Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: American Horror Story: Hotel

Dando continuidade ao nosso especial sobre American Horror Story, chegamos na quinta, e menos interessante, temporada. Hotel tinha tudo para ser fabulosa: a dualidade de um ambiente que envolve glamour e o grotesco, personagens potentes e paradoxais e, claro, a presença de Lady Gaga, para dar um toque a mais. O enredo começa bem, apresentando um antigo hotel que parece suntuoso, com uma atmosfera vintage, mas que guarda segredos fantasmagóricos. As primeiras hóspedes que vemos já são atacadas nos primeiros minutos de tela, usando uma técnica narrativa vista no horror de estabelecer para o espectador o que pode-se esperar pela frente. Existe um tom de promessa, de que, de certa forma, os episódios terão uma carga horrífica menos sutil.

 

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E é na falta de sutileza que Hotel se perde. O que se aparenta é uma necessidade grande de assustar o público, por isso, os jump scares* e monstros e fantasmas aparecem com muita força nessa temporada, deixando um pouco de lado o que havia de mais forte na série que era elucidar o que existe de mais estranho nas personalidades das pessoas em cena. Com exceção de James Patrick March, personagem do sempre inspirado, Evan Peters, vemos somente cenas isoladamente bem feitas, que trazem momentos de medo e curiosidade, mas que, unidas, formam uma colcha de retalhos mal desenvolvida, deixando a narrativa da série perdida.

A história se foca no John Lowe, detetive que é convidado ao hotel e começa a sonhar com seu filho desaparecido. Mas, Lowe vai perdendo seu destaque e sua força para outras personagens mais bem construídas. Sua única importância termina sendo com a Condessa, interpretada por Lady Gaga, mas, ainda assim, a trama das crianças roubadas por ela é mal resolvida e sua resolução é executada de maneira apressada.

 

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O que pode não deixar a temporada mergulhada num tédio para o espectador é seu visual sombrio, que combina uma direção de arte acertada, que sabe unir uma estética vintage com um tom de moderno do que se é considerado bizarro, destacando a intenção de mostrar um lugar atraente e assustador ao mesmo tempo. E também algumas aparições de outras temporadas, como Queenie e Billie Jean. Os ganchos terminam sendo o que mais prende o espectador de certa forma.

O episódio da noite em que os mortos podem andar entre os vivos é, sem dúvida, o mais forte da temporada. Liliy Rabe, que interpreta Aileen Wuornos, e Evan Peters trazem a complexidade na criação de personagens que despertam empatia e são, ao mesmo tempo, o resumo da maldade, trazendo o que há de mais forte em American Horror Story, o estudo da personalidade humana, a multiplicidade de olhar sobre o que se considera vil e o olhar de quem encara a crueldade e o sadismo como elemento de seus cotidianos.

Apesar de ser a mais fraca das temporadas, Hotel tem seus momentos e não perde sua qualidade estética. Infelizmente, os episódios constroem um universo frágil e personagens mal desenvolvidas, deixando somente alguns momentos de riqueza narrativa.

 

*jump scare: mudança repentina de imagem ou situação, criado para dar sustos imediatos na plateia.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: American Horror Story – Le Freak C’ést Chic

Em setembro, tivemos o início da oitava temporada de American Horror Story (AHS), finalizada, de maneira impactante, em novembro. Por conta desse novo ano do seriado, resolvemos fazer um especial sobre o programa de TV, criado por Ryan Murphy, comentando um pouco sobre cada um de seus anos. Este mês, vamos falar sobre a quarta temporada da série, Freak Show. A trama se passa majoritariamente dentro de um circo e traz personagens marcantes e linhas narrativas bem construídas.

O lado fantástico da produção é explorado com a presença do palhaço Twisty (John Carroll Lynch), que comete alguns assassinatos. Todo o plot deste ser macabro é o que quebra o certo tom mais melancólico de Freak Show, trazendo pegadas de gore e de trash para a série. A personagem, inclusive, é a única do quarta ano que aparece em temporadas futuras, até então. Em Cult, ele é retratado numa revista em quadrinhos de Oz, filho de Ally e Ivy.

 

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Além do palhaço Twisty, vemos um circo, bastante decadente, comandado por Elsa Mars (Jessica Lange). Logo no começo da narrativa dentro do circo, a atriz Jessica Lange canta Life on Mars*, numa performance que dita todo o tom do universo desta nova história em AHS, trazendo movimentos de câmera que se traduzem num ballet visual e mostram de maneira poética a vida do circo, unindo as figuras diferentes, que vivem à margem da sociedade com a beleza da cena que carrega em seus tons esverdeados.

As cores em Freak Show são bem exploradas, pois a direção de arte utiliza muitas tons claros e, supostamente, alegres, só que dessaturadas, trazendo uma ambientação melancólica e que elucida a emulação da alegria que há nas atividades circenses. A temporada trabalha bem as características de cada personagem, mostrando de maneira inteligente que o freak não é aquele com tipos físicos diferentes do que a sociedade costuma ver e sim aquele que tem uma crueldade dentro de si, uma maldade que transborda e se constrói numa personalidade distorcida e anormal. Freak Show é um tratado sobre como a natureza humana pode ser doentia.

 

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Os planos e enquadramentos das cenas acompanham esse pensamento. No início da temporada, as cenas com as personagens do circo possuem mais planos holandeses (câmera de lado), o uso do lens flare e do soft focus, criam uma ambientação que mescla o onírico e o estranho. Aos poucos, mesmo com uma fotografia sombria e com pouca saturação, os enquadramentos vão se tornando mais crus, traduzindo bem a curva dramática de Freak Show. Este fator faz com que a energia saia do fantástico e mergulhando num universo sombrio e cruel.

As duas personagens de Sarah Paulson, as irmãs siamesas, Bette e Dot, roubam a cena com suas personalidades bem delineadas, com uma construção minuciosa de Paulson, quebrando estigmas e clichês sobre a relação de gêmeas siamesas. Existe uma complexidade nos desejos das duas, que termina movendo a trama para frente em sua narrativa e atriz mostra a consciência da importância de suas personagens, quando vai fazendo-as crescer episódio por episódio, revelando nuances de cada uma delas.

 

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Freak Show se apresenta como uma sólida temporada, ambientando bem as contradições do universo circense, colocando mais uma vez as crueldades e distorções de personalidade nas personagens mais inesperadas e utilizando bem os aspectos visuais do audiovisual tanto para criar uma ambientação, quanto para construir personagens e justificar aspectos da trama.

 

 

* Life on Mars é uma música de David Bowie, de 1971.

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

Terror em Série: American Horror Story e o mistério da Suprema

 

A nova temporada de American Horror Story está em seu sétimo episódio e, até então, retornamos a ver as histórias  que os fãs tanto esperavam, trazendo de volta personagens emblemáticas da primeira, da terceira e, até, da quinta temporada.

Deixamos um pouco de lado o futuro distópico, arruinado, até onde podemos saber e entender, pelo filho do mal, Michael Langdon. A temporada, nesse momento, se foca em mostrar como foi que chegou-se ao ponto de destruição total e como Langdon conseguiu ascender e chegar ao poder, sendo um Supremo, fato bem incomum, já que as mulheres herdam a supremacia, já que são herdeiras das bruxas de Salém.

 

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Aproveitando o lançamento de Apocalypse, sétimo ano da produção, aproveitamos para trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos a oitava. Murder House e Asylum já foram comentadas e você pode conferir os textos aqui e aqui. Desta vez, relembraremos um pouco de Coven e suas personagens. A história mostrava duas épocas distintas.  No presente, as bruxas descendentes de Salém, buscam proteção e auxílio para o controle de seus poderes, além da fuga da extinção e, encontram como refúgio, a Academia para Excepcionais Jovens Garotas da Madame Robichaux. A espécie de escola é comandada por Fiona Goode, mãe de Cordelia Foxx. Goode, interpretada por Jessica Lange, está no fim da linha como Suprema e perdendo seus poderes, enfraquecendo. Por isso, precisa encontrar sua sucessora e começa a treinar aprendizes.

No passado, personagens do período da escravidão, que realmente existiram em Nova Orleans, entram em conflito. A série une a socialite e assassina em série Delphine Lalaurie, que torturava seus escravos e a Rainha do Vodu, Marie Laveau. A última consegue vingança contra Lalaurie, mas, quando Goode busca a vida eterna, ela liberta Lalaurie e quebra o pacto de trégua entre as bruxas e as praticantes do vodu.

 

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O estilo de cada época é bem demarcado pela fotografia, pela arte e, claro, pelos figurinos. Se no passado os tons de vermelho e marrom fortes realçavam ambientes duais entre a riqueza e o horror do sangue e da violência, no presente, tons azulados e leves, demarcam uma era de perversidades veladas, onde a crueldade e atos inumanos são realizados com um sorriso no rosto.

Os assassinatos do século XIX possuem uma atmosfera mais sombria, trazendo uma iluminação que busca um naturalismo e que estabelece um ambiente pouco aconchegante. A direção de arte capricha na quantidade elementos cênicos, deixando sempre as locações preenchidas, colocando os corpos dos torturados como parte do cenário, muitas vezes, pendurados. Isto evidencia como a Lalaurie via seus escravos, como animais ou objetos insignificantes. Se existe algo de positivo em todas as temporadas da série é como a mesma consegue unir sua estética bem delineada, com seu discurso. A equipe consegue se apropriar ao máximo da meta de que tudo que aparece em cena deve ter um sentido.

 

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A Academia de bruxas possui poucos móveis e traz numa casa rodeada por um jardim iluminado, corredores e salas enormes e vazias, destacando a solidão que existe ali, mostrando que aquele lugar foi projetado um dia para morarem muitas mulheres, evidenciando assim, que as bruxas estão desaparecendo. O seriado tem uma de suas temporadas mais leves, com uma forte dose de humor, trazendo personagens bem construídas e com características bem delineadas. Cada uma das bruxas possui seus talentos, defeitos e dúvidas, fazendo com que seja difícil identificar a nova Suprema. Mesmo com atrizes novas na série até então, o elenco não deixa de ter sintonia e traz momentos potentes como a morte de Fiona ou quando Myrtle é queimada na fogueira.

É também uma temporada que celebra a força das mulheres, o girl power, sem etiquetar cada uma delas em clichês óbvios da feminilidade. A mãe pode amar sua filha e, ainda assim, se importar mais consigo mesma do que com qualquer outro, a atriz de Hollywood fútil, pode ser forte e inteligente e dentro de cada mulher existe muito mais companheirismo pela outro do que pode-se imaginar. Somos todas um pouco bruxas e, juntas, somos bem mais fortes. Coven talvez tenha uma dose alta de reviravoltas, trazendo um tom folhetinesco exagerado e deixa certa inconstância na qualidade de seus episódios. Mas, não perde seu charme e tem personagens e frases icônicas que trouxeram muitos fãs para American Horror Story.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Terror em Série: American Horror Story – uma nova temporada, uma nova história

A nova temporada de American Horror Story começou na última quarta (12) e a expectativa de ver personagens de temporadas anteriores foi quebrada, com um episódio focado somente numa história nunca vista anteriormente. Não vimos nenhum sinal de Cordelia Fox ou Constance Landgdon. De qualquer maneira, calma (!), Fox, Landgdon e tantas outras irão, eventualmente, aparecer. Isso já se é sabido.

Talvez, o Ryan Murphy e sua equipe tenha achado melhor apresentar logo pessoas novas para que o espectador possa de alguma forma se conectar com eles, sem preferência das personagens antigas, que já ganharam o carinho do público. Na carona dessa estreia, resolvemos trazer um comentário de cada temporada por mês, até chegarmos na oitava. Na coluna anterior, abordamos o início do seriado e a força na qual ele já começa. (Para quem quiser conferir o texto do mês passado, clique aqui!

Resultado de imagem para ahs apocalypseImagem de American Horror Story: Apocalypse 

A segunda temporada de American Horror Story chama-se Asylum e é considerada por muitos fãs e críticos como a melhor temporada de todas. Isso se deve ao fato da mesma possuir uma trama muito bem amarrada e personagens que têm mais complexidade, com menos maniqueísmos. Ainda que estas sejam muito más, vê-se a motivação de cada uma. Os episódios vão levando o espectador em uma jornada profunda, num universo do pós-guerra dentro de um manicômio. Vê-se nesta temporada, conflitos clássicos do terror, como uma parte da trama dedicada a possessão de um jovem. Depois que Mary Eunice (Lily Rabe) morre, um demônio entra em seu corpo. A escolha de planos da cena do exorcismo, evoca a memória dos fãs de horror e traz num quarto escuro enquadramentos abertos e zenitais (como vistos de cima para baixo), mostrando toda a geografia da cena.

A irmã Jude, madre superiora do manicômio, que abusa ao extremo de seu pequeno poder por ali, vê-se na cena do exorcismo sem forças para lutar. Na sequência, a atriz Jéssica Lange imprime em seu olhar o medo de estar ao lado, verdadeiramente, de um demônio. E a série joga mais uma vez com a noção dos monstros interiores e humanos. Os homens são os vilões dessa temporada e na cena do exorcismo é quase como se ambos quisessem aquele demônio presente, como se a força sobrenatural soubesse que há uma cumplicidade entre os seres masculinos. Por isso, escolhe o corpo de uma mulher inocente para habitar, de uma freira boa onde teria mais espaço para corromper.

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O manicômio onde se passa a temporada é não somente sombrio, mas, cinzento, com paredes grossas e gélidas que, combinadas com planos mais fechados e quase sempre com movimentos, trazem a sensação de clausura e instabilidade. Lana Winters, a protagonista de Asylum, é uma jornalista lésbica, que é internada no hospício somente por ser homossexual. Vê-se então uma perspectiva do terror não somente pelo sobrenatural mas, mais uma vez, pela capacidade do ser humano de fazer o mal, de torturar psicológica e fisicamente. Winters se torna alvo de experimentos, castigos, como se houvesse nela vilania e é quem em ela mais confia que se mostra seu maior algoz.

Asylum possui uma mistura de linguagens consagradas pelo horror. Diferentemente de Murder House, onde se vê uma construção de linguagem única, na segunda temporada, vê-se uma união de alguns aspectos que são bem amarrados. Uma sucessão de conflitos que misturam filme de possessão, pegadas de Polanski em Bebê de Rosemary, de um universo desconhecido e escuro, onde a protagonista se torna espectadora de sua própria vida, a tortura física que lembra os filmes de Eli Roth (sendo que Roth atua na série e é justamente sua personagem que traz essa atmosfera).

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Há também o conflito com os nazistas e as cenas ficam com luzes mais artificiais, com uma direção de arte preocupada , que faz salas de experimento que são bem diferentes do resto do manicômio. Dr. Arthur, interpretado por James Cromwell, é um médico nazista disfarçado e em sua sala de cirurgia faz os experimentos mais variados com os pacientes do manicômio. Com poucos cortes, suas cenas têm uma amplitude do sentimento de medo, deixando os planos parados e abertos instalarem um sentimento de repulsa bem característico do horror. Esse sentimento reforça uma ambientação terrorífica, deixando claro que os fatos da trama estão mais perto da realidade do que se imagina.

Asylum possui uma competência em sua decupagem, mostrando um jogo de luz entre o que se vê e o que fica nas sombras, brincando com a imaginação do espectador. É uma temporada que utiliza de maneira ainda mais eficaz a linguagem do gênero para evidenciar o horror do cotidiano e das fronteiras das relações sociais que, quando ultrapassadas podem revelar um ser mais demoníaco do que qualquer entidade, o próprio ser humano.

 

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

 

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