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Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

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Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

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Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

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No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Br em série: Guerras do Brasil.doc, revisionando nossa história, questionando nosso presente e pensando nosso futuro

Em tempos de governos que atacam os direitos humanos e, no Brasil, o fortalecimento do descrédito à educação, à filosofia, e à história, eis que surge um seriado documental, conciso, sobre momentos da história do país. No começo de junho, foi lançado na Netflix Guerras do Brasil.doc, do diretor Luiz Bolognesi (Ex- Pajé e Uma História de Amor e Fúria).

Distribuída originalmente pelo Canal Curta!,  traz versões sobre 5 conflitos da história do Brasil: “Guerras da Conquista”, que trata dos confrontos entre portugueses e outros colonizadores com os indígenas brasileiros;  “Guerras dos Palmares” sobre os conflitos com os escravos; “Guerra do Paraguai” desmistificando essa guerra que por muito tempo foi pouco questionada nas escolas e nos programas de comunicação; “Revolução de 30” sobre o período que o Getúlio Vargas esteve no poder; e finalmente o último episódio , “Universidade do Crime”, com tema atual, que fala sobre a criação das facções criminosas a partir das guerras e conflitos penitenciários (como por exemplo, o PCC e massacre de Carandiru).

O caminho é aparentemente cronológico, mas os episódios são independentes entre si e podem ser assistidos fora de ordem, de acordo com interesse pelo tema. Todos tensionam esses pontos históricos, trazendo questionamentos  para a história oficial e a situação atual, como por exemplo a questão das terras indígenas e conflitos de terra, que a toda hora (e mais ainda no atual governo) são debatidas.

 

 

O documentário é construído sem narração (sem a “voz de deus”*), segue através de depoimentos de historiadores, ativistas, professores e pesquisadores, aliados ao uso de intertítulos com dados, que compõem um painel sobre cada uma dessas guerras, possibilitando refletir sobre suas raízes e consequências até os dias atuais e pensar para onde estamos seguindo.

Todos trazem observações instigantes, uso expressivo de imagens com sons e músicas e imagens de arquivo, deixando a narrativa menos engessada e dando luzes à reflexões para buscarmos entender como nós, ditos Brasileiros, chegamos até aqui do jeito que somos, quebrando os velhos estereótipos e revisionando certos elementos da história que nos é ensinada.

Para estudar a história de um país, deveria-se atravessar todos seus momentos, incluindo suas páginas mais sangrentas e lamentáveis – e o Brasil, infelizmente, é pleno de confrontos trágicos desde sua fundação até hoje. É essa parte da história brasileira que a série conta: os fatos, as versões, as revelações e curiosidades sobre os principais conflitos armados da história do Brasil.

 

Brasil de guerras, opressões e resistências

 

 

“Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares e o tempo todo”, essa frase do historiador e filósofo indígena Ailton Krenak no primeiro episódio da série e que justifica a afirmação acima. Ele também alega que a “relação” dos europeus com os indígenas não foi pacífica, como hoje muitos ainda pensam, que praticamente exterminou povos e que esse conflito existe até então (e ele ainda acredita que não vai acabar tão cedo).

Durante os episódios vemos o questionamento e a negação de muitas famílias brasileiras, como por exemplo, o fato da “invenção” do Brasil (alguém ainda fala em descobrimento?) ter sido na verdade uma invasão, ou a ironia com o nome do aeroporto de Maceió ser Zumbi dos Palmares e lá ser um dos estados onde mais se matam jovens negros.

 

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No último episódio temos reflexões sobre o sistema prisional brasileiro, a ineficiência da guerra às drogas e a corrupção policial, temas que conversam com outra obra (lançada também na Netflix e no mesmo período), a minissérie americana Olhos que Condenam, da diretora Ava DuVernay. O Brasil tem a terceira maior  população carcerária do mundo. Em 2017, assistimos pelos jornais o massacre e rebeliões dos presos de Alcaçuz, um dos mais brutais e sangrentos episódios da história do sistema prisional. Dois anos depois, parece que nada mudou, mas as marcas seguem reverberando.

A história do que chamamos Brasil (pós-colonização) é uma sangrenta e contínua história de conflitos e violência, de opressão e resistência. Nada de indígenas preguiçosos e “africanos fáceis de serem escravizados”, o que a série faz é mostrar que o Brasil (ou os portugueses e europeus) não são pacíficos como normalmente se constrói. Esse “fio da meada” bate de frente com os “ideais” expostos hoje, como a campanha de armamento. Re-pensar essas questões pode ajudar a buscar construir um futuro mais justo, com menos confrontos, menos guerras.

 

Educacional e político

 

 

O Brasil tem tido boa repercussão de filmes documentários, muitos falam do nosso passado, nossa história, e muitos da nossa política recente, como o Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes e o Democracia em Vertigem, de Petra Costa, poderia citar vários outros títulos. Porém, no ramo das narrativas seriadas ainda não  há um mercado tão consolidado.

Guerras do Brasil.doc não inova em sua narrativa ou estética, não problematiza tão fortemente suas questões como outras obras, e tem um tom meio didático e educacional, então, para muitos não deve acrescentar muita coisa. Porém, mantém um posicionamento firme.

Por exemplo, na fala do historiador Marcelo D’Salete, que afirma que “devemos tratar os  territórios (quilombolas e comunidades indígenas) com dignidade e respeito, proporcionando direitos que eles precisam para continuar existindo”. Ou quando coloca uma jovem mulher negra ativista para recitar sua poesia/ rap sobre a situação do população negra no final do segundo episódio.

 

 

 

No fim, a série se faz informativa, educativa e dinâmica. Em tempos de algoritmos que nos sufocam de produções pouco memoráveis, se permitir dar play em obras como essas é, além de um respiro, relevante.

Guerras do Brasil.doc ressaltam, cada uma à sua maneira, a importância da memória e da compreensão de estruturas sociais e arranjos de poder para enxergarmos e entendermos os conflitos da contemporaneidade tal como eles são.

*“voz de Deus” como é comumente chamada o narrador ou locutor que não é visto em cena e também não é personagem

Plano em Série: As texturas de “The Marvelous Mrs. Maisel”

Amy Sherman-Palladino criou séries importantes para a televisão estadunidense e guarda em seu portfólio, por exemplo, a lendária Gilmore Girls, estrelada por Alexis Bledel (Rory Gilmore) e Lauren Graham (Lorelai Gilmore). A roteirista, e também produtora em 2017, dá então início a mais uma de suas obras, a série produzida pela Amazon Prime, The Marvelous Mrs. Maisel, centrada na jovem dona de casa Miriam (Rachel Brosnahan), que reside em Nova York, na década de 1950 e resolve dedicar-se ao stand up comedy (comédia de palco).

A obra de Sherman-Palladino tem vários acertos, a começar por escolher o contexto retrô da cidade mais famosa dos seriados estadunidenses. Se a Nova York contemporânea é inevitavelmente interessante, na década de 1950 contempla situações político-sociais cheias de vigor, sobretudo no que tange as temáticas femininas. Miriam (apelidada de Midge) precisa lidar com suas próprias questões íntimas, seu casamento, filhos e família ao escolher a comédia de stand up como carreira, em um contexto onde mulheres (sobretudo as ricas) geralmente não têm profissão.

 

 

Para criar a atmosfera ideal da comédia de época, os diretores de fotografia M. David Mullen e Eric Moynier adotaram o conceito de realismo romântico, com uma abordagem natural na iluminação, cheia de práticos (janelas, abajures, lâmpadas), assumindo uma certa intensificação que adiciona dramaticidade as cenas. Com a iluminação mais neutra, o design de produção consegue trazer a beleza dos tons pastéis e contrastes de cores sofisticados à personagem principal. As tomadas externas aconteceram em Nova York, Paris e Catskills (as duas últimas apenas na segunda temporada), e foram ambientalmente tratadas com uma luz peculiar para cada uma delas, reforçando as cores vibrantes e luz quente do verão em Catskills, assumindo a temperatura mais aquecida natural que há nas noites parisienses, assim com o inverno azulado da Big Apple.

Em se tratando de equipamento, os fotógrafos escolheram a Panavision para lentes (com uma preferência pela prime 24mm, uma lente grande angular) e a Arri Alexa para o trabalho de câmera principal. Essa dupla permitiu que houvesse praticidade nos movimentos de câmera (há pouco investimento em planos estáticos) e garantiu um acento os espaços geográficos das cenas para garantir a estética de iluminação que contemplasse luz natural.

 

 

 

Duas cenas merecem destaque do ponto de vista da fotografia, realizadas com um Steadycam: a cena de abertura da segunda temporada (S02E01) em um belíssimo plano-sequência e uma cena em flashback sobre a trajetória da vida matrimonial de Midge, com uma câmera que gira em 360 graus e uma montagem graciosa cheia de elipses temporais (S01E04). A premiada The Marvelous Mrs. Maisel é, sem dúvidas, uma série encantadora pela sua temática cheia de poder, em um contexto de interesse do público feminino que cuida de sua forma com um preciosismo impecável.

 

Vídeo de referência:

 

 

 

Trailer:

Terror em Série: American Horror Story – O Apocalipse Chegou

Após sete meses de especial American Horror Story (2011-), chegamos, finalmente, na temporada que deu origem a dedicação de sete meses desta coluna, a oitava season do seriado: Apocalipse. Com altas doses de crossovers, personagens ressuscitando, um crescimento de camadas nas histórias já conhecidas, um aprofundamento na mitologia do produto queridinho de Ryan Murphy; a obra deixou os fãs com muitas expectativas e conseguiu abarcar algumas delas.

A espera principal era o retorno de Cordelia Goode e de todo seu Coven. Elas foram protagonistas da terceira temporada que, apesar de não ser uma das melhores no quesito narrativo, com certeza foi uma das mais potentes no que diz respeito a criação de mitologia. Outro crossover de seasons anteriores era o de Murder House, a primeira história do universo de AHS. No final dela, inclusive, vê-se uma criancinha satânica e, desde então, ficou uma promessa velada de se fechar este arco narrativo, iniciado em 2011.

 

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Apocalipse é a mistura dessas duas temporadas: as mulheres poderosas, bruxas do já consagrado Coven versus o anticristo, o garoto demoníaco que cresceu e agora aparecer para cumprir sua missão na Terra: a de destruir a humanidade. A divulgação do seriado mostrou pouco e talvez tenha gerado nos fãs certa expectativa de já começar vendo no primeiro episódio Cordelia e todas as outras bruxas chegando com tudo.

Mas, não foi o caso. Murphy, como sempre, quebrou as expectativas e as personagens apresentadas no episódio de estreia eram todas novas. Sarah Paulson, por exemplo, interpreta Wilhemina Venable, uma mulher misteriosa e sádica que controla a casa onde alguns poucos afortunados conseguem se refugiar do apocalipse. Este pequeno início já começa dessa maneira, de forma desesperançosa, mostrando o fim do mundo sem dó ou piedade.

 

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O primeiro episódio consegue ser existoso e mantém um ritmo frenético. Mal conhecendo as personagens é difícil se apegar a eles, mas, a total falta de história prévia vem aqui como uma maneira de acrescentar camadas posteriores para a trama e pode prender o público pela curiosidade. Alguns dos atores já conhecidos de outras temporadas como Evan Peters, Leslie Grossman e Billie Lourd aparecem no meio do fim do mundo, desesperados , tentando se salvar.

Diferentemente de alguns outros anos da produção, em Apocalipse os rumos narrativos acontecem de maneira direta e a série não tem medo de arriscar em nenhum momento. (ALERTA DE SPOILER)!!!!! É claro que, com o desfecho da trama, fica muito fácil de entender a falta de receio em ter medidas tão drásticas durante todos os episódios. Contudo, a sensação de que nada dará certo em nenhum momento pode trazer uma emoção a mais, principalmente, para os que já conhecem muitas das escolhas feitas pelos roteiristas da obra.

 

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Um ponto muito importante de se apontar é a maneira  que o seriado mantém a estética de cada temporada, sem perder a uniformidade de cada episódio. Pode-se ter a sensação de estar retornando para cada um dos universos já vividos pelo espectador. A direção de arte, os tipos de enquadramentos, os figurinos, tudo isso se casa perfeitamente com a energia e a proposta de Apocalipse.  A única diferença é que tudo que envolve as bruxas de Conven tem ainda mais movimento de câmera, mais closes, mais neblina e certa palidez e falta de saturação, enquanto tudo que tem com as personagens de Murder House é ainda mais escuro, mais sombrio. Já os cenários originais da oitava temporada, trazem ou um vermelho forte, bem típico de tramas com demônios, ou ambientes aparentemente sem vida, sem cores, neutros de qualquer caracterização que demonstre personalidade.

O mais importante de destacar dessa temporada é a habilidade usar os crossovers amarrando-os bem na trama, sem quase nenhum gratuidade e ainda dando um bom fan service. Apocalipse é eficiente em contar sua história e tem uma trama bem amarrada que possui um desfecho um pouco previsível mas, não desapontante. Como sempre, algumas pontas são, propositadamente, deixadas soltas para esperarmos por algum tempo a volta dessas bruxas tão poderosas e girl power. Aliás, haja empoderamento feminino!!!! Talvez, essa seja a temporada com mais personagens mulheres que são interessantes e saem de suas zonas de conforto para se unirem entre si, cada uma de sua forma, com seu talento. Já fazia algum tempo que sr. Murphy não servia uma season com tantas qualidades. Agora é esperar pela safra 2019. Até lá!

 

Na Trilha da Série: o seriado musical Sandy & Junior

Se sua infância/adolescência aconteceu em algum momento entre os anos 1980 e 2000, é muito provável que você tenha acompanhado a trajetória de uma das duplas de irmãos mais famosas do Brasil: Sandy & Junior. Com carreira iniciada em 1989 – comemorando 30 anos em 2019, marco que será celebrado com uma turnê nacional –, o duo alcançou muito sucesso em diferentes vertentes, incluindo algumas experiências de atuação.

Os cantores se transformaram em atores para protagonizar o filme Acquária, (2003), e Sandy chegou até a interpretar a personagem principal de uma telenovela das seis da Globo, Estrela-Guia (2001). No entanto, foi entre 1999 e 2002 que a dupla teve seu início na televisão, encabeçando um seriado musical nessa mesma emissora, intitulado Sandy & Junior. No início desse projeto, a cantora possuía 16 anos, e seu irmão, 15.

 

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Contando com quatro temporadas e 114 episódios, o seriado trazia uma mistura entre ficção e realidade, sendo que Sandy & Junior eram os protagonistas, interpretando uma versão de si próprios em um contexto ficcional. A série se passava em um colégio onde eles supostamente estudavam, e trazia as aventuras de seu grupo de amigos adolescentes e sua rotina na escola, constituindo um tipo de Malhação encabeçada pelos irmãos famosos.

Sandy & Junior trazia um entrelaçamento da narrativa com a música, contando com números musicais no desenvolvimento da trama. Como os dois personagens principais se interessavam por música – Junior era instrumentista e DJ, e Sandy era vocalista principalmente de eventos escolares –, havia a realização constante de números da dupla sozinha ou acompanhada de seu grupo de amigos. Além disso, eram realizados também números em formato de videoclipe, evocados na abertura e/ou no encerramento dos episódios, que possuíam relação com alguma temática abordada no dia.

 

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A série trazia alguns desenvolvimentos regulares de jovens na faixa etária dos irmãos – como amizade, relacionamentos românticos e preocupações com carreira, por exemplo – além de pautar uma construção de carreira musical. As três primeiras temporadas tinham a escola como cenário central, cada uma representando um ano do ensino médio, e a última temporada já mostrava a transformação dos protagonistas em universitários – Sandy na faculdade de Psicologia e Junior na de Música – e também realizando o seu sonho de cantar, se tornando artistas famosos.

As canções evocadas para números musicais geralmente seguiam a carreira real dos irmãos e seu lançamento de discos. Isso aconteceu também com a abertura: a canção escolhida durante as três primeiras temporadas era “Eu acho que pirei”, lançada antes da estreia da série e um dos hits da dupla. Na quarta temporada, a abertura se modificou não só musicalmente, mas também em imagens, trazendo, ao invés do ambiente escolar, o conjunto de apartamentos em que os irmãos moravam enquanto universitários, e a canção “Não dá pra não pensar”, recém-lançada música de trabalho deles. Havia também o apoio em fatos reais da carreira da dupla de irmãos para construir a trama ficcional: o seriado foi finalizado no ano de 2002, com uma viagem dos protagonistas para Nova Iorque para estudar e investir na carreira de cantores. Nesse momento na carreira real de Sandy e Junior, era lançado seu CD Internacional.

Muitos atores que participaram desse programa em sua adolescência permaneceram como parte do elenco de telenovelas e séries da Rede Globo posteriormente, como é o caso de Fernanda Paes Leme e Paulinho Vilhena, por exemplo. Confiram no vídeo abaixo, realizado pelo canal de Youtube do Viva, uma comparação de fotos de atores do seriado Sandy & Junior enquanto jovens em relação à atualidade, ao som da última canção de abertura da série:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Na trilha da série: The Voice (EUA) e a força da country music

O reality show musical The Voice encerrou, em dezembro, sua décima quinta temporada nos Estados Unidos, e já tem data de estreia da temporada 16 agendada para o mês de fevereiro de 2019. O argumento original desse longevo reality vem da Holanda, e foi criado por John de Mol, o fundador da Endemol e da Talpa Media Group, empresas responsáveis por outros grandes sucessos de TV de realidade, como Big Brother e Masterchef, por exemplo.

Apesar de ter sido adaptado em diversos países ao redor do mundo, foi nos EUA que o The Voice teve maior durabilidade e disseminação. Contando com 49 indicações e 7 vitórias nos Emmy Awards – incluindo as conquistas de melhor série de competição de reality em 2013, 2015, 2016 e 2017 – esse produto se estabeleceu no topo do tão variado mercado estadunidense de programas de realidade.

A premissa do programa – e que o diferencia em relação a outros formatos de reality musical, como por exemplo o American Idol – é que a seleção de candidatos para a competição de canto seja somente baseada na voz, e não em qualquer outra avaliação, como por exemplo de gênero, aparência ou idade dos competidores. Sendo assim, as audições são feitas às cegas, com os técnicos virados de costas para os cantores. Eles só podem ver de quem se trata se baterem o botão e escolherem essa pessoa para seus times.

Muitos técnicos célebres já passaram pelo The Voice: Christina Aguilera, Cee Lo Green, Usher, Shakira, Gwen Stefani, Pharrell Williams, Miley Cyrus, Alicia Keys, Jennifer Hudson, Kelly Clarkson, além do novato John Legend, cuja estreia no programa ocorrerá na 16ª temporada. No entanto, dois técnicos estão presentes desde o início da atração em 2011: Adam Levine, do Maroon 5, e o cantor country Blake Shelton. Destacaremos na coluna de hoje o papel desse último técnico, suas vitórias, além da relevância da música country na história desse programa.

A country music é um gênero musical bastante relevante na história dos Estados Unidos. Poderíamos realizar, com ressalvas, uma aproximação da música country nos Estados Unidos com o mercado sertanejo no Brasil. É um gênero antigo, que nasceu como representação da vida interiorana no país, e que hoje compreende diversos subgêneros. A cidade que representa a força desse gênero é Nashville, no Tennessee, que inclusive dá nome a uma série musical que traz as nuances desse mercado nos EUA [série Nashville, 2012-2018].

A série Nashville foi inclusive cancelada pela ABC e posteriormente resgatada para suas últimas temporadas pela CMT – a Country Music Television, um canal privado cuja programação se baseia especificamente na música country. Esse é só um exemplo de como o mercado de música country nos Estados Unidos se estabelece de forma marcante e independente, contando também com seus próprios mecanismos de premiação [Country Music Association Awards, desde 1967] e gravadoras específicas do gênero [diversas, como a Big Machine Records e a Capitol Records Nashville], por exemplo.

The Voice e Blake Shelton

No The Voice, a country music está representada, desde a estreia, pelo técnico Blake Shelton. O cantor, que possui mais de 20 anos de carreira, só não teve representantes de seu time na final do programa uma vez. Em 7 das 15 temporadas, levou inclusive não só um, mas dois participantes para a grande final. Saiu vencedor em 6 temporadas do reality, não exclusivamente com cantores country, porém sempre destacando esse tipo de artista em seu time.

Raras vezes os artistas country, quando possuem o poder de escolha – no caso de mais de um técnico virar a cadeira para o cantor – não escolhem Blake. É uma busca comum, também pelo senso de comunidade desse gênero que é passado por Shelton: por diversas vezes o técnico já falou em um sentimento de família, afirmando que apoia a carreira dos artistas de seu time em um momento posterior ao programa. A escolha por Blake é, portanto, vista como uma oportunidade de maior visibilidade e ascensão na indústria country.

Alguns artistas country que se destacaram no programa são os vencedores Danielle Bradberry (4ª temporada), Craig Wayne Boyd (7ª temporada) e Sundance Head (11ª temporada). Ressalto também a vencedora Cassadee Pope (3ª temporada), parte do time Blake Shelton, que, apesar de ter entrado no The Voice como vocalista de uma banda de pop punk, investiu em outra vertente de carreira, na country music, após o término do programa.

É comum, no The Voice, que os artistas country permaneçam bem votados até as últimas fases da competição, muitas vezes também chegando à final. Em 11 das 15 finais até hoje, houve a presença de pelo menos um artista country, sendo que, na última temporada, três dos quatro finalistas eram artistas desse gênero.

The Voice temporada 15: a estreia de Kelsea Ballerini e a vitória de Kelly Clarkson

Outro ponto a se ressaltar sobre a relevância do country para o programa é que, na 15ª temporada, o The Voice estreou um quadro chamado “The Comeback Stage”, no qual uma quinta técnica convocava alguns dos participantes rejeitados nas audições às cegas e os treinava paralelamente, selecionando um deles para retornar à competição durante os shows ao vivo. A técnica convidada foi mais uma cantora de country: Kelsea Ballerini, da vertente pop country contemporânea, em destaque no cenário atual. Kelsea inclusive sairá em turnê esse ano com Kelly Clarkson, outra técnica do reality.

E foi justamente Kelly que trouxe outro momento importante para a 15ª temporada do The Voice: a técnica saiu vencedora dessa edição com Chevel Shepherd, uma cantora country de 16 anos. Um momento histórico, visto que foi a primeira vez que outro técnico venceu o programa com um artista country – feito apenas realizado outras três vezes por Blake Shelton. Clarkson inclusive disputou Chevel com Shelton durante as audições, e saiu vencedora – já aí um grande choque inicial para os espectadores.

Além disso, essa foi a segunda vitória consecutiva de Kelly como técnica, sendo ela mesma uma artista oriunda de reality show musical (a vencedora da primeira temporada do American Idol, ainda no início dos anos 2000). Fica então o questionamento: será que a vitória de Kelly Clarkson fará com que mais artistas country desejem fazer parte de seu time, trazendo competição ao veterano Blake Shelton? Só assistindo a 16ª temporada para conferir! Por enquanto, vejam aqui a audição às cegas da mais recente vencedora do programa:

 

*Hanna Nolasco é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e desenvolve pesquisas sobre o uso da música em produtos televisivos.

 

Especial – Melhores Episódios de Natal

por Enoe Lopes Pontes

Ho ho ho!!! O Natal chegou e nada mais aconchegante que um prato cheio de comidas e a TV ligada no seu seriado preferido! Mas, como várias produções possuem especiais de final de ano, como decidir o que ver durante o feriado? Pensando nisso, o Série a Sério resolveu te ajudar e trazer uma lista dos melhores episódios natalinos para ver com a/o crush, a família, os amigos ou, também, na melhor companhia possível: você mesmo!

 

LISTA

 

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5 – Grandma Got Run by a Reindeer (2×12 – Grey’s Anatomy): Em meio as alas do Seattle Grace Hospital e pacientes sendo atendidos a todo momento, o clima de Natal está no ar, principalmente – quase exclusivamente – com Izzie (Katherine Heigl). A jovem se empolga nas decorações natalinas e adora os festejo. Já seus colegas, não são tão fãs do feriado. Contudo, até o final do episódio muitas reflexões e discussões são feitas e vidas são salvas!

 

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4 – The Bracebridge Dinner (2×10 – Gilmore Girls) – Pegue a sua maior caneca de café, uma pilha de guloseimas e assista a um dos melhores episódios de Gilmore Girls da série inteira! Numa inesperada mudança climática, a convenção que Lorelai (Lauren Graham) estava preparando é arruinada! Nenhum hóspede consegue chegar ao Independece Inn, pousada que ela e alguns de seus amigos trabalham. Por esta razão, todos os moradores de Stars Hollow são convidados a participar do evento que já estava pronto, mas sem ninguém para usufruir. É no 2×10 que acontece o passeio de trenó inesquecível entre Lorelai e Luke (Scott Patterson). É aqui também que Rory (Alexis Bledel) está quase no ápice de sua confusão de saber se gosta mais de Dean (Jarred Padalecki) ou Jess (Milo Ventimiglia).

 

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3 – Extraordinary Merry Christmas (3×09 – Glee) – Como é de costume durante a produção inteira, neste episódio de Natal, o público também vai encontrar muita música e dança. Na narrativa do 3×09, os integrantes do Glee Club são convidados para se apresentar em dois eventos diferentes, mas que são no mesmo horário. Um vai beneficiar a aparência e as carreiras deles. O outro, vai ajudar quem passa por necessidades durante o feriado natalino. Com este problema nas mãos, eles precisam tomar uma decisão. Além de tudo isso, os anseios, dramas e tensões da vida de Rachel Berry  têm destaque aqui, mas nada que atrapalhe a diversão da cantoria e alegria dos artistas adolescentes!

 

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2 – How Lily Stole Christmas (2×11 – How I met Your Mother) – Ted (Josh Radnor) xingou Lily (Alyson Hannigan) de um nome terrível que rima com Grinch em inglês, quando ela tinha terminado o noivado com seu melhor amigo! Depois que tudo já estava bem novamente, a jovem descobre isto e retira toda a decoração de Natal do apartamento de Ted e seu parceiro, Marshall (Jason Segell), levando tudo para sua própria casa. A ação de Lily rende muitas piadas e situações engraçadas, como é típico da série.

 

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1 –The One with the Routine (6×10 – Friends) – Friends possui diversos episódios incríveis de Natal, mas, este consegue ser o mais engraçado e divertido de todos. Além disso, o 6×10 junta o clima de Natal e Ano Novo com muito humor e piadas características de cada personagem. O destaque fica para a dupla Monica (Courteney Cox) e Ross (David Schwimmer) e a dança especial que eles criaram desde a infância. Os passos coreografados pela dupla são o maior mico e eles acham que estão arrasando! Claro que aí é que está a graça toda da situação. Do outro lado, o público vê Phoebe (Lisa Kudrow), Rachel (Jennifer Aniston) e Chandler (Matthew Perry) procurando os presentes natalinos que Monica escondeu no apartamento! Por fim, Joey (Matt leBlanc) está passando por momentos de tensão com a nova garota que está apaixonado, claro! Cada pequeno plot do 6×10 é bem aproveitado e a mais da dinâmica entre as personagens é estabelecida, fazendo da produção o que ela é, umas das melhores comédias estadunidenses da TV.

Terror em Série: American Horror Story e suas mil facetas

 

por Hilda Lopes Pontes*

Em setembro, o público recebe a oitava temporada da celebrada e aclamada série de terror American Horror Story. Criada por Ryan Murphy, o seriado possui uma história diferente por ano, com assuntos variados, sem desfazer o clima de mistério, suspense, medo e sustos. Desta forma, o espectador sempre conhece novas personagens e vê na tela alguns atores que estão presentes em toda ou quase todas as temporadas, como numa trupe de teatro ou algo parecido. Muda-se o cenário, a narrativa, os conflitos, mas o elenco quase não muda.

Apesar de cada tema possuir um enredo isolado, em alguns momentos foi possível encontrar papéis repetidos, dentro de novos contextos. Um exemplo foi Lana Winters. Originalmente, uma participante da segunda season, ela reaparece na sexta, assim como Billie Dean, quem veio da primeira e retorna na quinta. Ambas são interpretadas pela atriz Sarah Paulson.

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Apesar de já ter realizado crossover** entre as temporadas, este ano Murphy e sua equipe prometem algo muito mais entrelaçado, trazendo de volta uma quantidade maior de personagens e conflitos que já apareceram previamente. Sabe-se até agora que a questão deixada em aberto no fim da primeira vira à tona e também que as bruxas da terceira estarão presentes em algum momento. Já que a nova etapa do seriado trará papéis e fatos anteriores, decidimos fazer um recap dos anos anteriores de American Horror Story e analisar os elementos de terror e narrativa que mudam a cada história.

Murder House é o título da primeira temporada e mostra uma família que está tentando se reconstruir depois de passar por um momento conturbado no qual a protagonista, Vivien, acabara de perder um filho. Além disso, seu marido, Ben, tinha terminado recentemente seu caso extraconjugal. Nesse cenário, os dois e sua filha compram, por um preço módico, uma casa grande e bonita, em Los Angeles.

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Vê-se então delinear-se uma histórica bem típica do imaginário que passou desde o gótico, da mansão que abriga espíritos malignos que assombram aqueles que conseguiram uma boa propriedade tão barata e sem nenhuma competição por ela. Nos primeiros episódios, Murder House traz muitos establishing shots*** da casa do lado de fora, investindo na ambientação externa e interna desse local amaldiçoado.

Faz-se uma certa pressão de que é na casa que estão os maiores problemas que a família vai enfrentar. A angulação contribui para a construção deste imaginário sobre a residência. Os planos, ora filmados com lente grande angular, de baixo para cima (contra plongée) ou com câmera aberta, emulam um point of view, como se os protagonistas estivessem sendo constantemente vigiados. Esta estratégia, passa a sensação de que existe uma acentuação das deformidades nas personalidades dos novos moradores deste lar, que estão crescendo justamente pela presença deles neste lugar, deixando uma aura de mau presságio. A questão é que essa apresentação do local e das personagens se delonga e os primeiros episódios terminam se arrastando um pouco.

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A atmosfera da temporada é delineada rapidamente, contudo, a série parece não perceber e se estende em momentos de suspense repetitivos, com os mesmos planos já citados e com as mesmas conversas entre o casal protagonista sobre seus problemas conjugais. O seriado pode, inclusive, gerar algum desinteresse em quem assiste inicialmente porque parece que não vai muito longe, nem em termos de narrativa de horror (quem está na casa será assombrado até a morte), nem em termos estéticos.

Contudo, a medida em que os episódios vão se desenvolvendo, descobre-se que American Horror Story se apropria da linguagem do terror para construir personagens tridimensionais, que precisam lidar com questões existenciais e com a morte. O elemento sobrenatural entra na série para tratar de temas universais como problemas familiares, relacionamentos humanos e, principalmente, sobre a maternidade.

(SPOILER ALERT!!!!!!!)

A estranha gravidez de Vivien e o amor de mãe são pano de fundo para tratar a maneira como a gestão é um momento que pode ser muito sombrio e como a perspectiva maternal, de proteção de um bebê pode levar as pessoas ao extremo. A família se vê perturbada por fantasmas e seres misteriosos que querem para si uma criança que ainda inexiste socialmente. Não se sabe quem é ou será um dia essa criatura que ainda não veio ao mundo.

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E o desfecho da temporada prova justamente que aquela vida pela qual uma família inteira trocou a sua é uma criatura sobrenatural. Mais uma vez, a apropriação do universo já explorado pelo terror é usada na série. O bebê nada mais é que um ser misterioso, com habilidades sinistras e sua história irá se desenvolver no oitavo ano de American Horror Story.

A narrativa se amarra para dentro e deixa links para sete anos depois retornar. Ainda que com certas “barrigas” e uma demora no desenvolvimento da história, a primeira temporada do seriado traz personagens complexas, ainda que coadjuvantes e estabelece uma mitologia cuidadosa que aparece em outras temporadas e que agora parece que terá seu desfecho.

 

*Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

**Crossover: quando personagens, universos e/contextos de narrativas ficcionais distintas se encontram. Exemplo: Annalise Keating (Viola Davis) da série How to get away with murder estar presente em um episódio de Scandal.

***Estabalishing shot: plano que ambientaliza o espectador, mostrando o cenário em sua totalidade. A câmera fica distanciada do objeto.

Orange is the New Black retorna em uma temporada burocrática e sem ritmo

por Enoe Lopes Pontes

Após cinco anos na prisão de segurança mínima de Litchfield, as detentas da série Orange is the New Black são levadas para o encarceramento na máxima. Com um cliffhanger tenso e desesperador, o seriado volta trazendo as respostas sobre os destinos de cada personagem presente no último plano do quinto ano. Contudo, a produção não entrega tudo de vez e vai desenvolvendo o enredo, entregando aos poucos os acontecimentos.

Mesclado aos dramas das presidiárias que o público já conhece, outro plot é introduzido. Desta forma, enquanto o espectador vai descobrindo os encaminhamentos das personagens já populares,  a narrativa recebe novos conflitos. O cruzamento destes novos problemas, juntamente com o desfecho da temporada, são elementos bem realizados e amarrados. Este fator mostra que há uma escolha consciente dos autores em utilizar novas tensões para trazer complexidade a narrativa e as vidas das personas vistas na tela e que a conclusão moverá as moças ainda mais para frente. A história não fica estagnada. Dividas em blocos B, C e D, a prisão possui gangues que se odeiam. A maneira como as relações se estabelecem neste contexto é o ponto alto da temporada. Afiliações, pactos, mentiras,esquemas e corrupções – traços clássicos da situações presentes em Orange – estão fervendo neste contexto.

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No entanto, ainda que a estratégia de colocar duas líderes das gangues da ala C e D brigando para dominar o local contribua para alavancar a trajetória das personagens principais, a própria história das bandidas e suas aliadas é pouco explorada. Durante os 13 novos episódios de Orange, alguns flashbacks são destinados a mostrar a vida pregressa das irmãs Carol (Henny Russel) e Barbara (Mackenzie Phillips) e de suas aliadas dentro de Litchfield – respectivamente – “Badison” (Amanda Fuller) e “Daddy” (Vicci Martinez). Contudo, eles não são necessários para o andamento da trama. Os traços de personalidade e caráter delas já estavam sendo mostrados nos acontecimentos do presente. Assim, resta uma sensação de filler ou desperdício de tempo, pois os roteiristas poderiam focar mais nas detentas firmadas na produção ou, pelo menos, mostrar apenas o que era preciso para o eneredo.

Em termos de atuação, o nível permanece o mesmo das temporadas anteriores, porém existe um destaque neste sexto ano. Danielle Brooks que interpreta a Tasha “Taystee” Jefferson traz as emoções da jovem com poucos movimentos, com olhares firmes e a voz que varia entre firme e embargada. As certezas e dúvidas de Taystee são postas em seu corpo que demonstra cansaço, mas sem perder a tonicidade. Os traços corpóreos de sua construção podem ser notados mais ainda quando comparados com seus flashbacks, no qual se vê uma Tasha confiante, alegre e esperançosa. Obviamente, o seu plot ajuda a trazer performarces dramáticas e intensas, mas o que importa aqui é que a atriz segura o peso de cada cena e não deixa de criar uma dinâmica com seus colegas de cena. Isso faz com que seus momentos sejam os mais emocionantes.

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Dentro de toda a carga que a vida de Taystee tem, faltou um pouco de alívio cômico desta vez. Orange é conhecida por ser uma dramédia. Durante seus anos de exibição, o drama foi tornando-se cada vez mais forte, mas a presença das cenas leves eram muito importante para a construção das tensões futuras. Contudo, o tom trágico superou o de comédia e o espectador pode se sentir cansado ao assistir a série. Este elemento trágico em desequilíbrio com o cômico retira um pouco de ritmo do seriado, porque não esse jogo que existia da linha tênue entre o riso e o choro, entre o animado e melancólico desaparece no mar de eventos ruins.

Analisando a sexta temporada de Orange is the New Black é possível notar que foi um ano no qual as histórias das detentas “originais” foram mostradas, desenvolvidas e resolvidas e até mesmo algumas das novas presidiárias obtiveram um ciclo fechadinho. São episódios redondos e bem costurados, nos quais as perguntas são lançadas e posteriormente as respostas são dadas. No entanto, é um ano morno porque falta ritmo e equilíbrio para ela possa ser chamada de dramédia outra vez e não fique entediante. Além de deixar de lado os momentos catárticos que faziam toda diferença, quando as

Samantha! – Primeira comédia brasileira da Netflix vale cada minuto

Por Enoe Lopes Pontes

Este mês, a Netflix trouxe para seu catálogo a primeira comédia nacional original. Entre trailers e chamadas duvidosas, havia algo na divulgação que despertava a curiosidade. Talvez fosse o carisma da protagonista ou o apelo aos anos 1980. O fato é que o seriado foi maratonado e você confere agora a sua crítica no Série a Sério!

Samantha! é uma sitcom praticamente comum. Poucas personagens, cenários, troca de figurinos e uma duração média de vinte minutos. Dirigida por Felipe Braga, o que muda aqui é o peso que a carga “dramática” ganha em alguns momentos, deixando com que ela flerte com o rótulo de dramédia também. Ainda assim, dentro das formalidades do gênero principal, a produção tem uma boa execução. Apresenta um texto com boas gags e situações e um elenco que consegue dar conta da comicidade ácida que o roteiro pede. Há um equilíbrio nas cenas entre qual será o ator com a piada mais forte e os que dão suporte para que a graça seja elevada. Há também um tom realista na interpretação que salta aos olhos os traços surrealistas da ações e do que está sendo dito.

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Dentro deste contexto, o maior destaque acaba sendo a contracena. Os olhares e gestos de quem está escutando as palavras do outro são o ganho cômico do seriado. Porque as frases sem noção de Samantha (Emanuelle Araújo) e sua família podem causar um impacto no espectador, porém a consciência dos absurdos proferidos em cada cena é o diferencial aqui. Eles vivem em um universo louco e sabem disso!

Além da parte engraçada, há um trabalho em trazer complexidade para personagens que são, teoricamente, grandes estereótipos. A atriz mirim fracassada, o ex-jogador de futebol que vira comentarista, a pré-adolescente ativista, o menino nerd, o tiozão fumante. A partir de alguns arquétipos, eles estabelecem quebras de expectativas na trama, para mostrar outras facetas destas pessoas. Um exemplo é o concurso de música no qual uma participante nada convencional acaba cantando no final do episódio.

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Outro detalhe que chama atenção na série são os cliffhangers. A estética meio caricata, beirando a um estilo de desenho animado mesmo, provocam o riso e podem deixar o público curioso. Apesar de funcionarem, na maioria das vezes, em alguns momentos eles parecem um pouco falsos, forçando a entrada de um novo conflito e a adição de outros indivíduos na história que não são sempre necessários.

Esta questão, na verdade, perpassa o seriado, pois algumas vezes entradas e saídas fáceis são escolhidas. Contudo, a forma como os caminhos são realizados fazem com que o conteúdo não seja comprometido. Pelo contrário, tornam a produção mais proveitosa. Um exemplo, (SPOILER ALERT!!!) é o reencontro da Turminha Plim Plom. Este ser o último desejo do falecido Cigarrinho (Ary França) entra na trama do nada, depois de vários episódios sem o falecido ser mencionado. A sensação é de que o roteirista precisava dos Plim Plom juntos outra vez e lembrou do tiozinho.

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Apesar de tropeços, a comédia tem mais pontos altos do que baixos. Um deles são as músicas divertidas e chicletes da bandinha mirim – que lembram bastante as canções do Balão Mágico. Além de ter questões técnicas bem realizadas, o discurso da série é bem desenvolvido e maduro dentro da trama. As reflexões sobre o sucesso, a fama, o uso das redes sociais, questões políticas, sociais e familiares estão todas presentes de forma aparentemente diluída, proferidas num tom jocoso ou ditas firmemente, mas como uma constatação certeira, sem pestanejar. Além, claro, de um easter egg no penúltimo episódio quando Dodói (Douglas Silva) está no banheiro com amigos e nas portas está escrito “Fora Temer” e “Out Temer”. Uma mensagem subliminar digna dos anos 1980!

Desta forma, Samantha! é uma opção leve e divertida, mas com toques politizados, o que deixa a experiência mais rica e dinâmica por desafiar o público a entender as referências e rir junto com eles. Com um elenco adulto afiado e crianças muito carismático o único defeito da série que fica gravado na memória é sua quantidade minúscula de episódios.

 

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