Br em Série: Cordel Encantado, a novela que vale a pena ver de novo e de novo

Como falar de produtos seriados brasileiros e não falar de telenovelas? Apesar das mudanças que vêm ocorrendo no consumo televisivo nos últimos anos, e da permanência do preconceito estético em relação à enredos melodramáticos (ou “novelescos”), que supostamente elencam discussões sobre manipulação e alienação, elas ainda estão entre os principais gênero audiovisuais consumidos no Brasil.

Por certo, levando se em conta a longa história e quantidade de novelas produzidas, é compreensível, que assim como as séries, nem todas tenham sucesso, ou sejam produtos minimamente interessantes. O fato de serem exibidas em canais televisivos, ou seja, seguirem uma programação de horários fixos diários, tem contribuído para subtrair cada vez mais o número de espectadores que migram para as plataformas streaming. Porém, ainda é possível ver algumas “quebra-regras” como no caso da novela Cordel Encantado, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes.

 

 

A novela Cordel Encantado nos apresenta uma fábula que se estabelece a partir do encontro de dois universos fictícios, um reino europeu, Seráfia, e o sertão nordestino, Brogodó. A trama oferece referências, misticismo, humor e romance, na mistura de literatura de cordel (cultura popular) com a tradição europeia. A obra não só obteve bastante sucesso de público e crítica em sua primeira exibição na Globo em 2011, no horário de 18h, como também deixou sua marca no horário da tarde, finalizando com notável sucesso, no 03 de maio 2019, sua curta reprise no Vale a Pena Ver de Novo.

 

Inovações narrativas com base na mistura de clássicos

Oito anos depois, a novela de direção de Amora Mautner, mostrou que seu sucesso não foi pontual. Exibida no programa Vale a Pena Ver de Novo, bateu recordes de audiência, em um horário de pouco valor (entre 15h e 17h). Esse sucesso alcançado por Cordel Encantado se explica, logicamente, por suas muitas qualidades, primeiramente narrativas, visíveis desde o primeiro capítulo, e também como um sinal do cansaço do público com o modelo que tem dado a tônica da maioria das novelas nos últimos anos.

Ao invés do uso abusivo de realismo e naturalismo próprio da maioria das telenovelas, Cordel apostou em criar um mundo encantado próprio, da combinação dos contos de fadas com uma ambientação bem regional. O enredo traz elementos da literatura de cordel e das histórias do sertão, relembrando a celebridade que carrega esse tipo trama, como, por exemplo, Auto da Compadecida. O ritmo instigante e ágil, mas que não deixava de dar tempo necessário para que o público conhecesse os personagens e embarcasse na história, é sentido do primeiro ao último capítulo.

 

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A favor da novela também pesa o quesito tempo, na comparação com as novelas, teve a duração mais curta dos capítulos (40 minutos) e um menor tempo de permanência no ar (cinco meses). As autoras não adiaram nenhuma resolução. As tramas eram propostas e logo solucionadas de maneira adequada. Isso não só ocorreu com as subtramas, mas também o mote principal, como por exemplo, a revelação que Açucena (Bianca Bin) era a princesa perdida, ainda logo no início da novela. É comum ver novelas se arrastando com tramas simples por vários capítulos, ou mudando o enredo apenas pelo sucesso da obra com o público (o tão falado hoje, “fanservice”).

No entanto, esta “ligeireza” foi responsável, mais para o final da narrativa, por cair na famosa “enrolação”. Houve uma fase em que, semanalmente, o vilão o Timóteo (Bruno Gagliasso) tramava alguma emboscada ou malvadeza e Jesuíno (Cauã Reymond), o herói, descobria e salvava a princesa e/ou a cidade. Porém, para quem gosta (ou no mínimo sente nostalgia) dos contos de fadas, isso não interfere na apreciação da obra, principalmente porque esse suposto chicerismo se quebra quando se percebe que a princesa é uma nordestina, o mocinho é filho de cangaceiro e o vilão um louco mimado filho de coronel.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e consiste na introdução de elementos supérfluos, com o simples objetivo de entreter o público. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado. Diálogos pretensiosos, casais extremamente forçados, personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Esses são alguns exemplos de fan services mais recorrentes dos produtos seriados (lembrou de algum?). A intenção esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa.

 

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A diversão oferecida ao longo dos meses superou, de longe, esta limitação. O saldo de Cordel Encantado é positivo e  entra para o seleto grupo de novelas que o espectador lamenta quando termina, não é à toa que voltou à Globo. A reprise, inclusive, causou menos a sensação de enrolação, pois foi reeditada para o horário da tarde, e perdeu esses “excessos”.

Outra inovação narrativa é a inversão da ordem de exibição do último e do penúltimo capítulo. O da véspera é típico dos finais novelescos, cheio de emoção e desfechos, incluindo a morte do vilão Timóteo e o casamento de Jesuíno e Açucena em Seráfia. Já o final, praticamente não tem emoção nem surpresas, exceto pela apresentação de um novo vilão, dando brecha, quem sabe (talvez) para uma continuação.

 

Qualidade e cuidado ao detalhes: Música, figurinos e inovações tecnológicas

 

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Além dessas inovações narrativas, e de um elenco bem escalado, a direção de Amora Mautner e de Ricardo Waddington foi feliz em muitos outros aspectos, como em trazer o padrão de cinema (24 quadros por segundo) para a fotografia (inclusive com cenas aéreas belíssimas dos dois cenários e closes generosos no elenco). Também a qualidade dos figurinos, e da iluminação não ficam atrás. As vestimentas primorosas de época poderiam ilustrar modernos editoriais de moda. Por sinal, um elogio as personagens femininas, que mesmo numa trama de princesas, sertão e cangaço, são fortes cada uma em seu jeito particular. Daria para escrever um artigo sobre cada personagem.

O que fica um pouco problemático é a questão da regionalidade. Vê-se que há uma pesquisa e cuidado quando se trata de situações da história do sertão nordestino (ainda mais se referindo a um período antigo), e o fato de se passar em uma cidade fictícia, tira um pouco o peso da representação. Mesmo assim, é possível ver alguns sotaques mais exagerados e estereotipados. Também faz falta mais atores e atrizes nordestinas, apesar de este ser, o melhor papel da vida de muitos atores do elenco.

 

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Outra questão é em relação a trilha sonora, artifício forte das telenovelas. Algumas pessoas sentiram falta de músicas e músicos mais tradicionais do cordel e do sertão (o que seria uma ótima forma de divulgação), porém, creio que trazer, Alceu Valença, Karina Buhr, Lenine, Zé Ramalho, Núria Mallena, entre outros, efetiva essa sensação de nostalgia e regionalismo da trama. Inclusive a abertura, cantada e contada por Gilberto Gil e Roberta Sá, consagram a combinação entre regional e moderno.

A novela se despediu mais uma vez levando seus personagens, cenários e músicas. Foi se embora com seu conto de fadas, suas referências literárias, à História, e a filmes famosos, com seu toque pop e moderno. Só resta esperar por outra reprise, ou quem sabe uma continuação, e lembrar que até as novelas, com criatividade e respeito a nossa história e tradições, podem ser muito mais que melodramas manipulativos ou sem conteúdo.