prestes a acabar, acabaram os caminhos sem direção. Meus amigos levantam o dedo indicador na minha cara e já vão logo avisando que se eu pronunciar seu nome, eles pegam a bolsa e vão embora. “Viu que eu avisei que esse homem não presta, Murilo?”, eles dizem. 

É maravilhoso passar os dias conseguindo não te ligar, não te mandar mensagem, não vasculhar a sua vida na internet, não esbarrar com você na rua, não interfonar no seu prédio me dizendo que tudo bem mais uma transa sem nexo. É maravilhoso suportar cinquenta e três dias sem arrumar briga no prédio, sem arranjar confusão na padaria, sem discutir no trânsito em razão da libido alta. Eu sigo vencendo. Cinquenta e três dias que seu endereço foi apagado da minha memória, que eu não dou um pio e não escrevo nada sobre isso. Não quero lembrar de você me dando Coca-Cola no café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você chegando atrasado no lançamento do meu livro com uma cara de meio perdido e uma lágrima nos olhos de orgulho. Não quero lembrar de você querendo fugir da manifestação porque o gás lacrimogêneo te sufocava, mas, em momento algum, você soltou a minha mão. Não quero lembrar da sua tatuagem brega de golfinho e do seu medo do mar. Do cheiro de maconha que fica na sua barba e nas suas camisas moderninhas. Não quero lembrar de você olhando a bunda do meu amigo e em seguida me dando um abraço forte e me perguntando “o que é que você tem que eu só tenho olhos pra você?”. 

Aí, quando eu finalmente decido que estou bem, mudado, incrível e que pouco faz sentido lembrar dessas coisas que nunca fizeram sentido, dessas coisas que me levaram do nada em direção a lugar algum, minha mãe, minha irmã, meus tios, meus vizinhos, seu Paulo da barraquinha de frutas, dona Lena da lanchonete, os garçons dos bares, a menina gordinha do supermercado e até gente que eu nunca vi… Todo mundo. Todo mundo tem sempre um assunto. Todo mundo quer saber de você, quer me contar alguma coisa de você. Cinquenta e três dias normais que eu respiro aliviado e que vocês querem jogar fora. Eu não quero saber que na sexta ele ajudou a velhinha do 302 com as compras do supermercado. Que ele mudou o corte de cabelo. Que ele agora frequenta o BomBar. Que ele riu, dançou e bebeu com o chefe babaca em alguma festinha babaca até quatro da manhã. Que ele encontrou um de vocês e perguntou se eu ainda tô mal com tudo. Por que todos vocês insistem em me contar sobre a vida dele? Por que é que vocês todos estão beges com a nossa morte. Por que é que vocês não acreditam que isso passa? Por que é que todos vocês dão risada das mesmas piadas dele? Por que é que todos vocês também fazem carinha feia quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Que desgraça é que esse homem tem que vocês não deixam ele se destruir como ácido na minha memória? De que inferno esse homem veio pra encantar todos vocês? Por que é que todos vocês também amam ele?    

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