Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

Resultado de imagem para o escolhido serie

 

A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

Resultado de imagem para o escolhido serie

 

Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

Resultado de imagem para la casa de papel nairobi

 

Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

Resultado de imagem para la casa de papel nairobi

 

Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

Resultado de imagem para la casa de papel nairobi

 

No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Críticas: Segunda Temporada de “Dark” é mais sólida e intensa

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de uma espera de quase dois anos, a Netflix disponibilizou a segunda temporada da série Dark. Realizada na Alemanha, a produção chega neste novo ano com mais fôlego, um enredo menos óbvio do que a da sua antecessora e com mais fios para compor a sua teia de Ariadne. Após o cliffhanger do 1×10, o público descobre um pouco das consequências das ações de Jonas (Louis Hofmann) no “passado”, “presente” e no “futuro”. Com isto posto, o jovem precisa compreender quais os melhores passos seguir para evitar uma tragédia que está por vir.

Aqui, um dos maiores ganhos é a forma como o protagonista continua a ser o fio condutor da trama, mas agora deixando que as outras histórias se desenvolvam com mais profundidade e sob outras óticas além da sua. Não apenas as viagens no tempo, mas as decisões e suas consequências são postas nas mãos de todos os indivíduos importantes da trama, mas o gancho nunca deixa de ser a personagem principal. Assim, as escolhas de Baran bo Odar (Crimes na Madrugada), e dos outros roteiristas que assinam com ele, traz um equilíbrio e maiores surpresas para o desenvolver dos atos postos em cada sequência.

 

Resultado de imagem para charlotte dark

 

O jogo de cores no figurino – criado por uma equipe de mais de dez pessoas – e o de luz e sombra na fotografia, feita por Nikolaus Summerer (Invasores: Nenhum sistema está salvo), continuam sendo marcas de linguagem selecionadas para ambientar o espectador em que período os fatos narrados estão acontecendo. Contudo,  sem nunca perder os tons neutros, principalmente bege e marrom, que instalam sensações ambíguas que vão de uma ambiente depressivo até um local caseiro, que inspira conforto e segurança.

A complexidade de Dark também está na direção, nos movimentos de câmera que revelam múltiplas visões de um mesmo fato, revelado apenas depois que o público descobre quem está envolvido na situação. Outro recurso bem utilizado é a câmera subjetiva que instaura um clima de tensão e dúvida, até que o narrador seja evidenciado, com uma plano médio ou até um close, criando uma espécie de cumplicidade com a plateia. Nestes instantes, sempre fica estabelecida uma incerteza se um plot twist virá ou não. Além disso, mais uma camada de informação é colocada, podendo instigar quem assiste e amarrando acontecimentos prévios.

 

Resultado de imagem para hannah dark

 

No entanto, apesar de conseguir elevar a qualidade em relação ao primeiro ano, os novos episódios pecam em não irem tão além do que já tinha sido mostrado. Apesar dos reforços em contar as trajetórias dos indivíduos mostrados na tela, dos fatos serem esmiuçados e duas revelações serem contadas – uma muito impactante e outra nem tanto – a finale deixa certo gosto de engano. Isto porque o cliffhanger é perigoso para a qualidade do desfecho do seriado – outras ficções já tentaram seguir por este caminho e falharam, ou não – e porque nenhum elemento diferente é posto. As ações prosseguem e as vidas permanecem. Resta apenas descobrir se toda a premissa original irá levar a história para algum lugar.

 

Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

Resultado de imagem para samantha!

 

Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

Resultado de imagem para samantha segunda temporada

 

Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

Resultado de imagem para coisa mais linda

 

Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

Resultado de imagem para coisa mais linda

 

No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

BR em Série: Nem 8 nem 80, distopia brasileira “3%” apresenta inovações, mas mantém velhas problemáticas

A série 3%, desde seu lançamento em 2016, dividiu opiniões e proporcionou debates a respeito das produções nacionais. O seriado já caminha para sua terceira temporada, em 2019, tendo sido a série de língua não-inglesa mais assistida dos EUA, além de ser uma das séries brasileiras da Netflix de maior sucesso. É impossível não se questionar o que proporciona esse efeito se, por outro lado, tantas foram as críticas desfavoráveis por grande parte do público e da crítica brasileira. Uma conclusão mais ingênua levaria a velha falácia, “falem mal, mas falem de mim”, isto é, todo o burburinho em torno da série teria influenciado na sua visibilidade. Essa afirmação não é de todo falsa, porém, esse não é único responsável. Dois pontos podem ser considerados importantes para pensar essa recepção: primeiro, trata-se de uma trama que mistura gêneros clássicos e populares, um mundo ficcional distópico carregado de ação, aventura e suspense; e segundo, a exigência por narrativas mais coesas e coerentes.

O enredo é típico das histórias sobre mundos ou futuros ficcionais edificados sob uma organização política-social que representa a antítese da utopia ou uma “utopia negativa”, a chamada distopia. Esse tipo de enredo não é novo, ficou famoso principalmente na literatura com George Orwell e Aldous Huxley, e no meio audiovisual se consagrou e persiste até hoje. Muitos compararam, inclusive, 3% à saga Jogos Vorazes, que também retrata uma distopia política e social e que obteve muito sucesso de público. Contudo, no seriado temos marcas de uma distopia contextual, no caso, bem brasileira. Mesmo se passando num universo fantasioso, a trama encara vestígios do Brasil real e atual. Nesse universo, os habitantes do lugar chamado Continente, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo cruel em que apenas três por cento deles são aprovados e aceitos para irem ao outro lado (Maralto), bom e perfeito. Criada pelo jovem Pedro Aguilera – que pensou a trama em 2011 e colocou três episódios no youtube com esperança que comprassem sua ideia – e dirigida na sua primeira temporada por Daina Giannecchini e o fotógrafo César Charlone (Cidade de Deus), a série em princípio carrega um caráter ensaístico, mas vai ganhando contornos e profundidade à medida que avança, por outro lado, desmonta nos detalhes e em aspectos básicos do roteiro, como diálogos e construção de personagens.

 

Crítica política com metáforas comuns 

O ponto chave da série é trazer os aspectos do gênero ficção, futurismo, e distopia para o Brasil, tanto narrativamente quanto na produção. A Rede Globo ensaiou algumas outras séries nesse sentido, mas sem dúvida a Netflix conseguiu produzir uma das maiores histórias de ficção científica seriada brasileira até agora. Nesse sentido, é injusto criticar o enredo como um todo. Finalmente temos um fim de mundo brasileiro, subtramas de infiltrados, conspiração, anarquia, num lugar fictício, mas notadamente uma metáfora do país. Mesmo que não esteja explícito na série, fica claro que a história se passa num lugar como Brasil. O plot principal, “O Processo”, é quase uma alegoria do vestibular e todo discurso sobre meritocracia e desigualdade social.

 

 

O que muitos chamam de “clichê”, são artifícios típicos do gênero, ou recriações de outras produções – que podem, inclusive, funcionar inclusive como referências (como é o caso da série Strange Things). Porém, não se pode atribuir todas as críticas a chamada “síndrome de vira-lata”, que vê os produtos nacionais com pessimismo e como inferiores.  Essa “síndrome” ainda é muito forte e real, mas a Netflix vem quebrando essa regra produzindo séries em diversos países e muitas com alta qualidade. Por outro lado, as narrativas muitas vezes acabam se enquadrando num padrão trivial e globalizado, influenciado bastante pela plataforma, que é o caso de 3%. O enredo simples e convencional, e muitas vezes redundante, acaba funcionando como uma crítica superficial, mas não deixa de ser atrativo, ainda mais porque foi lançado no momento da polarização política que tem consequências até hoje. Do meio para o final das temporadas, começa a se rechear a trama com ação e suspense, o que eleva a narrativa a um bom entretenimento para quem gosta do gênero. Claro, fica difícil ver isso, quando se compara outras narrativas desse tipo. Poderia ser feito algo mais filosófico, estilo Black Mirror, por exemplo, mas, perderia, talvez, essa carga simplória e melodramática.

Quanto aos termos mais técnicos, para uma produção com pouco dinheiro, consegue-se criar uma atmosfera de ficção científica, principalmente com a montagem e fotografia. O figurino e o cenário do Continente (lado pobre), muitas vezes é forçado para apresentar essa desordem e caos, mas por outro lado, vê-se que há um cuidado com os detalhes. Já no Maralto, acontece o contrário, poucos detalhes e uma representação muito lugar-comum desse “paraíso”. Porém, este poderá ser mais desenvolvido na terceira temporada.

 

Complexidade e Profundidade: Conceitos menosprezados

A principal crítica é sem dúvida ao roteiro. É muito comum ver séries, novelas e minisséries brasileiras muito interessantes de conteúdo, produção e elenco, porém, sempre parece que se dá pouca atenção ao roteiro, principalmente na profundidade dos personagens e diálogos. Problemas no roteiro também geram a sensação de excesso, com muita coisa desnecessária e inútil, que acaba por cansar o público. Da mesma forma parece que tentam preencher “buracos” ou criar situações para agradar o público, típico de muitas produções mais comerciais. Por exemplo, colocando um casal que não faz sentido, simples e puramente porque o público gosta (ou porque acha que o público gosta). É comum esse tipo de estratégia em produções do melodrama, pois o objetivo é emocionar, com um sentimentalismo exagerado, mas aqui se torna trivial, até para o provável público alvo, os adolescentes.

 

Resultado de imagem para 3% serie

 

Os erros de roteiro criam personagens artificiais e estereotipados, sem qualquer indício de sutilezas emocionais ou ambiguidades psicológicas. A dramaturgia é frouxa e há pouca ligação entre fatos, atitudes dos personagens e diálogos. Não se espera um grande enigma ou tese, mas espera-se que as coisas façam sentido. Tudo isso deixa grande parte dos personagens chatos e pouco interessantes, como o caso do personagem Fernando (Michel Gomes) que tem um enredo inicial interessante, mas acaba se tornando o mero par romântico, o herói apaixonado.

Não se trata de atuação como muitos tentaram justificar, temos atores célebres desde o elenco principal, como o baiano João Miguel e a própria Bianca Comparato. O problema não são os atores e atrizes, são os personagens e os diálogos. O roteiro tem furos, e os personagens também parece que querem “preencher buraco”, deixando as ações rasas e muitas vezes previsíveis. Em outros momentos, os personagens agem de forma aleatória, como por exemplo, o “vai e volta” da personagem Michele (Bianca). Os diálogos são supérfluos, curtos e sem carga. A melhor personagem com pouco tempo de aparição é Zezé Mota (inclusive um personagem que precisa ser mais explorado). Os antagonistas são sempre muito maniqueístas, quando tentam dar um lado humano a eles, construir um arco a partir de suas relações e histórias de vida (como com Ezequiel e sua mulher Julia), se perdem, e na segunda temporada isso volta se repetir com a personagem Marcela (Laila Garin).

O problema com atuação pode ser atribuído mesmo, a figuração e aos atores secundários (problema de muitas produções brasileiras), que parecem ser pouco preparados e, por isso, agem de forma caricata e exagerada. Não se trata de dar explicações para tudo, você até aceita o mundo que eles criam (mesmo sem necessidade de falar como aconteceu para virar esse cenário distópico), mas por conta do roteiro fraco, não cria laços afetivos com os personagens.

 

Amadurecimento e alegorias

 

 

Em compensação, a partir do meio da temporada, a série ganha maior ritmo de suspense e ação, com micro-tramas interessantes, como a relação com os infiltrados. Aliás, toda a trama da Causa, movimento que propõe a derrubada do modo tradicional, que ganha força na temporada, é bem desenvolvida, mesmo que personagens como Michele e Fernando ainda estejam perdidos.

A crítica metafórica ao Brasil também se fortalece. Com o foco no Continente, vemos surgir pautas como a violência e sujeição  policial, e a atuação de milícias (sim, com esse mesmo nome), debates sobre corrupção e desigualdade se aprofundam, e debate as formas de resistência e revolução com um viés mais filosófico. Tratam também de religiosidade, ainda que superficial para falar de alienação, e do carnaval (com uma cena com música e performance da cantora Liniker), com intuito de tratar da ideia de pão e circo. Apesar disso, ainda se percebe que muita coisa do roteiro é pensado para conectar o público a realidade brasileira, mas, por exemplo, na cena do que se configura como um carnaval, apesar de belíssima, não faz diferença nenhuma para a trama como um todo, se configurando quase como um videoclipe.

Dentro da Causa, os personagens vão ganhando mais contorno, aliados a pensamentos de ideologia que questionam a lógica revolucionária, como por exemplo como ministrar a sociedade após a quebra do sistema, e o debate sobre individualismo e egocentrismo, representado por alguns integrantes que são impulsionados muito mais por motivos particulares que por uma teoria revolucionária.

A terceira temporada estreia ainda esse ano. Segundo informações da produção, esta irá focar no Concha, um terceiro lugar, representando a esperança.  A questão que fica é, se tivéssemos o poder para recomeçar, fazer algo novo, conseguiríamos fazer diferente? É esperar para ver! Abaixo o link da primeira e da terceira temporada.

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Crítica: Nem terrível e nem incrível, “Boneca Russa” é um bom passatempo

 

por Enoe Lopes Pontes

Parece que tem sido cada vez mais difícil de se encontrar uma série que seja equilibrada, na qual início, meio e fim possuam justeza, ritmo e costura. Boneca Russa se encaixa, de certa forma, nesta categoria. Seu piloto não entrega de cara a complexidade que a produção trará em seu desenvolvimento e seu desfecho não faz jus ao material que é exibido durante sua primeira temporada. Parece que todo o esforço criativo ficou para o seu recheio.

Narrando a trajetória de Nadia (Natasha Lyonne), a narrativa mostra como a moça morre e acorda repetidamente, em seu aniversário, numa espécie de rotina como a mostrada no filme Feitiço do Tempo (1993). Neste clima, pode ficar no ar, no primeiro episódio, uma sensação de que a história é boba e clichê demais. Isto porque, além do plot já ter sido visto no longa citado e em diversos outros, as personagens parecem um tanto planas e de caracterização fraca. A razão desta afirmação vem de que elas soam como grandes estereótipos, como: a amiga chapada (Maxine), a namorada certinha e cdf que comente erros, pois está entediada (Beatrice), a figura materna em forma de psicóloga (Ruth).

 

 

Contudo, estes tipos que cercam a vida da protagonista vão se tornando menores diante dos conflitos interiores e passados que a atormentam, juntamente com o mistério que sua vida se tornou. E é a partir daí que o enredo passa a ser mais bem trabalhado. O tom que Lyonne dá se encaixa com o peso dos acontecimentos da vida de Nadia, seu corpo vai perdendo as marcas e trejeitos já encontrados em outros papéis dela, como a Nick, de Orange is the New Black e sua Nadia vai ganhando contornos específicos dela, como o jeito de olhar mais fixo ou a postura. O roteiro passa a ter, suavemente, progressão. Aumentando as tensões, através de pistas que começam a aparecer de uma nova relação que vai sendo construída.

Neste contexto, as músicas e as luzes que estão sendo utilizadas passam a dar o clima das cenas, como cores mais azuladas em zonas de conforto ou quando respostas para certos conflitos vão aparecendo. As temperaturas mais próximas do magenta deflagram os medos e a morte. Os tons escolhidos em si não são uma grande novidade, mas como eles surgem na tela surpreendem, porque mudam repentinamente, assim como as certezas de Nadia e outra pessoa de dentro do problema com ela e fazem sentido para a trama (Sem Spoilers).

 

 

Por fim, é notável o cuidado da direção de arte em fazer com que elementos cênicos desapareçam lentamente e quase despercebidos, até o ápice desta necessidade, quando pessoas e coisas vão desvanecendo bruscamente. Todos estes elementos parecem estar cuidadosamente previstos no roteiro, escrito por Natasha Lyonne, Amy Poehler (Parks and Recreation) e Leslye Headland (Dormindo com Outras Pessoas). É possível enxergar a tentativa de criar uma dinâmica no texto, jogando com a velocidade dos tempos das cenas, com o ritmo dos diálogos e os progressos e percalços dos indivíduos retratados no ecrã.

No entanto, o encerramento do problema inicial é previsível e simples demais, perdendo a potencialidade do que está sendo contado. Talvez, se houvesse mais tempo para o desfecho – 50 minutos que fossem -, não seria tão abrupta a resolução, que parece tão leviana e preguiçosa quanto o início. Isto porque pode ficar parecendo para o espectador que as roteiristas sabiam o que queriam contar, mas não como começar e finalizar, porque não fica tão elaborado, não cria empatia ou sentido, é repentino. Mas, são oito episódios de 25 minutos cada. Então, vale ver, principalmente pela discussão não panfletária e de interpretação carregada sobre doenças mentais e vícios.

 

Críticas: Previsível e sem costura “You” é entediante do início ao fim

Paira no ar uma sensação de que a sociedade performa uma romantização de relações tóxicas, desde sempre. Seja na ficção ou na vida real. Essa sensibilidade para notar a linha tênue entre amor e psicopatia é um dos maiores ganhos da série You. Talvez o único. Produzida pela Lifetime e distribuída mundialmente pela Netflix, a produção conta a história de Joe (sim, Penn Badgley, o Dan Humphrey de Gossip Girl), um garoto aparentemente inteligente, educado e carinhoso que, na verdade, é um assassino frio, um homem manipulador e perigoso.

Do outro lado, tem-se a mocinha do seriado, Guinevere Beck (Elizabeth Lail, sim, a Anna de Once Upon a Time). A jovem é um retrato fiel de uma menina de comédia romântica – mão à toa, escolherem uma atriz que fez uma princesa! E é a partir deste ponto que começam os incômodos com a produção. Apesar de ficar claro que muito do como a personagem é mostrada vem da idealização que o protagonista faz da moça, em alguns momentos o estereótipo de mulher “feminina” prevalece. Quando ele diz, por exemplo, que ela está quer se mostrar e ser vista, pois gosta de ter a privacidade invadida por ter os perfis de suas redes sociais aberto ou por ter uma janela de vidro, ou quando ela é posta como uma figura sem forças e que precisa de um homem para protegê-la.

 

Resultado de imagem para you série

 

Pois mesmo quando não a vemos sob o olhar de Joe, algumas dessas suposições dele são reafirmadas, como a o sentimentalismo exacerbado de Beck ou sua passividade diante de maus tratos de seus amigos. Talvez, a tentativa fosse criticar a fetichização que os homens fazem com as mulheres e a noção deturpada do que é carinho e atenção que eles têm. Mas, esse feito não é realizado. E esta inabilidade não fica somente aí.

You é a típica série contemporânea que filia o público com bons cliffhangers e tem o recheio insossos e entediante. Falta ritmo! Não há uma intercalada entre os tempos. Mais da metade de cada episódio é arrastada e somente os minutos finais são de tensão. Desta maneira, não há progressão e/ou níveis de dinâmicas, ações e/ou suspense. A maior parte do tempo, pode-se conferir os pensamentos do protagonista, que fica lambendo suas feridas, pois sempre acredita estar sendo traído pela namorada. Não que isto seja um defeito em si, poderia ser bacana, se fosse bem feito. Contudo, não é isto que acontece.

 

Imagem relacionada

 

Sem dúvidas, aesteo ponto alto na falta da qualidade do projeto. As narrações de Badgley são infinitas, monocórdicas, eternamente no mesmo tom. É quase como se eles quisessem fazer um clima meio Dexter (2006-2013), mas sem dar colorido ao texto ou mostrar imagens que equilibrem a temperatura da cena que que acaba ficando constantemente morna. E assim o é porque, para completar os problemas da escrita da série, os conflitos são jogados no enredo, mas eles demoram para voltarem a ser mencionados. Enquanto isso, vão surgindo subtramas que vão sendo deixadas para trás ou que somem e a aparecem de vez em quando.

 

A única coisa pior que tudo isso é saber que eles contarão com uma segunda temporada.

 

Maratone como uma Garota!: Tabus, liberdade e sexualidade feminina em Sex Education

Sex Education é muito mais do que pode parecer! A comédia dramática britânica, que está entre as queridinhas do público, se passa em um colégio cheio de adolescentes e tem como tema central: Sexo! Na infinidade de clichês que poderia emergir daí, a série, criada por Laurie Nunn, surpreende pela lucidez com que aborda temas e tabus que a maioria dos jovens vive, viveu ou vai viver um dia. A diversidade de questões apresentadas, como homossexualidade, aborto, sororidade, masturbação feminina, orgasmo e virgindade, bem como a complexidade na construção das personagens, são alguns dos trunfos. A Maratone como uma garota! de hoje vai discutir a importância de se abordar a sexualidade feminina e a liberdade sexual das mulheres em produtos para um público mais jovem.

 

O enredo centra-se em Otis (Asa Butterfield), típico adolescente nerd de 16 anos, que é um grande conhecedor de sexo, só que na teoria! Ele é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson), com quem tem uma relação próxima, mas um tanto complexa. Otis, que além de virgem tem problemas para se masturbar, entra em uma sociedade com Maeve (Emma Mackey), após dar conselhos sexuais ao valentão do colégio. Maeve propõe que Otis seja um consultor sexual em troca de dinheiro. É nesse consultório “clandestino” que começam a emergir reflexões, dúvidas e situações inusitadas que envolvem sexo, jovens e relacionamentos. A virgindade, por exemplo, é abordada de modo cômico, mas sempre trazendo a reflexão: por que o sexo é tão importante (ou não) para cada um?

 

 

Maeve tem o protagonismo feminino na série. Sua (im)popularidade se deu por boatos envolvendo sua intimidade sexual. Apresentando-se como rebelde e anti social, a personagem é uma das mais bem desenvolvidas e ricas. A segurança com que lida com a própria liberdade sexual demonstra não só maturidade pessoal, mas conhecimento teórico e histórico sobre feminismos e literatura, mostrando como somos multifacetados e rompendo com certa tendência de reduzir as mulheres a certos estereótipos limitantes (a “nerd feia”, a “gostosa popular”, a “loira burra”, e quantos mais se lembrar). Além da amizade secreta com a popular Aimee Gibbs (Aimee Lou Wood), tem uma relação casual com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o rapaz mais popular do colégio, que está apaixonado por ela. *SPOILER ALERT*. O drama da gravidez na adolescência é um tema delicado, especialmente quando envolve a escolha pessoal de optar por interrompê-la. A escolha do aborto é retratada de modo direto, sem julgamentos morais e sem diminuir a complexidade do ato, com uma lucidez que merece reconhecimento.

Sororidade, aquela palavrinha que vira e mexe aparece por aí, e que já abordamos em outras colunas, marca grandes momentos na série. A “união entre mulheres”, como se define, ganhou contornos bem significativos na trama. Maeve e Allison, por exemplo, pertencentes a mundos completamente diferentes, não só compartilham confidências, mas respeitam a individualidade, fortalecem e incentivam uma a outra. Isso é fundamental para que as adolescentes vejam as diferenças por uma ótica mais celebrativa e inclusiva. Allison, que sempre se esforça em agradar os parceiros, busca ajuda com Otis para tentar descobrir o que de fato lhe agradaria sexualmente e a orientação que recebe é bem simples, mas um dos maiores tabus dos séculos –*SPOILER ALERT*: a masturbação feminina. A prática não só ajudou-a a conhecer seus prazeres e preferências, mas a si mesma, tornando-a mais segura em suas ações. Muitas mulheres não conhecem o próprio corpo (como Maeve, que não localizou o hímen no desenho educativo) e isso é parte de um sistema de violência de gênero educacional.

 

 

O ponto alto de como a sororidade pode ser revolucionária vem quando o vazamento de uma foto íntima de uma garota e a chantagem sexual gera um clima de tensão no colégio.  *SPOILER ALERT* O desfecho é uma mobilização coletiva para enfraquecer a ameaça masculina de revelar a identidade da garota da foto. “It’s my vagina!” (ou: a vagina é minha!) começa a ecoar no auditório, por todos os cantos. Não importava de fato quem fosse a vítima, se amiga ou não, conhecida ou não, o patriarcado jamais pode ameaçar e violentar uma mulher e sair impune, então, a vagina é de todas nós!

Há um pequeno espaço também para pensarmos as relações entre casais lésbicos. Se no mundo em que a heteronormatividade reina já não se discute tanto a sexualidade das mulheres nas relações heteroafetivas, a invisibilidade da lesbiandade é nítida. Um exemplo é como, durante as aulas de educação sexual (na série), os alunos são sempre ensinados a utilizar o preservativo masculino. Como encontrar prazer e segurança para se relacionar com outra mulher se crescemos em um mundo em que se condena tal ato? Outra personagem marcante é Ola (Patricia Allison), cuja personalidade forte a faz romper vários padrões de gênero, como convidar o Otis para o baile e usar terno e gravata, levar e buscar o pai no trabalho.

 

 

Ainda que o centro da série seja os adolescentes e seus dramas sexuais, Jean, a real terapeuta sexual, tem seus momentos de roubar a cena. Mãe liberal, com sexualidade livre e abertura para todo tipo de conversa, ela não deixa de ter uma relação confusa com o filho, assim como também tem suas próprias dificuldades e entraves com relacionamentos. A personagem, porém, tem uma aparição que deixa um gosto de quero mais. Sex Education ainda rende muito mais discussões e essa temporada terminou deixando o público ansioso para a continuação, ainda que não esteja confirmada. Se tomarmos os produtos culturais massivos como grandes formadores de opinião, podemos comemorar a popularidade dessa série, pois precisamos tratar a sexualidade com mais naturalidade e menos tabus.

 

 

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Crítica: Nem boa e nem ruim! Minissérie “Maniac” quase chega lá!

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela Netflix e criada por Cary Fukunaga (It: A Coisa) e Patrick Somerville (The Leftover), Maniac é uma produção um tanto complexa de se descrever e adjetivar. A sua narrativa não possui unidade, é dispersa e cada enredo que eles criaram é mal aproveitado. Quando o público assiste ao piloto, a impressão é a de que o protagonista é Jonah Hill (Anjos da Lei) e que existirá um mistério a ser contado durante a temporada: o que Owen vê e diz é verdade ou não? Muito bem!

Em seguida, há uma quebra de expectativa – que poderia ter sido bem explorada, obviamente – e o segundo episódio é focado em Annie (Emma Stone). A partir daí, o espectador começa a pensar que irá montar o quebra-cabeça da relação de Annie com a irmã e o que isto tem a ver com Owen  dentro do enredo. Contudo, apesar do 01×02 ser bem executado, impactante, principalmente na forma de conduzir o conflito principal da personagem de Stone, ainda não é ali que a questão mais importante é posta. O que realmente o seriado vai contar é um experimento de uma empresa farmacêutica da qual os jovens interpretados por Stone e Hill irão ser cobaias. Saber que o processo e resultado disto é o que importa apenas fica claro… Bem, no final da série.

 

Resultado de imagem para maniac

O problema é que, ao invés de tentar contar com clareza o experimento e até mesmo usar as informações das personagens que são descobertas nas duas primeiras partes da trama, pequenas partículas de historinhas imaginárias são postas demasiadamente. O roteiro começa a parecer o mesmo labirinto mental que Owen e Annie estão, mas não de uma forma positiva. O tempo que é gasto com as fantasias das cabeças da dupla não têm ritmo, porque ficam estagnadas em um único tom, sem equilibrar aceleração com tensões ou calmaria, as falas são monocórdicas. Quando Maniac chega no final, a conclusão é de ela poderia se resolver em cinco episódios e ser mais impactante ou ter os dez que ele possui, mas que explorasse menos peripécias e desenvolvesse melhor o que importa: a saúde mental de Owen e o conflito de Annie com a irmã – sem spoilers!

Porém, não é possível dizer que a minissérie é ruim! A primeira coisa que chama a atenção é a experimentação de gêneros cinematográficos. Enquanto as cobaias estão desacordadas, elas vivem em mundos imaginários. Neles são mostrados romances, lutas, brigas, gangsters, dramas familiares, suspense, investigação. O tom, os figurinos, as temperaturas e as fotografias seguem bem cada estilo. O ponto alto é a história de máfia, vivida por Owen, que parece uma mistura de Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese), com Baby Driver (2017, Edgar Wright). Mesmo fugindo da história principal que deveria ser contada, aqui o episódio consegue ser mais fluído graças ao ritmo imprenso nas fantasias de Owen. Inclusive, é quando a narrativa começa a voltar para o prumo e se encaminhar para um desfecho.

 

Resultado de imagem para maniac

 

Outro ponto positivo é a dinâmica entre Emma Stone e Jonah Hill. Os dois separadamente estão equilibrados, conseguem captar bem a essência das personagens fixas que fazem, bem como mostram outras facetas quando estão vivendo as pessoas da realidade paralela. Vozes marcantes, postura corporal, malemolência ou dureza, os atores trazem em cada persona uma figura diferente. Mas, as cenas crescem mesmo quando a dupla está junta. A vivacidade de Annie contamina a melancolia de Owen e tanto a dupla quanto os acontecimentos ao redor deles ganha equilíbrio, deixando que a energia seja apenas uma. Além, claro que a trama fica menos dispersa quando os dois se encontram.

Por fim, o clima de futurismo dos anos 1980, numa pegada Blade Runner (1982), é um plus para o seriado, que busca desconectar-se temporalmente. A ideia que se existia no século XX de máquina com sentimentos e pensamentos é colocada a todo vapor em Maniac. Inclusive, a trajetória da personagem/computador, dublada por Sally Fiel (Brothers and Sisters), é a que vai fazendo mais sentido durante as horas de exibição. Assim, a série vira um produto distraído, que pode ser consumido lentamente, sem maratonas, para não ficar entediante.

© 2019 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA