Aluga-se solidão com vista pro mar

Coloco requeijão cremoso, gorgonzola e orégano em cima das torradas. Espeto palitos em azeitonas. Queijo e presunto cortados em cubinhos. Uma folhinha de manjericão pra enfeitar? Ai, meu Deus, quase esqueço a torta de atum no forno. Na sala, enquanto você passeia os dedos entre os títulos na minha estante, você debocha dos meus descuidos e distrações: “Seus livros estão sempre manchados de café. É pra marcar que são seus?”. No interfone, você avisa ao porteiro que deixou seu carro, sem querer, na vaga do vizinho. Normal, você sempre erra. E diz pro porteiro ficar tranquilo: não vai durar mais do que duas horas. “Coisa rápida”. Coloco um disco pra tocar na vitrola que você me deu de presente de Natal. Gal? Não. Chico? Que nada. Eu me jogo no sofá e você me beija com os lábios molhados de vinho. “Você tá lindo. Esse corte de cabelo combina com você. Você tá muito bonito”.

Ei. Oi. Vem cá. Melhor não. Explico que tenho dificuldade pra acertar o passo. Talvez eu fique um pouco tonto. Talvez eu me sinta um pouco enjoado. Talvez eu tropece no seu pé. Talvez, no meio da música, eu tenha uma crise de riso até amanhã de manhã e caia no meio da sala. Que vergonhoso. E você ignora as minhas afirmações: “esqueça essas coisas”. E apaga as luzes dos lustres, acende o abajur, me tira do sofá. Assim. Calma. Você ordena. Deixa eu sentir a sua alma. Sinta a minha. Posso respirar primeiro? É tudo ao mesmo tempo, você diz. Assim. Calma. E junta o peito contra o meu. E prende a minha cintura. E me deixa leve entre os ombros e a nuca. É tudo ao mesmo tempo. Você me abandona por dois segundos pra pegar as taças com vinho tinto pela metade. E então você volta, coloca as mãos firmes na minha cintura e me conduz sem dizer nada. Beber enquanto dança. Respirar enquanto dança. Sentir enquanto dança. Imaginar enquanto dança. Será que eu consigo? Nossa… Marina Lima? Sim. Eu AMO essa música. Eu também AMO essa música. Um passo pra lá. Outro pra cá. Devagar. Não solta a minha mão. Deixa meu nariz ficar escondido na pontinha da gola da sua camisa. Deixa eu descansar meu queixo no seu ombro direito. Shiii… Não fala nada. Assim. Calma. Tudo ao mesmo tempo.

Lembro quando os meus amigos viram você na Commons e me disseram: “Alá o seu chefe bonitão que flerta com você o dia todo, mas volta pra casa e transa com o namorado”. Lembro quando eu te levei na festa A Bolha e você encontrou seus amigos extremamente educados e bem vestidos. Você tentou disfarçar o que a gente tinha e acabou se atrapalhando todo. Eu tive vontade de tirar a minha roupa inteira e gritar, sem a menor educação, que eu era feliz ao seu lado. Mas apenas falei dos seus ‘arrotinhos silenciosos’ no meio das reuniões: “Não fica bem pra um chefe”. Todo mundo riu. Lembro quando você me levou na exposição do seu irmão. Você me puxou pro jardim, prendeu as mãos no cós da calça e me disse: “Bora sair daqui, por favor, eu não tô aguentando”. Lembro quando eu estava com as pernas abertas em cima dos seus ombros. Você abriu a gaveta, me entregou uma camisinha e me disse: “Ok, você conseguiu, agora é a sua vez”.

Cê tá pensando em quê?, você me pergunta querendo saber dos meus pensamentos mais obscuros ainda com o corpo colado e os olhos fechados. “Eu te vi com ele”, respondo baixinho, com um pouco de medo de soar como um desabafo de insatisfações, ainda com o corpo colado e os olhos fechados. “E você não quis dar um ‘oi’”? Você endoideceu de vez? Eu recebo uma mensagem sua quando você está com ele e meu coração dispara porque eu penso “meu Deus, ele está pensando em mim”. “Mas eu estou. Eu estou, Murilo. Todos os dias”. Não. Você está com ele. Sua vida é com ele. Você acorda com ele, vai dormir com ele, apresenta ele pros seus amigos, fala ao telefone sem medo de que alguém esteja ouvindo. E a gente pode roubar almoços e fins de semana. A gente pode se trancar nesse apartamento. A gente pode dançar junto e tomar vinho exatamente como agora. E depois transar. Mas, no fim do dia, depois que você vai embora, quando eu chego ou fico sozinho nesse apartamento, eu percebo que só estou ocupando um lugar que não é meu. Eu queria ser o tipo de pessoa que sabe lidar com isso, mas eu não consigo. Eu queria não ter a cabeça rodando com tudo isso que parece meio errado, mas eu não consigo. Difícil me concentrar no trabalho e não conseguir olhar pra sua mesa. Difícil sentir angústia no meio da noite de domingo, não conseguir dormir e não poder te ligar. Eu tenho vontade de entrar na sala do trabalho e te dar um beijo com a porta aberta. Eu quero consertar a sua gravata e sua camisa escapulindo da calça quando você passa pelo corredor. Eu tenho vontade de te convidar pra um jantar romântico, no Sagaz, no fim de uma reunião. E que todos ouçam. E que todos percebam que a gente tem alguma coisa. Não é um romance sujo. Eu quero mostrar isso pra todo mundo. Eu quero sair desse apartamento e poder pegar em suas mãos. Eu quero meu corpo nu entregue nesse sofá. De costas pro encosto, de bruços, com a cara enfiada nas divisórias. E você, sentado no chão, vendo meu corpo completamente nu, sem hora pra ir embora. Mas a gente não pode. Nunca. E planejo pra algum dia. Mas quando chega esse depois?

Você solta minha cintura. E afasta o seu peito do meu. E meu rosto descola dos seus ombros e nuca. E você abandona a taça de vinho na mesa de centro, perto das pontas de maconha no cinzeiro. E liga as luzes dos lustres. E diz um “tenho que ir” que me mata mais do que tudo. Outro beijo, dessa vez com os lábios secos. Acabou outra noite. Assim. Calma. É tudo ao mesmo tempo. Dançar, rir, beber, transar. Tudo com você, todos os dias, é sempre pela última vez.

Do alto, na varanda, vejo seu carro ganhando o mundo. Tenho a impressão de que te ganho tão demorado e te perco tão depressa. E talvez eu não entenda nada olhando pra você. Talvez eu entendesse se eu parasse de pensar, se eu fosse outro, se eu deixasse o corpo me levar até onde a agonia manda. Talvez eu quisesse a clareza da putaria e a certeza do vazio. Mas não é isso. Não é um romance sujo.

Retomei aquele jeito de fumar por trás da vidraça, do alto, vendo o que ninguém vê até que o dia amanheça. Vejo as festas nos apartamentos ao lado. Muitas risadas. Alguma coisa animada acontece lá fora e eu não tenho convite. Vejo casais se beijando em frente ao mar. Pessoas vão a shows, peças de teatros e bares lotados. Gente se encontrando, entrando em carros, se abraçando. Boates recebem gente da minha idade, os tresloucados por músicas recém-lançadas na internet. Mas o que eu quero fazer no meio dos descamisados? Perdi mais um like nos aplicativos. Deixei de conhecer alguém interessante numa social interessante. E eu fico aqui, no meio de torradas, azeitonas, taças de vinho, discos, pontas de maconha em cinzeiros e corte de cabelo da moda, me refugiando no escuro de um dos metros quadrados mais caros de Salvador que você alugou e me colocou dentro, renunciando a vida que acontece à minha volta em troca da vida alheia e dos meus bons e velhos livros manchados de café. Eu fico aqui pra depois.

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