Categoria: Crítica

Crítica: Violência e polêmica são tentativas da primeira temporada de The Boys

por Enoe Lopes Pontes

 

Adaptada da HQ homônima da Wildstorm*, The Boys chega no canal streaming Amazon Prime, com oito episódios. Num clima que mescla sátira e crítica ao espírito heroico tipicamente visto em produtos ficcionais e no imaginário estadunidense, a série possui um estilo claro e marcante desde o seu início. A utilização de temperaturas azuladas é o start para esta percepção da ambientação que já vem desde os quadrinhos e que é um pouco intensificada. A escolha pode criar no espectador a sensação de estar assistindo uma das adaptações da DC para o cinema, por exemplo. Existe algo lúgubre e taciturno no ar. Além disso, o tom remete a melancolia e a angústia retratadas na tela. Um exemplo disso é que a cor do super mais abalado emocionalmente é azul.

Neste universo, no qual o tempo inteiro os humanos acreditam que estão sendo salvos, quem tem poderes está constantemente perturbado e agindo de forma negativa, seja para sociedade ou para si mesmo. A lógica aqui é que os supostos protetores da Terra são os verdadeiros vilões. O ponto alto da qualidade do enredo é que, ainda que haja essa reversão de valores, não ocorre a planificação de suas personalidades. É possível notar as nuances em seus caracteres, a medida em que a trama avança.

 

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No entanto, apesar de uma premissa que chama atenção, The Boys é um tanto cansativa, porque possui uma história óbvia. Cena após cena, já é possível saber o que irá ocorrer, inclusive o final da temporada fica previsível em sua metade. A criação das tensões são perdidas pelas escolhas fáceis que Eric Kripke (Supernatural) e sua equipe de roteiristas fizeram. Mesmo partindo de uma outra perspectiva, a dos “supers” que não estão trabalhando para o planeta de verdade e sim são celebridades, todo o resto é semelhante a qualquer publicação com heróis, incluindo a figura do “mocinho”, Hughie (Jack Quai), sem poderes e injustiçado, buscando uma espécie de vingança.

Apesar deste fator, o como as situações acontecem é o que chama atenção. Existe certa coragem em possuir algumas sequências gráficas de violência e ação, que são o recheio principal deles. É este elemento que dá o tom certeiro do seriado: pinceladas de humor sombrio, desenvolvimento dramático** das personas retratadas e um leve dose de horror com a ação. A expectativa que falta no decorrer dos fatos é coberto pelo nervoso em saber como será o próximo cérebro esmagado, a morte seguinte ou algum tipo explosão.

 

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No geral, o resultado é aceitável e até equilibrado. O plot inicial se sustenta, ainda que seja seguido de caminhos previsíveis, o risco no “como” faz o tempo gasto valer. Um possível destaque é a atuação de Erin Moriaty (Jessica Jones), que construiu a jovem heroína com várias camadas, indo de expressões de ingenuidade até de crueldade e falta de empatia, ela consegue elevar os elementos da escrita e imprimir nos seus diálogos a sutileza e o peso necessários para sua Annie.

 

 

* Em seguida, as HQs passaram a ser publicadas pela Dynamite Entertainment.

** Drama mais no sentido mais próximo do trágico, de situações triste e não do significado atribuído pelas Artes Cênicas ao falar dos gêneros textuais (Épico, lírico e dramático).

Críticas: Segunda Temporada de “Dark” é mais sólida e intensa

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de uma espera de quase dois anos, a Netflix disponibilizou a segunda temporada da série Dark. Realizada na Alemanha, a produção chega neste novo ano com mais fôlego, um enredo menos óbvio do que a da sua antecessora e com mais fios para compor a sua teia de Ariadne. Após o cliffhanger do 1×10, o público descobre um pouco das consequências das ações de Jonas (Louis Hofmann) no “passado”, “presente” e no “futuro”. Com isto posto, o jovem precisa compreender quais os melhores passos seguir para evitar uma tragédia que está por vir.

Aqui, um dos maiores ganhos é a forma como o protagonista continua a ser o fio condutor da trama, mas agora deixando que as outras histórias se desenvolvam com mais profundidade e sob outras óticas além da sua. Não apenas as viagens no tempo, mas as decisões e suas consequências são postas nas mãos de todos os indivíduos importantes da trama, mas o gancho nunca deixa de ser a personagem principal. Assim, as escolhas de Baran bo Odar (Crimes na Madrugada), e dos outros roteiristas que assinam com ele, traz um equilíbrio e maiores surpresas para o desenvolver dos atos postos em cada sequência.

 

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O jogo de cores no figurino – criado por uma equipe de mais de dez pessoas – e o de luz e sombra na fotografia, feita por Nikolaus Summerer (Invasores: Nenhum sistema está salvo), continuam sendo marcas de linguagem selecionadas para ambientar o espectador em que período os fatos narrados estão acontecendo. Contudo,  sem nunca perder os tons neutros, principalmente bege e marrom, que instalam sensações ambíguas que vão de uma ambiente depressivo até um local caseiro, que inspira conforto e segurança.

A complexidade de Dark também está na direção, nos movimentos de câmera que revelam múltiplas visões de um mesmo fato, revelado apenas depois que o público descobre quem está envolvido na situação. Outro recurso bem utilizado é a câmera subjetiva que instaura um clima de tensão e dúvida, até que o narrador seja evidenciado, com uma plano médio ou até um close, criando uma espécie de cumplicidade com a plateia. Nestes instantes, sempre fica estabelecida uma incerteza se um plot twist virá ou não. Além disso, mais uma camada de informação é colocada, podendo instigar quem assiste e amarrando acontecimentos prévios.

 

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No entanto, apesar de conseguir elevar a qualidade em relação ao primeiro ano, os novos episódios pecam em não irem tão além do que já tinha sido mostrado. Apesar dos reforços em contar as trajetórias dos indivíduos mostrados na tela, dos fatos serem esmiuçados e duas revelações serem contadas – uma muito impactante e outra nem tanto – a finale deixa certo gosto de engano. Isto porque o cliffhanger é perigoso para a qualidade do desfecho do seriado – outras ficções já tentaram seguir por este caminho e falharam, ou não – e porque nenhum elemento diferente é posto. As ações prosseguem e as vidas permanecem. Resta apenas descobrir se toda a premissa original irá levar a história para algum lugar.

 

Crítica de Vingadores: Ultimato SEM SPOILERS

por Enoe Lopes Pontes

 

Em 2008, o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) deu largada em suas produções, com o longa Homem de Ferro. O filme foi um sucesso e outros super-heróis deles ganharam espaço nas telonas. Cuidadosamente, foram sendo lançadas as tramas solo das personagens. Ainda que nem todas as projeções fossem boas, elas seguiam um nível básico de qualidade, conseguiam, pelo menos, introduzir figuras importantes da HQ para os novos consumidores e agradar os fãs das comics também. Em 2012, o primeiro Vingadores foi lançado. Onze anos depois do início desta trajetória, chega aos cinemas Vingadores: Ultimato.

Aqui, é possível notar uma ode ao MCU. Durante as longas horas de exibição, é possível encontrar muitas referências e memórias de outros materiais deste Universo. O reencontro com algumas personas já conhecidas pelo público e a maneira como é possível ter contato com a evolução da personalidade delas é o traço mais marcante de Ultimato. Sem pressa, ele revela os lamentos e a busca para se reerguer dos indivíduos escolhidos como principais nesta trama. Sem spoilers, pode-se dizer que todos os mocinhos com enfoque neste último “capítulo” recebem no roteiro aquela “fórmula” da jornada do herói. Incluindo estratégias elaboradas para a saída de alguns deles.

 

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No entanto, se tem uma coisa que Vingadores: Ultimato não é de jeito nenhum é enxuto. Cheio de gorduras, algumas cenas parecem mais dilatadas do que deveriam ser. Não pensem que isto se dá ao fato de que cada conflito interior das personagens de destaque nesta projeção que faz com isso aconteça. Na verdade, é o como isso se dá que interfere no ritmo do longa. Porque o desenvolvimento de personagem é algo importante, mas pode ser feito sem interferir negativamente no todo. A mescla de dinâmicas é que dá o tom não entediante de alguma produção. E isso não quer dizer, no entanto, que uma série de explosões e sequências “animadas” tenham que ser inseridas. Pelo contrário, é o equilíbrio das duas coisas.

Por este motivo que o novo Avengers peca. Ele passa tempos longos em momentos de intensa lentidão ou aceleração, sem casar bem uma coisa com a outra. Inclusive, apesar da grandiosidade e plot twists impressionantes na cena da batalha final, por exemplo, pode ficar uma sensação de que o espectador não consegue de fato acompanhar todas as lutas, porque as explosões e subtramas do embate fazem com que não se possa aproveitar tudo. Sem contar o que acontece, pode-se dizer que a construção demorada e lenta de algumas situações não estão no ápice do enredo e outras aparecem apenas ali.

 

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Outro ponto questionável é a utilização do vilão. Uma aura de medo e tensão foi construída ao redor de Thanos (Josh Brolin) em Guera Infinita (2018). Isto se perdeu no meio de reviravoltas, na fisicalização da personagem e em como ele realiza suas ações. A ideia que pode aparentar é que deixaram ele um tanto ingênuo, nem o seu corpo nem o que sai de sua boca parece ser equivalente em fortaleza e certeza que vinham sendo demonstradas anteriormente.

Contudo, é preciso ressaltar um elemento positivo em Ultimato. A forma com que a equipe conseguiu finalizar todo o caminho que fizeram desde 2008. É como se ficasse claro quem foi o protagonista durante todos esses anos e como o desfecho disso encerra um ciclo com coerência e, até mesmo, referências lá do primeiro longa. Pontas soltas da saga também foram resolvidas, ainda que as gorduras estivessem presentes, as soluções de conflitos exteriores e interiores foram postos na tela.

Vingadores: Ultimato é uma projeção voltada para agradar os fãs e finalizar uma era. Durante três horas de exibição, altos e baixos podem ser visualizados e cenas como a Viúva Negra comendo um sanduíche com o Capitão América, pensando “na morte da bezerra” dão oportunidade do público aproveitar para dar aquela ida ao banheiro. Ainda assim, o filme não é nenhuma vergonha e encerra com alguma dignidade a trilha de sucesso que a Marvel instaurou para si em seu MCU.

 

Crítica: Segunda temporada de Samantha! é mais divertida e intensa que anterior

por Enoe Lopes Pontes

 

Neste mês, a Netflix, como de praxe, disponibilizou o conteúdo inteiro do segundo ano da série nacional Samantha! Com sete episódios, a produção conseguiu crescer por apresentar um equilíbrio maior em seu ritmo. Isto, porque a narrativa mesclou os tempos de cena de cada conflito com uma atmosfera dos sentimentos das pessoas mostradas na tela, seus desejos secreto e sensações pessoais. E é aqui que está o grande ganho do seriado! Além de ter as gags e situações divertidas esperadas de Samantha (Emanuelle Araújo), Dodói (Douglas Silva), Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), o público descobre também questões do íntimo deles, principalmente da protagonista. Talvez, tenha sido até uma estratégia positiva primeiro apresentar arquétipos de figuras típicas do imaginário brasileiro, como a estrela mirim dos anos 1980 ou o jogador de futebol enrolado, para depois ir mais a fundo nos detalhes sobre elas.

Os roteiristas (Paula Knudsen, Felipe Braga etc) vão colocando pinceladas de informação, lentamente. O espectador vai tendo contanto com a trajetória da “mocinha” e seus problemas na infância. Aos poucos, é possível montar o quebra-cabeça com as peças dadas por eles. Na história, Samantha começa a traçar seu caminho para crescer verdadeiramente e fazer papéis mais sérios, além de buscar ser boa mãe também. Este ápice acontece no 2×06 quando, finalmente, é explicada a relação da artista com a TV e pouco de suas origens.

 

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Araújo traz alguns detalhes em seus olhares que demonstram este amadurecimento e coloca até pequenas modificações de postura corporal, em momentos mais profundos. Contudo, todas as marcas que fazem parte de sua personalidade anteriormente continuam presentes, não se perdem. Assim como Samantha; Dodói, Cindy e Brandon recebem arcos com mais complexidade. Estas são de menor grau, é bem verdade, mas ganham. Porém, os atores não acrescentaram nada de diferente. Não que isto seja um ponto muito negativo. Contudo, poderia ter acontecido um desenvolvimento mais forte na atuação.

Uma possibilidade seria um trabalho do corpo que mostrasse um Dodói com uma pitada de sisudo, porque começou a cursar a faculdade de Direito. Ou, Cindy – que entrou, de fato, na adolescência – e Brandon – que decidiu aceitar que é mesmo uma criança -, poderiam trazer um pesar e uma leveza nas suas interpretações ou qualquer nuance de mudança. Afinal, eles passaram e estão passando por coisas que os afetaram, pelo menos isto aparece no texto que eles dizem, que confirma emoções e decisões novas. Mas, este fator pode ser uma falta de atenção e delicadeza da direção também, que colocou o foco maior na protagonista.

 

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Contudo, esse fato não compromete e coisas como não ter muito filler chamam mais atenção. Todos os acontecimentos são muitos justinhos dentro da trama. Samantha precisa crescer! Este é seu objetivo e toda a narrativa deste ano foca nisso, juntamente com subtramas que, ao invés de atrapalhar, ajudam a levantar o enredo principal. O relacionamento de mãe e filha entre Samantha e Cindy, a nova carreira de Dodói e os medos de Brandon, tudo isso fomenta o nó central, o desenlace e o cliffhanger do final.

Ainda que existam pequenas questões como dicção dass crianças e coadjuvantes de personalidade chapada, Samantha! se superou. A dinâmica entre o elenco continua a funcionar e camadas de complexidade foram colocadas, mostrando que a antiga artista mirim é muito mais do que quem assiste esperava, ela é uma OR…

 

 

Crítica Shazam!

 

por Enoe Lopes Pontes

 

Um adolescente de catorze anos tem a possibilidade de gritar “Shazam!” e virar um super-herói cheio de poderes incríveis e surpreendentes. Esse parece o sonho de qualquer criança viva que esse planeta já conheceu e também é a premissa da história sobre Billy Batson (Asher Angel). O garoto é órfão e procura sua mãe, até que ele recebe dons mágicos de um mago misterioso e sua vida acaba mudando completamente. Mas, vamos parar por aí na questão do enredo, senão vai chover spoiler.

Com uma dinâmica que mostra o passado e o presente do mocinho e do vilão, a narrativa se vale de um trauma de infância e da ausência de uma família para retratar os conflitos internos destas personagens. Talvez, a semelhança entre os problemas de Billy e Thaddeus (Mark Strong) e a decisões diferentes que eles tomam a partir deles seja uma espécie de fio condutor da trama. Isto é um ganho porque a questão passa quase suave diante do espectador.

 

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As trajetórias dos dois vão se desenhando durante a projeção e mostra-se o interesse que cada um tem sobre a vida e quando a escolha entre salvar o mundo ou se vingar dele faz com que o traço principal da personalidade de cada um seja definida. Tudo isto é feito com um clima constante de piadas de efeito. Apesar desta comicidade em alto grau cortar o clima de ação em alguns momentos, principalmente na luta final, este fator não compromete a totalidade do filme, justamente porque o herói é um adolescente e estas gracinhas que ele faz lembra sempre o público disto.

Mesmo quando Billy é o Shazam (Zachary Levi), a lembrança de que o um menino está ali fica vivida na exibição. Este também é um mérito de Levi que construiu o super-herói com trejeitos adolescentes, colocando os traços em seu corpo, seus olhares e nas intenções do texto. Contudo, Angel e Levi não parecem construir um papel único. Algumas vezes, faltam traços de atuação semelhantes entre os dois atores, o que deixa as versões destoantes.

 

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Outro ponto que incomoda na projeção são os diálogos expositivos. Ainda que não aconteçam o tempo inteiro, quando ocorrem dão a sensação de que o roteirista (Henry Gayden) subestimou a plateia e coloca textos dos mais ingênuos possíveis na bocas dos intérpretes. Sabe quando aparecem aquelas falas assim “Pai, você sabe que eu sempre odiei cenouras”. Este é um artifício um pouco preguiçoso que quem escreve faz para que quem assiste saiba de elementos anteriores. Porém, quando o roteiro é mais bem trabalhado, ele dá um jeito de contar as coisas de formas mais sutil.

Shazam! possui algumas falhas, mas chega para mudar um pouco o tom das adaptações das HQs da DC Comics, entregando um clima mais leve e menos sombrio, sem deixar os momentos de aventura e ação de lado. No geral, tem um resultado digno, trazendo a comicidade e o espírito do protagonista e deixando a possibilidade de um DCEU (Universo Extendido DC) com cada história dos heróis sendo contada com desenvolvimento e a personalidade que cada um deles merece.

 

Crítica Van Helsing: 3ª temporada peca por falta de fôlego e criatividade

 

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pelo canal SyFy, Van Helsing chega em seu terceiro ano! Passando a sensação de que poderia ter sido mais pontual e enxugado as barrigas, cortando micro conflitos e indo direto para as questões referentes ao plot original, ela chegou naquele momento em que todas as situações pré-conflito grande anunciado já aconteceram. Sabe questões como o mistério da ilha, em Lost; a batalha final de Once Upon a Time ou o end game de Ross e Rachel, de Friends? Então, os problemas menores vividos pela protagonista, Vanessa Helsing (Kelly Overton) chegaram ao seu limite, porque não interferem no resultado final do seriado como todo e adia o desenvolvimento principal da season, deixando as resoluções e ganchos um tanto corridos. Principalmente no que se refere ao dilema moral de Helsing.

O público já viu que os limites entre o bem e o mal que vivem nela estão numa linha tênue, dando uma visão não maniqueísta das suas vivências e esta estratégia era mais eficaz para que o objetivo central dos criadores não ficasse perdido. É um mundo distópico, pós-apocalíptico e uma mãe – que também tem poderes – acorda sem sua filha! Já está dada a situação e quem é esta mulher. A ressignificação deste quadro vem somente para postergar o gancho da finale.

 

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Ao lado desta questão está o fato de que as tramas dos coadjuvantes passam a parecer mais interessantes. Contudo, como a história original se perdeu e agora o espectador tem contato com múltiplas peripécias, nenhum encaminhamento é mostrado em sua totalidade. Assim, pode ficar uma sensação de incerteza sobre o que os roteiristas queriam com o terceiro ano da produção. Se a premissa era a jornada de Vanessa para reencontrar sua filha, depois (SPOILER ALERT!!!) que a garota morreu em seus braços, os rumos do enredo foram ficando nesta neblina, com uma indecisão da importância da personagem principal.

O que acaba acontecendo é que a figura da irmã de Vanessa, Scarlett Harker (Missy Peregrym), se sobressai e consegue captar mais a atenção com a sua história. Tanto no quesito narrativo, quanto de atuação, é ela que parece o elemento mais seguro aqui. Peregrym imprime um tanto de complexidade em Scarlett, sabendo dosar a carga entre as cenas pesadas e os alívios cômicos apenas com olhares e velocidade de texto.  O que é um contraponto com Overton que é menos expressiva facialmente. Apesar desta característica ajudar em alguns momentos a manter o tom de mistério de Van Helsing, no geral, a falta de força da atriz joga o brilho para sua colega de cena.

 

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Por fim, um ponto que talvez seja o mais preocupante seja o fato de um produto de terror ter uma ausência de construção de tensão bem realizada. Além da obviedade dos acontecimentos, o número de tipos de criatura cresce, mas não foram pensadas características para torna-las assustadoras. Uma repetição de caretas para câmera, em uma quantidade de tempo constrangedora, não convence. Primeiramente, a atuação não soa orgânica. A tendência é acreditar que eles possuem uma ideia do que é um “Monstro” e passaram a rosnar e arregalar os olhos. A essência e motivações vistas em momentos anteriores da série desapareceram. Até mesmo Sam (Christopher Heyerdahl), o vampiro mais assustador deste universo, fica entediante, porque suas ações acontecem de forma dilatada de uma forma que o ritmo se perde.

Renovada para uma quarta temporada, fica a esperança que ela volte para a sua forma anterior, cheia de ritmo, relações que criam empatia e medo!!

 

Crítica: Nem terrível e nem incrível, “Boneca Russa” é um bom passatempo

 

por Enoe Lopes Pontes

Parece que tem sido cada vez mais difícil de se encontrar uma série que seja equilibrada, na qual início, meio e fim possuam justeza, ritmo e costura. Boneca Russa se encaixa, de certa forma, nesta categoria. Seu piloto não entrega de cara a complexidade que a produção trará em seu desenvolvimento e seu desfecho não faz jus ao material que é exibido durante sua primeira temporada. Parece que todo o esforço criativo ficou para o seu recheio.

Narrando a trajetória de Nadia (Natasha Lyonne), a narrativa mostra como a moça morre e acorda repetidamente, em seu aniversário, numa espécie de rotina como a mostrada no filme Feitiço do Tempo (1993). Neste clima, pode ficar no ar, no primeiro episódio, uma sensação de que a história é boba e clichê demais. Isto porque, além do plot já ter sido visto no longa citado e em diversos outros, as personagens parecem um tanto planas e de caracterização fraca. A razão desta afirmação vem de que elas soam como grandes estereótipos, como: a amiga chapada (Maxine), a namorada certinha e cdf que comente erros, pois está entediada (Beatrice), a figura materna em forma de psicóloga (Ruth).

 

 

Contudo, estes tipos que cercam a vida da protagonista vão se tornando menores diante dos conflitos interiores e passados que a atormentam, juntamente com o mistério que sua vida se tornou. E é a partir daí que o enredo passa a ser mais bem trabalhado. O tom que Lyonne dá se encaixa com o peso dos acontecimentos da vida de Nadia, seu corpo vai perdendo as marcas e trejeitos já encontrados em outros papéis dela, como a Nick, de Orange is the New Black e sua Nadia vai ganhando contornos específicos dela, como o jeito de olhar mais fixo ou a postura. O roteiro passa a ter, suavemente, progressão. Aumentando as tensões, através de pistas que começam a aparecer de uma nova relação que vai sendo construída.

Neste contexto, as músicas e as luzes que estão sendo utilizadas passam a dar o clima das cenas, como cores mais azuladas em zonas de conforto ou quando respostas para certos conflitos vão aparecendo. As temperaturas mais próximas do magenta deflagram os medos e a morte. Os tons escolhidos em si não são uma grande novidade, mas como eles surgem na tela surpreendem, porque mudam repentinamente, assim como as certezas de Nadia e outra pessoa de dentro do problema com ela e fazem sentido para a trama (Sem Spoilers).

 

 

Por fim, é notável o cuidado da direção de arte em fazer com que elementos cênicos desapareçam lentamente e quase despercebidos, até o ápice desta necessidade, quando pessoas e coisas vão desvanecendo bruscamente. Todos estes elementos parecem estar cuidadosamente previstos no roteiro, escrito por Natasha Lyonne, Amy Poehler (Parks and Recreation) e Leslye Headland (Dormindo com Outras Pessoas). É possível enxergar a tentativa de criar uma dinâmica no texto, jogando com a velocidade dos tempos das cenas, com o ritmo dos diálogos e os progressos e percalços dos indivíduos retratados no ecrã.

No entanto, o encerramento do problema inicial é previsível e simples demais, perdendo a potencialidade do que está sendo contado. Talvez, se houvesse mais tempo para o desfecho – 50 minutos que fossem -, não seria tão abrupta a resolução, que parece tão leviana e preguiçosa quanto o início. Isto porque pode ficar parecendo para o espectador que as roteiristas sabiam o que queriam contar, mas não como começar e finalizar, porque não fica tão elaborado, não cria empatia ou sentido, é repentino. Mas, são oito episódios de 25 minutos cada. Então, vale ver, principalmente pela discussão não panfletária e de interpretação carregada sobre doenças mentais e vícios.

 

Críticas: Previsível e sem costura “You” é entediante do início ao fim

Paira no ar uma sensação de que a sociedade performa uma romantização de relações tóxicas, desde sempre. Seja na ficção ou na vida real. Essa sensibilidade para notar a linha tênue entre amor e psicopatia é um dos maiores ganhos da série You. Talvez o único. Produzida pela Lifetime e distribuída mundialmente pela Netflix, a produção conta a história de Joe (sim, Penn Badgley, o Dan Humphrey de Gossip Girl), um garoto aparentemente inteligente, educado e carinhoso que, na verdade, é um assassino frio, um homem manipulador e perigoso.

Do outro lado, tem-se a mocinha do seriado, Guinevere Beck (Elizabeth Lail, sim, a Anna de Once Upon a Time). A jovem é um retrato fiel de uma menina de comédia romântica – mão à toa, escolherem uma atriz que fez uma princesa! E é a partir deste ponto que começam os incômodos com a produção. Apesar de ficar claro que muito do como a personagem é mostrada vem da idealização que o protagonista faz da moça, em alguns momentos o estereótipo de mulher “feminina” prevalece. Quando ele diz, por exemplo, que ela está quer se mostrar e ser vista, pois gosta de ter a privacidade invadida por ter os perfis de suas redes sociais aberto ou por ter uma janela de vidro, ou quando ela é posta como uma figura sem forças e que precisa de um homem para protegê-la.

 

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Pois mesmo quando não a vemos sob o olhar de Joe, algumas dessas suposições dele são reafirmadas, como a o sentimentalismo exacerbado de Beck ou sua passividade diante de maus tratos de seus amigos. Talvez, a tentativa fosse criticar a fetichização que os homens fazem com as mulheres e a noção deturpada do que é carinho e atenção que eles têm. Mas, esse feito não é realizado. E esta inabilidade não fica somente aí.

You é a típica série contemporânea que filia o público com bons cliffhangers e tem o recheio insossos e entediante. Falta ritmo! Não há uma intercalada entre os tempos. Mais da metade de cada episódio é arrastada e somente os minutos finais são de tensão. Desta maneira, não há progressão e/ou níveis de dinâmicas, ações e/ou suspense. A maior parte do tempo, pode-se conferir os pensamentos do protagonista, que fica lambendo suas feridas, pois sempre acredita estar sendo traído pela namorada. Não que isto seja um defeito em si, poderia ser bacana, se fosse bem feito. Contudo, não é isto que acontece.

 

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Sem dúvidas, aesteo ponto alto na falta da qualidade do projeto. As narrações de Badgley são infinitas, monocórdicas, eternamente no mesmo tom. É quase como se eles quisessem fazer um clima meio Dexter (2006-2013), mas sem dar colorido ao texto ou mostrar imagens que equilibrem a temperatura da cena que que acaba ficando constantemente morna. E assim o é porque, para completar os problemas da escrita da série, os conflitos são jogados no enredo, mas eles demoram para voltarem a ser mencionados. Enquanto isso, vão surgindo subtramas que vão sendo deixadas para trás ou que somem e a aparecem de vez em quando.

 

A única coisa pior que tudo isso é saber que eles contarão com uma segunda temporada.

 

Crítica: Nem boa e nem ruim! Minissérie “Maniac” quase chega lá!

Por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela Netflix e criada por Cary Fukunaga (It: A Coisa) e Patrick Somerville (The Leftover), Maniac é uma produção um tanto complexa de se descrever e adjetivar. A sua narrativa não possui unidade, é dispersa e cada enredo que eles criaram é mal aproveitado. Quando o público assiste ao piloto, a impressão é a de que o protagonista é Jonah Hill (Anjos da Lei) e que existirá um mistério a ser contado durante a temporada: o que Owen vê e diz é verdade ou não? Muito bem!

Em seguida, há uma quebra de expectativa – que poderia ter sido bem explorada, obviamente – e o segundo episódio é focado em Annie (Emma Stone). A partir daí, o espectador começa a pensar que irá montar o quebra-cabeça da relação de Annie com a irmã e o que isto tem a ver com Owen  dentro do enredo. Contudo, apesar do 01×02 ser bem executado, impactante, principalmente na forma de conduzir o conflito principal da personagem de Stone, ainda não é ali que a questão mais importante é posta. O que realmente o seriado vai contar é um experimento de uma empresa farmacêutica da qual os jovens interpretados por Stone e Hill irão ser cobaias. Saber que o processo e resultado disto é o que importa apenas fica claro… Bem, no final da série.

 

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O problema é que, ao invés de tentar contar com clareza o experimento e até mesmo usar as informações das personagens que são descobertas nas duas primeiras partes da trama, pequenas partículas de historinhas imaginárias são postas demasiadamente. O roteiro começa a parecer o mesmo labirinto mental que Owen e Annie estão, mas não de uma forma positiva. O tempo que é gasto com as fantasias das cabeças da dupla não têm ritmo, porque ficam estagnadas em um único tom, sem equilibrar aceleração com tensões ou calmaria, as falas são monocórdicas. Quando Maniac chega no final, a conclusão é de ela poderia se resolver em cinco episódios e ser mais impactante ou ter os dez que ele possui, mas que explorasse menos peripécias e desenvolvesse melhor o que importa: a saúde mental de Owen e o conflito de Annie com a irmã – sem spoilers!

Porém, não é possível dizer que a minissérie é ruim! A primeira coisa que chama a atenção é a experimentação de gêneros cinematográficos. Enquanto as cobaias estão desacordadas, elas vivem em mundos imaginários. Neles são mostrados romances, lutas, brigas, gangsters, dramas familiares, suspense, investigação. O tom, os figurinos, as temperaturas e as fotografias seguem bem cada estilo. O ponto alto é a história de máfia, vivida por Owen, que parece uma mistura de Os Bons Companheiros (1990, Martin Scorsese), com Baby Driver (2017, Edgar Wright). Mesmo fugindo da história principal que deveria ser contada, aqui o episódio consegue ser mais fluído graças ao ritmo imprenso nas fantasias de Owen. Inclusive, é quando a narrativa começa a voltar para o prumo e se encaminhar para um desfecho.

 

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Outro ponto positivo é a dinâmica entre Emma Stone e Jonah Hill. Os dois separadamente estão equilibrados, conseguem captar bem a essência das personagens fixas que fazem, bem como mostram outras facetas quando estão vivendo as pessoas da realidade paralela. Vozes marcantes, postura corporal, malemolência ou dureza, os atores trazem em cada persona uma figura diferente. Mas, as cenas crescem mesmo quando a dupla está junta. A vivacidade de Annie contamina a melancolia de Owen e tanto a dupla quanto os acontecimentos ao redor deles ganha equilíbrio, deixando que a energia seja apenas uma. Além, claro que a trama fica menos dispersa quando os dois se encontram.

Por fim, o clima de futurismo dos anos 1980, numa pegada Blade Runner (1982), é um plus para o seriado, que busca desconectar-se temporalmente. A ideia que se existia no século XX de máquina com sentimentos e pensamentos é colocada a todo vapor em Maniac. Inclusive, a trajetória da personagem/computador, dublada por Sally Fiel (Brothers and Sisters), é a que vai fazendo mais sentido durante as horas de exibição. Assim, a série vira um produto distraído, que pode ser consumido lentamente, sem maratonas, para não ficar entediante.

Crítica: montagem é a grande falha de Luis Miguel: A série

por Enoe Lopes Pontes

Produzida pela MGM e a Gato Grande e distribuída pela Netflix, Luis Miguel – a Série alcançou um sucesso tão grande no México, que até uma matéria sobre o entusiasmo de seu público saiu no El País. Contando a trajetória do cantor internacional que dá título para a história, a produção mescla drama familiar, com romance e uma pitada de mistério. Toda a trama se baseia nos sucessos e derrotas de Luis (Diego Boneta), através de idas e vindas em sua vida, entre sua pré-adolescência até o início de sua juventude. Com um início instigante, a lógica da narrativa não se sustenta, porque ela perde sua força quando abusa da questão temporal.

Um dos elementos que acabam faltando por conta disto é a progressão dramática. A vida do cantor parece ter sempre sido marcada pelas opressões de seu pai, o também cantor, Luisito Rey (Óscar Jaenada). Até a sua morte, em 1992, Luis Miguel precisou lidar com os ultrajes de seu progenitor que lhe causaram perdas e ganhos enormes em sua carreira e desastres em sua vida pessoal. Por isso, é possível que a dinâmica seja logo vista, mas a empatia demora a acontecer e algumas reações das personagens não parecem justificáveis, até que se avance nos episódios. A estratégia poderia funcionar, porém as emoções são jogadas aos montes, deixando o tom das cenas à cima por tempo demasiado.

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Outros fatores não tão agradáveis são a montagem e a continuidade. Talvez, esta seja a grande questão da produção. Se uma reorganização das cenas fosse realizada, em cada episódio, a progressão e conexão com a trama conseguiriam crescer. Além disso, os cortes fazem o ritmo da exibição ir caindo e a fluidez da narrativa ir se perdendo. Resta uma ideia de que tudo que está sendo mostrado na tela é redundante e monótono. Por fim, as sequências foram realizadas com tanta falta de zelo que é possível notar erros de prosseguimento tão fortes que a questão até virou piada na internet – principalmente no Twitter, claro.

Contudo, existe uma questão que tem a capacidade de instigar o público a querer continuar sua maratona! O fator motivante para terminar a temporada é o mistério em relação ao sumiço de Marcela, mãe do protagonista. Entre as derrapadas de Luis e seu pai, a grande questão que desperta curiosidade é como vão mostrar a busca da personagem principal por um reencontro com Marcela e a razão pela qual ela sumiu. Inclusive, a atriz que a interpreta, Anna Favella, consegue estabelecer uma boa dinâmica com os dois atores que interpretam o cantor em sua fase de adolescente (Izan Llunas e Luis de La Rosa). As relações de olhar e toque, devido ao medo que os dois têm de Luisito ou alguma conquista maior de Luis, são logo notadas. O gestual de Favella fica mais suave quando sua personagem está ao lado do filho, e o mesmo demonstra segurança e tranquilidade quando acontecem interações entre os dois.

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Luis Miguel: A Série consegue enlaçar o espectador até o final da temporada por possuir uma investigação curiosa, que pode ser considerada o ponto alto do seriado. Contudo, se diluísse mais as idas e vindas da trajetória de Luis e enxugasse os episódios de treze para oito, talvez conseguisse reunir os fatos mais necessários para a trama e ganhasse impulso e brilho que um cantor que despertou tantos fãs mundialmente merecia.

 

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