Crítica: Violência e polêmica são tentativas da primeira temporada de The Boys

por Enoe Lopes Pontes

 

Adaptada da HQ homônima da Wildstorm*, The Boys chega no canal streaming Amazon Prime, com oito episódios. Num clima que mescla sátira e crítica ao espírito heroico tipicamente visto em produtos ficcionais e no imaginário estadunidense, a série possui um estilo claro e marcante desde o seu início. A utilização de temperaturas azuladas é o start para esta percepção da ambientação que já vem desde os quadrinhos e que é um pouco intensificada. A escolha pode criar no espectador a sensação de estar assistindo uma das adaptações da DC para o cinema, por exemplo. Existe algo lúgubre e taciturno no ar. Além disso, o tom remete a melancolia e a angústia retratadas na tela. Um exemplo disso é que a cor do super mais abalado emocionalmente é azul.

Neste universo, no qual o tempo inteiro os humanos acreditam que estão sendo salvos, quem tem poderes está constantemente perturbado e agindo de forma negativa, seja para sociedade ou para si mesmo. A lógica aqui é que os supostos protetores da Terra são os verdadeiros vilões. O ponto alto da qualidade do enredo é que, ainda que haja essa reversão de valores, não ocorre a planificação de suas personalidades. É possível notar as nuances em seus caracteres, a medida em que a trama avança.

 

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No entanto, apesar de uma premissa que chama atenção, The Boys é um tanto cansativa, porque possui uma história óbvia. Cena após cena, já é possível saber o que irá ocorrer, inclusive o final da temporada fica previsível em sua metade. A criação das tensões são perdidas pelas escolhas fáceis que Eric Kripke (Supernatural) e sua equipe de roteiristas fizeram. Mesmo partindo de uma outra perspectiva, a dos “supers” que não estão trabalhando para o planeta de verdade e sim são celebridades, todo o resto é semelhante a qualquer publicação com heróis, incluindo a figura do “mocinho”, Hughie (Jack Quai), sem poderes e injustiçado, buscando uma espécie de vingança.

Apesar deste fator, o como as situações acontecem é o que chama atenção. Existe certa coragem em possuir algumas sequências gráficas de violência e ação, que são o recheio principal deles. É este elemento que dá o tom certeiro do seriado: pinceladas de humor sombrio, desenvolvimento dramático** das personas retratadas e um leve dose de horror com a ação. A expectativa que falta no decorrer dos fatos é coberto pelo nervoso em saber como será o próximo cérebro esmagado, a morte seguinte ou algum tipo explosão.

 

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No geral, o resultado é aceitável e até equilibrado. O plot inicial se sustenta, ainda que seja seguido de caminhos previsíveis, o risco no “como” faz o tempo gasto valer. Um possível destaque é a atuação de Erin Moriaty (Jessica Jones), que construiu a jovem heroína com várias camadas, indo de expressões de ingenuidade até de crueldade e falta de empatia, ela consegue elevar os elementos da escrita e imprimir nos seus diálogos a sutileza e o peso necessários para sua Annie.

 

 

* Em seguida, as HQs passaram a ser publicadas pela Dynamite Entertainment.

** Drama mais no sentido mais próximo do trágico, de situações triste e não do significado atribuído pelas Artes Cênicas ao falar dos gêneros textuais (Épico, lírico e dramático).