Série em Pauta: Conselho Jedi Bahia promove festa para fãs de Star Wars

Quem já ouviu falar sobre a data comemorativa mais importante para os fãs de Star Wars (SW)? Para quem não sabe, todo dia 04 de maio é utilizado pelo fandom para celebrar a saga. A ligação entre uma coisa e outra? O som da frase em inglês. Lembra do lema da produção? May the force be with you. Acontece que quando se fala sobre o quarto do dia deste mês, em inglês, a semelhança é muito grande, por isso o nome May the 4th. Pensando nisso, o Conselho Jedi Bahia (CJBA) realiza, neste sábado, 04, comemorações voltadas para os apaixonados pela franquia SW. Entre 14h e 18h, no Portela Café, ocorre a May the 4th POP, uma feirinha com jogos, exposição, bate-papos e várias atrações para o público geral. A classificação é livre e a entrada gratuita. Já a partir das 22h, o local passa a sediar a May the 4th Party, festa com DJs, batalha de cosplays e drinks especiais. A faixa etária permitida é acima dos 18 anos e os ingressos são vendidos através da plataforma sympla: www.sympla.com/vemportela . Para maiores informações, acesse este link.

 

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Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Crítica de Vingadores: Ultimato SEM SPOILERS

por Enoe Lopes Pontes

 

Em 2008, o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) deu largada em suas produções, com o longa Homem de Ferro. O filme foi um sucesso e outros super-heróis deles ganharam espaço nas telonas. Cuidadosamente, foram sendo lançadas as tramas solo das personagens. Ainda que nem todas as projeções fossem boas, elas seguiam um nível básico de qualidade, conseguiam, pelo menos, introduzir figuras importantes da HQ para os novos consumidores e agradar os fãs das comics também. Em 2012, o primeiro Vingadores foi lançado. Onze anos depois do início desta trajetória, chega aos cinemas Vingadores: Ultimato.

Aqui, é possível notar uma ode ao MCU. Durante as longas horas de exibição, é possível encontrar muitas referências e memórias de outros materiais deste Universo. O reencontro com algumas personas já conhecidas pelo público e a maneira como é possível ter contato com a evolução da personalidade delas é o traço mais marcante de Ultimato. Sem pressa, ele revela os lamentos e a busca para se reerguer dos indivíduos escolhidos como principais nesta trama. Sem spoilers, pode-se dizer que todos os mocinhos com enfoque neste último “capítulo” recebem no roteiro aquela “fórmula” da jornada do herói. Incluindo estratégias elaboradas para a saída de alguns deles.

 

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No entanto, se tem uma coisa que Vingadores: Ultimato não é de jeito nenhum é enxuto. Cheio de gorduras, algumas cenas parecem mais dilatadas do que deveriam ser. Não pensem que isto se dá ao fato de que cada conflito interior das personagens de destaque nesta projeção que faz com isso aconteça. Na verdade, é o como isso se dá que interfere no ritmo do longa. Porque o desenvolvimento de personagem é algo importante, mas pode ser feito sem interferir negativamente no todo. A mescla de dinâmicas é que dá o tom não entediante de alguma produção. E isso não quer dizer, no entanto, que uma série de explosões e sequências “animadas” tenham que ser inseridas. Pelo contrário, é o equilíbrio das duas coisas.

Por este motivo que o novo Avengers peca. Ele passa tempos longos em momentos de intensa lentidão ou aceleração, sem casar bem uma coisa com a outra. Inclusive, apesar da grandiosidade e plot twists impressionantes na cena da batalha final, por exemplo, pode ficar uma sensação de que o espectador não consegue de fato acompanhar todas as lutas, porque as explosões e subtramas do embate fazem com que não se possa aproveitar tudo. Sem contar o que acontece, pode-se dizer que a construção demorada e lenta de algumas situações não estão no ápice do enredo e outras aparecem apenas ali.

 

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Outro ponto questionável é a utilização do vilão. Uma aura de medo e tensão foi construída ao redor de Thanos (Josh Brolin) em Guera Infinita (2018). Isto se perdeu no meio de reviravoltas, na fisicalização da personagem e em como ele realiza suas ações. A ideia que pode aparentar é que deixaram ele um tanto ingênuo, nem o seu corpo nem o que sai de sua boca parece ser equivalente em fortaleza e certeza que vinham sendo demonstradas anteriormente.

Contudo, é preciso ressaltar um elemento positivo em Ultimato. A forma com que a equipe conseguiu finalizar todo o caminho que fizeram desde 2008. É como se ficasse claro quem foi o protagonista durante todos esses anos e como o desfecho disso encerra um ciclo com coerência e, até mesmo, referências lá do primeiro longa. Pontas soltas da saga também foram resolvidas, ainda que as gorduras estivessem presentes, as soluções de conflitos exteriores e interiores foram postos na tela.

Vingadores: Ultimato é uma projeção voltada para agradar os fãs e finalizar uma era. Durante três horas de exibição, altos e baixos podem ser visualizados e cenas como a Viúva Negra comendo um sanduíche com o Capitão América, pensando “na morte da bezerra” dão oportunidade do público aproveitar para dar aquela ida ao banheiro. Ainda assim, o filme não é nenhuma vergonha e encerra com alguma dignidade a trilha de sucesso que a Marvel instaurou para si em seu MCU.

 

Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

Plano em Série: Sharp Objects – Um Olhar Sobre a Cinematografia

Desde o sucesso de Game Of Thrones (2011) a HBO tem investido em conteúdos originais cada vez mais sofisticados. Este também é o caso da série Sharp Objects (Objetos Cortantes, em português). Lançada em 2018, pelo canal fechado e estrelada por Amy Adams, a criação é assinada por Marti Noxon, uma produtora influente no universo seriado estadunidense. Noxon tem no seu currículo a produção executiva de Mad Men, Grey’s Anatomy, Prision Break e Buffy, a caça vampiros, por exemplo. O diretor dos oito episódios é o canadense Jean-Marc Vallée, o que mantém uma unidade interessante na mini-série, contrariando o modismo (ora produtivo, ora cansativo) de um diretor por episódio. Vallée já vinha da competente direção de Big Little Lies, outra mini-série premiada da HBO.

Sharp Objects conta a história da repórter Camille (Adams), jovem que precisa retornar à sua cidade natal para escrever uma matéria sobre o desaparecimento de uma garota. Em uma relação completamente instável com sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), e sua meia-irmã, Amma (Eliza Scanlen), Camille vive o conflito do desaparecimento alheio no vórtice de seus problemas familiares de forma a intensificar a sua condição psicológica – ela sofre de auto-mutilação.

 

 

Para construir a personalidade e os displays comportamentais de Camille, a dupla de diretores de fotografia Ronald Plante e Yves Bélanger assumem estratégias eficientes assim como o time de montadores liderados por Jean-Marc Vallée. Aqui vale a pena uma dedicação aos princípios da cinematografia utilizados por Plante e Bélanger para compreender um pouco da engenhosidade dos episódios centrados em uma linguagem de suspense. A câmera majoritariamente utilizada foi uma Arri Alexa Mini e um conjunto de lentes Prime Arri Zeiss – e isso significa que a equipe conseguia um aspecto imagético mais escuro (subexposto) com segurança, além de escolher uma espécie de textura na imagem mais próxima da realidade, evitando luzes artificiais e fugindo da perfeição. Assumir essa estrutura imagética como linguagem facilitou, inclusive, o tratamento de colorização final, já que a cinematografia teve poucas exigências quanto as diferenças na luminosidade – mas não dispensou o rigor na aplicação do LUT (Look Up Table) que uniformizou o visual de toda a série.

As sequências externas foram filmadas com prioridade para a luz natural. Neste sentido, é possível perceber a diferença na intensidade da luz a depender do episódio. Há realidade em assumir que os dias e as nuvens interferem nos tons de pele e nos reflexos dos objetos, por exemplo. A luz era proveniente de janelas, sempre presentes na casa de Adora e de práticos (objetos de cena que projetam luz, como abajures, lustres, velas, lâmpadas, tubos fluorescentes, letreiros luminosos, etc.). Essa composição influencia absolutamente na relação que Camille tem com o espaço, como ela transita por ele, se relaciona com a sua dependência com o álcool e também com sua família. E para além das definições de luz, há um investimento na estratégia de utilização da câmera – ela está sempre na mão e sempre com Camille. A câmera não se distancia da protagonista mesmo durante os flashbacks frequentes ou quando ela visita memórias inconscientes, subjetivamente é possível ver o olhar de Camille e objetivamente é possível ver quase que através dela (há um acento no famoso POV – Point of View). Neste sentido há uma decupagem livre, acompanhando os desejos da personagem e suas ações de forma sensível e corajosa.

 

E a Arri Alexa Mini está na mão. Ela trepida, se mexe, se desestabiliza sempre. Assim como Camille está destroçada em reviver memórias difíceis, a câmera conversa com a protagonista ora como se fosse ela mesma, ora como se assumisse o seu alterego. Um trabalho impreciso e por isso precioso, sufocando a intimidade de Camille, arrebatando suas inseguranças e vivendo com ela todo o suspense que Sharp Objects deseja sustentar.

**Marina Lordelo é fotógrafa, crítica do audiovisual, pesquisadora e diretora de fotografia.

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

Na Trilha da Série: o seriado musical Sandy & Junior

Se sua infância/adolescência aconteceu em algum momento entre os anos 1980 e 2000, é muito provável que você tenha acompanhado a trajetória de uma das duplas de irmãos mais famosas do Brasil: Sandy & Junior. Com carreira iniciada em 1989 – comemorando 30 anos em 2019, marco que será celebrado com uma turnê nacional –, o duo alcançou muito sucesso em diferentes vertentes, incluindo algumas experiências de atuação.

Os cantores se transformaram em atores para protagonizar o filme Acquária, (2003), e Sandy chegou até a interpretar a personagem principal de uma telenovela das seis da Globo, Estrela-Guia (2001). No entanto, foi entre 1999 e 2002 que a dupla teve seu início na televisão, encabeçando um seriado musical nessa mesma emissora, intitulado Sandy & Junior. No início desse projeto, a cantora possuía 16 anos, e seu irmão, 15.

 

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Contando com quatro temporadas e 114 episódios, o seriado trazia uma mistura entre ficção e realidade, sendo que Sandy & Junior eram os protagonistas, interpretando uma versão de si próprios em um contexto ficcional. A série se passava em um colégio onde eles supostamente estudavam, e trazia as aventuras de seu grupo de amigos adolescentes e sua rotina na escola, constituindo um tipo de Malhação encabeçada pelos irmãos famosos.

Sandy & Junior trazia um entrelaçamento da narrativa com a música, contando com números musicais no desenvolvimento da trama. Como os dois personagens principais se interessavam por música – Junior era instrumentista e DJ, e Sandy era vocalista principalmente de eventos escolares –, havia a realização constante de números da dupla sozinha ou acompanhada de seu grupo de amigos. Além disso, eram realizados também números em formato de videoclipe, evocados na abertura e/ou no encerramento dos episódios, que possuíam relação com alguma temática abordada no dia.

 

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A série trazia alguns desenvolvimentos regulares de jovens na faixa etária dos irmãos – como amizade, relacionamentos românticos e preocupações com carreira, por exemplo – além de pautar uma construção de carreira musical. As três primeiras temporadas tinham a escola como cenário central, cada uma representando um ano do ensino médio, e a última temporada já mostrava a transformação dos protagonistas em universitários – Sandy na faculdade de Psicologia e Junior na de Música – e também realizando o seu sonho de cantar, se tornando artistas famosos.

As canções evocadas para números musicais geralmente seguiam a carreira real dos irmãos e seu lançamento de discos. Isso aconteceu também com a abertura: a canção escolhida durante as três primeiras temporadas era “Eu acho que pirei”, lançada antes da estreia da série e um dos hits da dupla. Na quarta temporada, a abertura se modificou não só musicalmente, mas também em imagens, trazendo, ao invés do ambiente escolar, o conjunto de apartamentos em que os irmãos moravam enquanto universitários, e a canção “Não dá pra não pensar”, recém-lançada música de trabalho deles. Havia também o apoio em fatos reais da carreira da dupla de irmãos para construir a trama ficcional: o seriado foi finalizado no ano de 2002, com uma viagem dos protagonistas para Nova Iorque para estudar e investir na carreira de cantores. Nesse momento na carreira real de Sandy e Junior, era lançado seu CD Internacional.

Muitos atores que participaram desse programa em sua adolescência permaneceram como parte do elenco de telenovelas e séries da Rede Globo posteriormente, como é o caso de Fernanda Paes Leme e Paulinho Vilhena, por exemplo. Confiram no vídeo abaixo, realizado pelo canal de Youtube do Viva, uma comparação de fotos de atores do seriado Sandy & Junior enquanto jovens em relação à atualidade, ao som da última canção de abertura da série:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Crítica Shazam!

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Um adolescente de catorze anos tem a possibilidade de gritar “Shazam!” e virar um super-herói cheio de poderes incríveis e surpreendentes. Esse parece o sonho de qualquer criança viva que esse planeta já conheceu e também é a premissa da história sobre Billy Batson (Asher Angel). O garoto é órfão e procura sua mãe, até que ele recebe dons mágicos de um mago misterioso e sua vida acaba mudando completamente. Mas, vamos parar por aí na questão do enredo, senão vai chover spoiler.

Com uma dinâmica que mostra o passado e o presente do mocinho e do vilão, a narrativa se vale de um trauma de infância e da ausência de uma família para retratar os conflitos internos destas personagens. Talvez, a semelhança entre os problemas de Billy e Thaddeus (Mark Strong) e a decisões diferentes que eles tomam a partir deles seja uma espécie de fio condutor da trama. Isto é um ganho porque a questão passa quase suave diante do espectador.

 

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As trajetórias dos dois vão se desenhando durante a projeção e mostra-se o interesse que cada um tem sobre a vida e quando a escolha entre salvar o mundo ou se vingar dele faz com que o traço principal da personalidade de cada um seja definida. Tudo isto é feito com um clima constante de piadas de efeito. Apesar desta comicidade em alto grau cortar o clima de ação em alguns momentos, principalmente na luta final, este fator não compromete a totalidade do filme, justamente porque o herói é um adolescente e estas gracinhas que ele faz lembra sempre o público disto.

Mesmo quando Billy é o Shazam (Zachary Levi), a lembrança de que o um menino está ali fica vivida na exibição. Este também é um mérito de Levi que construiu o super-herói com trejeitos adolescentes, colocando os traços em seu corpo, seus olhares e nas intenções do texto. Contudo, Angel e Levi não parecem construir um papel único. Algumas vezes, faltam traços de atuação semelhantes entre os dois atores, o que deixa as versões destoantes.

 

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Outro ponto que incomoda na projeção são os diálogos expositivos. Ainda que não aconteçam o tempo inteiro, quando ocorrem dão a sensação de que o roteirista (Henry Gayden) subestimou a plateia e coloca textos dos mais ingênuos possíveis na bocas dos intérpretes. Sabe quando aparecem aquelas falas assim “Pai, você sabe que eu sempre odiei cenouras”. Este é um artifício um pouco preguiçoso que quem escreve faz para que quem assiste saiba de elementos anteriores. Porém, quando o roteiro é mais bem trabalhado, ele dá um jeito de contar as coisas de formas mais sutil.

Shazam! possui algumas falhas, mas chega para mudar um pouco o tom das adaptações das HQs da DC Comics, entregando um clima mais leve e menos sombrio, sem deixar os momentos de aventura e ação de lado. No geral, tem um resultado digno, trazendo a comicidade e o espírito do protagonista e deixando a possibilidade de um DCEU (Universo Extendido DC) com cada história dos heróis sendo contada com desenvolvimento e a personalidade que cada um deles merece.

 

BR em Série: Nem 8 nem 80, distopia brasileira “3%” apresenta inovações, mas mantém velhas problemáticas

A série 3%, desde seu lançamento em 2016, dividiu opiniões e proporcionou debates a respeito das produções nacionais. O seriado já caminha para sua terceira temporada, em 2019, tendo sido a série de língua não-inglesa mais assistida dos EUA, além de ser uma das séries brasileiras da Netflix de maior sucesso. É impossível não se questionar o que proporciona esse efeito se, por outro lado, tantas foram as críticas desfavoráveis por grande parte do público e da crítica brasileira. Uma conclusão mais ingênua levaria a velha falácia, “falem mal, mas falem de mim”, isto é, todo o burburinho em torno da série teria influenciado na sua visibilidade. Essa afirmação não é de todo falsa, porém, esse não é único responsável. Dois pontos podem ser considerados importantes para pensar essa recepção: primeiro, trata-se de uma trama que mistura gêneros clássicos e populares, um mundo ficcional distópico carregado de ação, aventura e suspense; e segundo, a exigência por narrativas mais coesas e coerentes.

O enredo é típico das histórias sobre mundos ou futuros ficcionais edificados sob uma organização política-social que representa a antítese da utopia ou uma “utopia negativa”, a chamada distopia. Esse tipo de enredo não é novo, ficou famoso principalmente na literatura com George Orwell e Aldous Huxley, e no meio audiovisual se consagrou e persiste até hoje. Muitos compararam, inclusive, 3% à saga Jogos Vorazes, que também retrata uma distopia política e social e que obteve muito sucesso de público. Contudo, no seriado temos marcas de uma distopia contextual, no caso, bem brasileira. Mesmo se passando num universo fantasioso, a trama encara vestígios do Brasil real e atual. Nesse universo, os habitantes do lugar chamado Continente, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo cruel em que apenas três por cento deles são aprovados e aceitos para irem ao outro lado (Maralto), bom e perfeito. Criada pelo jovem Pedro Aguilera – que pensou a trama em 2011 e colocou três episódios no youtube com esperança que comprassem sua ideia – e dirigida na sua primeira temporada por Daina Giannecchini e o fotógrafo César Charlone (Cidade de Deus), a série em princípio carrega um caráter ensaístico, mas vai ganhando contornos e profundidade à medida que avança, por outro lado, desmonta nos detalhes e em aspectos básicos do roteiro, como diálogos e construção de personagens.

 

Crítica política com metáforas comuns 

O ponto chave da série é trazer os aspectos do gênero ficção, futurismo, e distopia para o Brasil, tanto narrativamente quanto na produção. A Rede Globo ensaiou algumas outras séries nesse sentido, mas sem dúvida a Netflix conseguiu produzir uma das maiores histórias de ficção científica seriada brasileira até agora. Nesse sentido, é injusto criticar o enredo como um todo. Finalmente temos um fim de mundo brasileiro, subtramas de infiltrados, conspiração, anarquia, num lugar fictício, mas notadamente uma metáfora do país. Mesmo que não esteja explícito na série, fica claro que a história se passa num lugar como Brasil. O plot principal, “O Processo”, é quase uma alegoria do vestibular e todo discurso sobre meritocracia e desigualdade social.

 

 

O que muitos chamam de “clichê”, são artifícios típicos do gênero, ou recriações de outras produções – que podem, inclusive, funcionar inclusive como referências (como é o caso da série Strange Things). Porém, não se pode atribuir todas as críticas a chamada “síndrome de vira-lata”, que vê os produtos nacionais com pessimismo e como inferiores.  Essa “síndrome” ainda é muito forte e real, mas a Netflix vem quebrando essa regra produzindo séries em diversos países e muitas com alta qualidade. Por outro lado, as narrativas muitas vezes acabam se enquadrando num padrão trivial e globalizado, influenciado bastante pela plataforma, que é o caso de 3%. O enredo simples e convencional, e muitas vezes redundante, acaba funcionando como uma crítica superficial, mas não deixa de ser atrativo, ainda mais porque foi lançado no momento da polarização política que tem consequências até hoje. Do meio para o final das temporadas, começa a se rechear a trama com ação e suspense, o que eleva a narrativa a um bom entretenimento para quem gosta do gênero. Claro, fica difícil ver isso, quando se compara outras narrativas desse tipo. Poderia ser feito algo mais filosófico, estilo Black Mirror, por exemplo, mas, perderia, talvez, essa carga simplória e melodramática.

Quanto aos termos mais técnicos, para uma produção com pouco dinheiro, consegue-se criar uma atmosfera de ficção científica, principalmente com a montagem e fotografia. O figurino e o cenário do Continente (lado pobre), muitas vezes é forçado para apresentar essa desordem e caos, mas por outro lado, vê-se que há um cuidado com os detalhes. Já no Maralto, acontece o contrário, poucos detalhes e uma representação muito lugar-comum desse “paraíso”. Porém, este poderá ser mais desenvolvido na terceira temporada.

 

Complexidade e Profundidade: Conceitos menosprezados

A principal crítica é sem dúvida ao roteiro. É muito comum ver séries, novelas e minisséries brasileiras muito interessantes de conteúdo, produção e elenco, porém, sempre parece que se dá pouca atenção ao roteiro, principalmente na profundidade dos personagens e diálogos. Problemas no roteiro também geram a sensação de excesso, com muita coisa desnecessária e inútil, que acaba por cansar o público. Da mesma forma parece que tentam preencher “buracos” ou criar situações para agradar o público, típico de muitas produções mais comerciais. Por exemplo, colocando um casal que não faz sentido, simples e puramente porque o público gosta (ou porque acha que o público gosta). É comum esse tipo de estratégia em produções do melodrama, pois o objetivo é emocionar, com um sentimentalismo exagerado, mas aqui se torna trivial, até para o provável público alvo, os adolescentes.

 

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Os erros de roteiro criam personagens artificiais e estereotipados, sem qualquer indício de sutilezas emocionais ou ambiguidades psicológicas. A dramaturgia é frouxa e há pouca ligação entre fatos, atitudes dos personagens e diálogos. Não se espera um grande enigma ou tese, mas espera-se que as coisas façam sentido. Tudo isso deixa grande parte dos personagens chatos e pouco interessantes, como o caso do personagem Fernando (Michel Gomes) que tem um enredo inicial interessante, mas acaba se tornando o mero par romântico, o herói apaixonado.

Não se trata de atuação como muitos tentaram justificar, temos atores célebres desde o elenco principal, como o baiano João Miguel e a própria Bianca Comparato. O problema não são os atores e atrizes, são os personagens e os diálogos. O roteiro tem furos, e os personagens também parece que querem “preencher buraco”, deixando as ações rasas e muitas vezes previsíveis. Em outros momentos, os personagens agem de forma aleatória, como por exemplo, o “vai e volta” da personagem Michele (Bianca). Os diálogos são supérfluos, curtos e sem carga. A melhor personagem com pouco tempo de aparição é Zezé Mota (inclusive um personagem que precisa ser mais explorado). Os antagonistas são sempre muito maniqueístas, quando tentam dar um lado humano a eles, construir um arco a partir de suas relações e histórias de vida (como com Ezequiel e sua mulher Julia), se perdem, e na segunda temporada isso volta se repetir com a personagem Marcela (Laila Garin).

O problema com atuação pode ser atribuído mesmo, a figuração e aos atores secundários (problema de muitas produções brasileiras), que parecem ser pouco preparados e, por isso, agem de forma caricata e exagerada. Não se trata de dar explicações para tudo, você até aceita o mundo que eles criam (mesmo sem necessidade de falar como aconteceu para virar esse cenário distópico), mas por conta do roteiro fraco, não cria laços afetivos com os personagens.

 

Amadurecimento e alegorias

 

 

Em compensação, a partir do meio da temporada, a série ganha maior ritmo de suspense e ação, com micro-tramas interessantes, como a relação com os infiltrados. Aliás, toda a trama da Causa, movimento que propõe a derrubada do modo tradicional, que ganha força na temporada, é bem desenvolvida, mesmo que personagens como Michele e Fernando ainda estejam perdidos.

A crítica metafórica ao Brasil também se fortalece. Com o foco no Continente, vemos surgir pautas como a violência e sujeição  policial, e a atuação de milícias (sim, com esse mesmo nome), debates sobre corrupção e desigualdade se aprofundam, e debate as formas de resistência e revolução com um viés mais filosófico. Tratam também de religiosidade, ainda que superficial para falar de alienação, e do carnaval (com uma cena com música e performance da cantora Liniker), com intuito de tratar da ideia de pão e circo. Apesar disso, ainda se percebe que muita coisa do roteiro é pensado para conectar o público a realidade brasileira, mas, por exemplo, na cena do que se configura como um carnaval, apesar de belíssima, não faz diferença nenhuma para a trama como um todo, se configurando quase como um videoclipe.

Dentro da Causa, os personagens vão ganhando mais contorno, aliados a pensamentos de ideologia que questionam a lógica revolucionária, como por exemplo como ministrar a sociedade após a quebra do sistema, e o debate sobre individualismo e egocentrismo, representado por alguns integrantes que são impulsionados muito mais por motivos particulares que por uma teoria revolucionária.

A terceira temporada estreia ainda esse ano. Segundo informações da produção, esta irá focar no Concha, um terceiro lugar, representando a esperança.  A questão que fica é, se tivéssemos o poder para recomeçar, fazer algo novo, conseguiríamos fazer diferente? É esperar para ver! Abaixo o link da primeira e da terceira temporada.

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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