Br em Série: A fórmula do sucesso: Cine holliúdy traz a comicidade nordestina e homenagem ao cinema e A TV

Parece que apesar do preconceito e descaso com o Nordeste, a cultura da região ainda é receita de sucesso para as narrativas brasileiras. A Rede Globo demonstra ter entendido isso há algum tempo, pois vira e mexe apresenta narrativas com esse conteúdo, desde novelas, filmes a, mais recentemente, seriados (muitos desses produtos adaptados de realizações regionais). Assim, fomos apresentados a Cine Holliúdy,  trama de dez episódios que trouxe de volta à TV aberta o humor nordestino, mais especificamente cearense. Baseada no longa homônimo de sucesso do cinema nacional, assinado também pelo diretor Halder Gomes, a produção retorna com o personagem Francisgleydisson (Edmilson Filho) e outros atores, para a fictícia Pitombas, cidadezinha do interior do Ceará, onde esse “cabra” sonhador e apaixonado por cinema luta para manter viva a sétima arte que está ameaçada com a chegada da TV.

Tanto a série quanto o filme tem a mesma premissa de homenagear as salas de cinema que movimentavam as cidades do interior, mas que hoje, já quase não existem. Porém, nessa nova roupagem, fica forte a metalinguagem com relação a TV. A narrativa, como a abertura (belíssima e cantada por Elba Ramalho e Falcão) coloca, brinca com essa relação: Qual a diferença da TV para o cinema? Parece um pergunta retórica já que a série reverência a TV e suas próprias produções (novelas da Globo) e o cinema (em especial o cinema regional). O tom nostálgico e a homenagem singela é um trunfo do seriado.

 

 

Para quem acompanhou os filmes, pode ficar tranquilo, que apesar do “mão da Globo” visível na produção, Cine Holliúdy tem uma história nova, mostrando o mesmo Francisgleydisson numa versão, anterior a dos dois filmes da franquia, embora ainda dedicado ao cinema.  Francis aqui vive em Pitombas, onde toca um cinema fixo (Cine Holliúdy) nos anos 1970. O problema surge com a chegada da nova mulher do prefeito, a paulista Socorro (Heloísa Perissé), e sua filha, Marylin (Letícia Colin), que o convencem a comprar uma televisão, a primeira da cidade.

O protagonista logo se encanta pela “platinada” e com nome de “estrela do cinema”, Marylin, e daí surge o romance entre “tapas e beijos” entre eles. A graciosidade e determinação da moça da cidade, em contraponto à ingenuidade e esperteza de Francis dão autenticidade ao romance. Ao longo dos episódios, Francis, seu fiel escudeiro Munízio (Haroldo Guimarães) e Marylin decidem criar seus próprios filmes e reconquistar o público.

 

 

Ao redor deles, atuações da melhor qualidade, como o Prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele), que prova mais uma vez o respeito ao interpretar um nordestino, seu assessor (ou capacho) Jujuba (Gustavo Falcão), a primeira-dama Socorro (Heloísa Périssé de volta às telas), e os talentos regionais que fizeram a diferença, como Carri Costa (Lindoso), Solange Teixeira (Belinha) e Frank Menezes (Delegado Nervoso). E é claro, não poderia se deixar de comentar da primorosa narração de Falcão,que também atua como Cego Isaías, com seu sotaque forte dá um aspecto de cordel a narrativa .

 

Ode ao cinema e ao interior nordestino

 

Cine Holliúdy une o bom dos dois mundo: o ritmo rápido (em torno de 25 min), com arcos que se fecham por episódio (trama circular) e que não se enrolam, estilo dos filmes clássicos, com a narrativa simplória, sem tramas muito complexas, típico das novelas. Um história para se distrair, rir e apaixonar pelos personagens.

Os  episódios temáticos são mais uma forma de homenagear o cinema. Em sua saga de herói, Francis lida com situações de filmes de ficção científica, de ação, vampiro, faroeste e até os filmes de luta. Cada aventura dessa vira um filme que ele mesmo produz, e que faz o cinema resistir a TV, pois, em suas palavras, “o povo quer ver filmes com gente do Ceará, e falado em Cearense”.

 

 

Apesar desse clima de descontração, a série não escapa do estilo Globo, com personagens e situações penando para o caricato. A a função de cada personagem é típica e fica explícita logo nas primeiras cenas,  o malandro, o político corrupto, a garota moderna da capital, a fofoqueira, a dondoca, o bobalhão. Porém, a boa atuação, os diálogos, cenários e figurinos caprichados tiram a série do lugar estereotipado e fazem o público se conectar rapidamente.

De um filme de baixo orçamento, que levou mais de 480 mil pessoas aos cinemas, surge uma série, que seguindo o sucesso de produções semelhantes, como Auto da Compadecida e a novela Cordel Encantado, se consagra como mais uma comédia certeira da Globo nas noites de terça-feira,  faixa que teve outras comédias cheias de qualidades, como Tapas & Beijos e Mister Brau. Apesar do horário, Cine Holliúdy exibe um Nordeste colorido, divertido e cheio de aventuras e fantasias que todo mundo pode assistir. O bom resultado trouxe bons ventos, depois do segundo filmes, agora foi confirmada a sua segunda temporada da serie.

 

http://www.adorocinema.com/series/serie-23202/video-19561985/

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

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Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

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Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

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No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Comédia em Série: Barry: E se Breaking Bad fosse engraçada?

Barry é uma série da HBO, lançada em 2018, com a sua terceira temporada confirmada para 2020. A produção acompanha Barry Berkman (Bill Hader), um ex-militar que foi à guerra do Afeganistão e, após voltar aos Estados Unidos, é recebido por um amigo de seu pai, Monroe Fuches (Stephen Root), um oportunista que acaba transformando o protagonista em um assassino de aluguel. Fuches é quem arranja as contratações dele, cuja única condição é que mate apenas pessoas ruins. (mais…)

Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Crítica Shazam!

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Um adolescente de catorze anos tem a possibilidade de gritar “Shazam!” e virar um super-herói cheio de poderes incríveis e surpreendentes. Esse parece o sonho de qualquer criança viva que esse planeta já conheceu e também é a premissa da história sobre Billy Batson (Asher Angel). O garoto é órfão e procura sua mãe, até que ele recebe dons mágicos de um mago misterioso e sua vida acaba mudando completamente. Mas, vamos parar por aí na questão do enredo, senão vai chover spoiler.

Com uma dinâmica que mostra o passado e o presente do mocinho e do vilão, a narrativa se vale de um trauma de infância e da ausência de uma família para retratar os conflitos internos destas personagens. Talvez, a semelhança entre os problemas de Billy e Thaddeus (Mark Strong) e a decisões diferentes que eles tomam a partir deles seja uma espécie de fio condutor da trama. Isto é um ganho porque a questão passa quase suave diante do espectador.

 

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As trajetórias dos dois vão se desenhando durante a projeção e mostra-se o interesse que cada um tem sobre a vida e quando a escolha entre salvar o mundo ou se vingar dele faz com que o traço principal da personalidade de cada um seja definida. Tudo isto é feito com um clima constante de piadas de efeito. Apesar desta comicidade em alto grau cortar o clima de ação em alguns momentos, principalmente na luta final, este fator não compromete a totalidade do filme, justamente porque o herói é um adolescente e estas gracinhas que ele faz lembra sempre o público disto.

Mesmo quando Billy é o Shazam (Zachary Levi), a lembrança de que o um menino está ali fica vivida na exibição. Este também é um mérito de Levi que construiu o super-herói com trejeitos adolescentes, colocando os traços em seu corpo, seus olhares e nas intenções do texto. Contudo, Angel e Levi não parecem construir um papel único. Algumas vezes, faltam traços de atuação semelhantes entre os dois atores, o que deixa as versões destoantes.

 

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Outro ponto que incomoda na projeção são os diálogos expositivos. Ainda que não aconteçam o tempo inteiro, quando ocorrem dão a sensação de que o roteirista (Henry Gayden) subestimou a plateia e coloca textos dos mais ingênuos possíveis na bocas dos intérpretes. Sabe quando aparecem aquelas falas assim “Pai, você sabe que eu sempre odiei cenouras”. Este é um artifício um pouco preguiçoso que quem escreve faz para que quem assiste saiba de elementos anteriores. Porém, quando o roteiro é mais bem trabalhado, ele dá um jeito de contar as coisas de formas mais sutil.

Shazam! possui algumas falhas, mas chega para mudar um pouco o tom das adaptações das HQs da DC Comics, entregando um clima mais leve e menos sombrio, sem deixar os momentos de aventura e ação de lado. No geral, tem um resultado digno, trazendo a comicidade e o espírito do protagonista e deixando a possibilidade de um DCEU (Universo Extendido DC) com cada história dos heróis sendo contada com desenvolvimento e a personalidade que cada um deles merece.

 

Crítica Van Helsing: 3ª temporada peca por falta de fôlego e criatividade

 

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pelo canal SyFy, Van Helsing chega em seu terceiro ano! Passando a sensação de que poderia ter sido mais pontual e enxugado as barrigas, cortando micro conflitos e indo direto para as questões referentes ao plot original, ela chegou naquele momento em que todas as situações pré-conflito grande anunciado já aconteceram. Sabe questões como o mistério da ilha, em Lost; a batalha final de Once Upon a Time ou o end game de Ross e Rachel, de Friends? Então, os problemas menores vividos pela protagonista, Vanessa Helsing (Kelly Overton) chegaram ao seu limite, porque não interferem no resultado final do seriado como todo e adia o desenvolvimento principal da season, deixando as resoluções e ganchos um tanto corridos. Principalmente no que se refere ao dilema moral de Helsing.

O público já viu que os limites entre o bem e o mal que vivem nela estão numa linha tênue, dando uma visão não maniqueísta das suas vivências e esta estratégia era mais eficaz para que o objetivo central dos criadores não ficasse perdido. É um mundo distópico, pós-apocalíptico e uma mãe – que também tem poderes – acorda sem sua filha! Já está dada a situação e quem é esta mulher. A ressignificação deste quadro vem somente para postergar o gancho da finale.

 

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Ao lado desta questão está o fato de que as tramas dos coadjuvantes passam a parecer mais interessantes. Contudo, como a história original se perdeu e agora o espectador tem contato com múltiplas peripécias, nenhum encaminhamento é mostrado em sua totalidade. Assim, pode ficar uma sensação de incerteza sobre o que os roteiristas queriam com o terceiro ano da produção. Se a premissa era a jornada de Vanessa para reencontrar sua filha, depois (SPOILER ALERT!!!) que a garota morreu em seus braços, os rumos do enredo foram ficando nesta neblina, com uma indecisão da importância da personagem principal.

O que acaba acontecendo é que a figura da irmã de Vanessa, Scarlett Harker (Missy Peregrym), se sobressai e consegue captar mais a atenção com a sua história. Tanto no quesito narrativo, quanto de atuação, é ela que parece o elemento mais seguro aqui. Peregrym imprime um tanto de complexidade em Scarlett, sabendo dosar a carga entre as cenas pesadas e os alívios cômicos apenas com olhares e velocidade de texto.  O que é um contraponto com Overton que é menos expressiva facialmente. Apesar desta característica ajudar em alguns momentos a manter o tom de mistério de Van Helsing, no geral, a falta de força da atriz joga o brilho para sua colega de cena.

 

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Por fim, um ponto que talvez seja o mais preocupante seja o fato de um produto de terror ter uma ausência de construção de tensão bem realizada. Além da obviedade dos acontecimentos, o número de tipos de criatura cresce, mas não foram pensadas características para torna-las assustadoras. Uma repetição de caretas para câmera, em uma quantidade de tempo constrangedora, não convence. Primeiramente, a atuação não soa orgânica. A tendência é acreditar que eles possuem uma ideia do que é um “Monstro” e passaram a rosnar e arregalar os olhos. A essência e motivações vistas em momentos anteriores da série desapareceram. Até mesmo Sam (Christopher Heyerdahl), o vampiro mais assustador deste universo, fica entediante, porque suas ações acontecem de forma dilatada de uma forma que o ritmo se perde.

Renovada para uma quarta temporada, fica a esperança que ela volte para a sua forma anterior, cheia de ritmo, relações que criam empatia e medo!!

 

Terror em Série – American Horror Story: Roanoke e suas múltiplas reviravoltas

A sexta temporada de American Horror Story (AHS) foi exibida em 2016 e trouxe uma tentativa de dar uma complexidade maior para suas tramas, focando em três camadas narrativas diferentes que vão se desenrolando durante os episódios. Além disso, paralelamente, ela mostra o passado da casa na qual a história está centrada.

A narrativa começa bem, mas deixa suspeitas de que talvez se encaminhe por um rumo um pouco repetitivo, trazendo ares muito semelhantes aos de Murder House. Na trama, o casal Matt e Shelby se mudam para uma misteriosa residência, que possui um secreto e sombrio passado. E a história daquele lugar remete bastante à atmosfera da terceira temporada (Coven), onde Kathy Bathes interpreta mais uma vez uma mulher sanguinária, a personagem Thomasin, a açougueira.

 

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Mesmo com as semelhanças, os episódios são consistentes e apresentam um elemento novo: no enredo, uma produção está realizando um documentário sobre os acontecimentos da casa. O tom quase metalinguístico, com pitadas de mocumentário, traz um tom de suspense e uma impressão de que tudo pode acontecer. O risco, algo visto nas obras de terror, se mostra maior, alimentando bem a curiosidade do espectador, dando poucas chaves e abrindo muitas possibilidades.

E aí que mora o maior problema de Roanoke. Muitas portas são abertas e é difícil se conectar com qualquer possibilidade. Após o sucesso da primeira temporada da série ficcional que o público vê na história do seriado, partimos para o segundo ano, agora, com atores interpretando todos os envolvidos na trama. A equipe realiza tudo na mesma casa onde todas as mortes aconteceram. A partir disto, a narrativa se modifica por completo e a metalinguagem e crítica aos realites shows, são substituídos por jump scares baratos e uma grande falta de coesão narrativa.

 

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A relação entre as personagens novas é mal construída e o valor das mesmas parece inexistente. Como elas não possuem um elo forte de ligação com o público, vão se amontoando em mortes diferentes a cada episódio, substituindo aquele suspense característico da série, pela constante procura em provocar medo com fantasmas e assombrações cada vez mais assustadores.

É essa tentativa constante de superar tudo antes já visto no seriado que destrói qualquer forma de conexão que poderia surgir, é extremamente forçada a busca de surpreender. Talvez o maior louro de Roanoke seja a crítica, até um pouco simplista, da sede de sangue que o público estadunidense possui de ver a desgraça alheia. Porém, nada que Black Mirror já não tenha feito em seus primórdios. O sexto ano de AHS fica um pouco no meio do caminho de tudo.

Sobre as intercessões com as temporadas anteriores, os principais destaques são: a primeira bruxa suprema – numa referência à Coven – e a presença de Lana Winters – de Asylum – uma escolha sempre acertada de Murphy. Para os fãs da série, só restou conferir os episódios e esperar pela temporada seguinte, muito superior e que traz de volta o suspense e os dramas que unem psicológico e sobrenatural, explorando o que American Horror Story faz de melhor: encontrar o terror dentro das pessoas mais inesperadas, desvendar almas sombrias de lugares menos prováveis. A quinta  e a sexta temporadas do seriado quase provocaram seu downfall, mas, a mesma se recupera com louvor. Mas, vamos deixar para o próximo mês!

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Especial Maratona de séries curtas para o Carnaval

por Enoe Lopes Pontes

O Carnaval é uma comemoração que possui vários tipos de diversão para cada estilo de pessoa. Pode ser uma época para dançar, cantar, pular, viajar, relaxar, maratonar filmes e seriados ou tudo isto junto. Mas, como o site tem um foco específico, claro, o Série a Sério pensou nos seriadores de plantão e elaborou uma lista com dicas de produções para assistir durante o feriado. Contudo, há um detalhe especial aqui! Todas são narrativas curtas, já que só faltam poucos dias para o encerramento dos festejos! Assim, no top 5 se encontram tramas com poucos episódios, dando a capacidade ao espectador mais apaixonado de ver todos os títulos sugeridos até a quarta-feira de cinzas!

 

LISTA

 

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5 – Good Girls (2018) – Três mães do subúrbio dos Estados Unidos viram criminosas da noite para o dia. Somente a ideia da série já pode despertar certa curiosidade no espectador, certo? Mas, é o desenvolvimento deste plot que mais diverte e surpreende. As reviravoltas dentro da trama é um dos destaques da produção, pois as situações postas vividas pelas personagens principais são quase surreais, dentro do que é apresentando para o público sobre quem são estas personas.  A partir da premissa, existem duas coisas mais relevantes para o prazer em assistir ao seriado: as tiradas sarcásticas (para quem gosta de humor sombrio, melhor ainda) e a forma como as mulheres se unem e lutam por sua sobrevivência, demonstrando toda a sua capacidade de defesa, inteligência e destreza para se safar de situações aparentemente impossíveis de serem solucionadas.

 

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4 – Sex Education (2019-) – Com um total de oito episódios, a primeira temporada do seriado foi tão bem sucedida que a Netflix já confirmou o seu segundo ano no ar. Mostrando o dia a dia de um jovem que tem uma mãe terapeuta sexual, a produção consegue discutir temas importantes e profundos para adolescentes, conseguindo manter um tom leve. Mesclando as tensões e embaraços da puberdade com os maiores prazeres deste período, a graça de Sex Education são as relações de Otis (Asa Butterfiled) com as pessoas que o cercam, sejam as mais antigas em sua vida ou as mais novas. Neste sentido, a dinâmica do protagonista cresce quando está ao lado das personagens Maeve (Emma Mackay), Eric (Ncuti Gatwa) e Jean (Gillian Anderson). Ocupando o espaço de crush, melhor amigo e mãe, respectivamente, é possível conhecer os detalhes sobre Otis nos diversos âmbitos de sua vida, principalmente no que tangem seus conflitos sexuais. Paralelo ao que acontece com o garoto, também existem os casos que Otis analisa quando decide ser um conselheiro sexual dentro de sua escola, inspirado nas coisas que aprendeu dentro de casa.

 

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3 – The Fall (2013-2016) – Criada por Alan Cubbit (Prime Suspect), a série possui três temporadas de seis episódios e conta como Stella Gibson (Gillian Anderson) investiga diversos assassinatos que estão acontecendo no Norte da Irlanda. A trama mostra para o público o ponto de vista da policial e do psicopata, como os crimes são cometidos e quais os caminhos a detetive segue para solucionar o caso. No entanto, é preciso ter estômago para encarar a frieza do assassino Paul Spector (Jamie Dornan) e como o mesmo age com suas vítimas. O ponto alto da produção é a forma como são demonstradas as personalidades das personagens. Todas possuem suas complexidades, por mais que aparecem por pouco tempo na tela. Elas são humanizadas, mas seus atos não são relativizados. A crueldade de Paul é apontada o tempo inteiro, mas é nítida a preocupação do roteiro em mostrar a sua certeza de lógica para suas ações. Ao mesmo tempo, ele é um vilão inquestionável. Da mesma maneira, Stella é a heroína da história, sem dúvidas, porém ela possui segredos e más condutas em alguns momentos. Um segundo elemento destacável é a tensão da proximidade e distanciamento entre Spector e Gibson. Eles dividem o mesmo espaço ou ficam em direções opostas, as cenas de maior intensidade são as que os dois conversam ou ficam no mesmo ambiente de qualquer forma.

 

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2 – Collateral (2018) – Em quatro episódios, a minissérie britânica consegue discutir temas como xenofobia, privilégios sociais e misoginia. Com ação e construção de tensão, o espectador pode ser pego pela produção por gostar de histórias de crime e mistério. Mas, outro viés intenso é o olhar sob as personagens femininas da trama. A câmera revela a empatia entre as mulheres e o olhar sujo e/ou equivocado que os homens possuem sobre elas. Contudo, esta camada é sutil sem, no entanto, deixar de ser perceptiva.  Um bônus é a interpretação da atriz Carrey Mulligan (Educação). Com gestos precisos, ela demonstra o presente e o passado impressos em sua construção para o papel. Vê-se em Kip a ex-esportista, a policial, a mãe, a mulher etc.

 

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1 – The Good Place (2016-) – Criada por Michael Schur (Parks and Recreations), a série conta a história de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell). A jovem acabou de morrer e foi parar em uma espécie de paraíso. O lugar calcula a entrada de seus moradores através de um sistema de pontuação de atos bons e ruins. Esta é apenas a premissa da produção que possui muitos plot twists e novas descobertas a cada episódio. Este fator poderia fazer com que a trama se desgastasse ou parecesse apelativa. Contudo, a estratégia de reviravoltas enormes acabam dando fôlego para a história. O ritmo não fica comprometido, pois as relações interpessoais acontecem em uma velocidade oposta aos acontecimentos gerais, nos quais estão envolvidos todos que cercam Eleanor. A utilização de temores cotidianos humanos, junto com o estudo da Ética e da Moral, mais o humor típico de Schur dão o tom e a graça de The Good Place, que merece ser vista.

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