Categoria: colunas

Br em Série: A fórmula do sucesso: Cine holliúdy traz a comicidade nordestina e homenagem ao cinema e A TV

Parece que apesar do preconceito e descaso com o Nordeste, a cultura da região ainda é receita de sucesso para as narrativas brasileiras. A Rede Globo demonstra ter entendido isso há algum tempo, pois vira e mexe apresenta narrativas com esse conteúdo, desde novelas, filmes a, mais recentemente, seriados (muitos desses produtos adaptados de realizações regionais). Assim, fomos apresentados a Cine Holliúdy,  trama de dez episódios que trouxe de volta à TV aberta o humor nordestino, mais especificamente cearense. Baseada no longa homônimo de sucesso do cinema nacional, assinado também pelo diretor Halder Gomes, a produção retorna com o personagem Francisgleydisson (Edmilson Filho) e outros atores, para a fictícia Pitombas, cidadezinha do interior do Ceará, onde esse “cabra” sonhador e apaixonado por cinema luta para manter viva a sétima arte que está ameaçada com a chegada da TV.

Tanto a série quanto o filme tem a mesma premissa de homenagear as salas de cinema que movimentavam as cidades do interior, mas que hoje, já quase não existem. Porém, nessa nova roupagem, fica forte a metalinguagem com relação a TV. A narrativa, como a abertura (belíssima e cantada por Elba Ramalho e Falcão) coloca, brinca com essa relação: Qual a diferença da TV para o cinema? Parece um pergunta retórica já que a série reverência a TV e suas próprias produções (novelas da Globo) e o cinema (em especial o cinema regional). O tom nostálgico e a homenagem singela é um trunfo do seriado.

 

 

Para quem acompanhou os filmes, pode ficar tranquilo, que apesar do “mão da Globo” visível na produção, Cine Holliúdy tem uma história nova, mostrando o mesmo Francisgleydisson numa versão, anterior a dos dois filmes da franquia, embora ainda dedicado ao cinema.  Francis aqui vive em Pitombas, onde toca um cinema fixo (Cine Holliúdy) nos anos 1970. O problema surge com a chegada da nova mulher do prefeito, a paulista Socorro (Heloísa Perissé), e sua filha, Marylin (Letícia Colin), que o convencem a comprar uma televisão, a primeira da cidade.

O protagonista logo se encanta pela “platinada” e com nome de “estrela do cinema”, Marylin, e daí surge o romance entre “tapas e beijos” entre eles. A graciosidade e determinação da moça da cidade, em contraponto à ingenuidade e esperteza de Francis dão autenticidade ao romance. Ao longo dos episódios, Francis, seu fiel escudeiro Munízio (Haroldo Guimarães) e Marylin decidem criar seus próprios filmes e reconquistar o público.

 

 

Ao redor deles, atuações da melhor qualidade, como o Prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele), que prova mais uma vez o respeito ao interpretar um nordestino, seu assessor (ou capacho) Jujuba (Gustavo Falcão), a primeira-dama Socorro (Heloísa Périssé de volta às telas), e os talentos regionais que fizeram a diferença, como Carri Costa (Lindoso), Solange Teixeira (Belinha) e Frank Menezes (Delegado Nervoso). E é claro, não poderia se deixar de comentar da primorosa narração de Falcão,que também atua como Cego Isaías, com seu sotaque forte dá um aspecto de cordel a narrativa .

 

Ode ao cinema e ao interior nordestino

 

Cine Holliúdy une o bom dos dois mundo: o ritmo rápido (em torno de 25 min), com arcos que se fecham por episódio (trama circular) e que não se enrolam, estilo dos filmes clássicos, com a narrativa simplória, sem tramas muito complexas, típico das novelas. Um história para se distrair, rir e apaixonar pelos personagens.

Os  episódios temáticos são mais uma forma de homenagear o cinema. Em sua saga de herói, Francis lida com situações de filmes de ficção científica, de ação, vampiro, faroeste e até os filmes de luta. Cada aventura dessa vira um filme que ele mesmo produz, e que faz o cinema resistir a TV, pois, em suas palavras, “o povo quer ver filmes com gente do Ceará, e falado em Cearense”.

 

 

Apesar desse clima de descontração, a série não escapa do estilo Globo, com personagens e situações penando para o caricato. A a função de cada personagem é típica e fica explícita logo nas primeiras cenas,  o malandro, o político corrupto, a garota moderna da capital, a fofoqueira, a dondoca, o bobalhão. Porém, a boa atuação, os diálogos, cenários e figurinos caprichados tiram a série do lugar estereotipado e fazem o público se conectar rapidamente.

De um filme de baixo orçamento, que levou mais de 480 mil pessoas aos cinemas, surge uma série, que seguindo o sucesso de produções semelhantes, como Auto da Compadecida e a novela Cordel Encantado, se consagra como mais uma comédia certeira da Globo nas noites de terça-feira,  faixa que teve outras comédias cheias de qualidades, como Tapas & Beijos e Mister Brau. Apesar do horário, Cine Holliúdy exibe um Nordeste colorido, divertido e cheio de aventuras e fantasias que todo mundo pode assistir. O bom resultado trouxe bons ventos, depois do segundo filmes, agora foi confirmada a sua segunda temporada da serie.

 

http://www.adorocinema.com/series/serie-23202/video-19561985/

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

Comédia em Série: Barry: E se Breaking Bad fosse engraçada?

Barry é uma série da HBO, lançada em 2018, com a sua terceira temporada confirmada para 2020. A produção acompanha Barry Berkman (Bill Hader), um ex-militar que foi à guerra do Afeganistão e, após voltar aos Estados Unidos, é recebido por um amigo de seu pai, Monroe Fuches (Stephen Root), um oportunista que acaba transformando o protagonista em um assassino de aluguel. Fuches é quem arranja as contratações dele, cuja única condição é que mate apenas pessoas ruins. (mais…)

Br em Série: Cordel Encantado, a novela que vale a pena ver de novo e de novo

Como falar de produtos seriados brasileiros e não falar de telenovelas? Apesar das mudanças que vêm ocorrendo no consumo televisivo nos últimos anos, e da permanência do preconceito estético em relação à enredos melodramáticos (ou “novelescos”), que supostamente elencam discussões sobre manipulação e alienação, elas ainda estão entre os principais gênero audiovisuais consumidos no Brasil.

Por certo, levando se em conta a longa história e quantidade de novelas produzidas, é compreensível, que assim como as séries, nem todas tenham sucesso, ou sejam produtos minimamente interessantes. O fato de serem exibidas em canais televisivos, ou seja, seguirem uma programação de horários fixos diários, tem contribuído para subtrair cada vez mais o número de espectadores que migram para as plataformas streaming. Porém, ainda é possível ver algumas “quebra-regras” como no caso da novela Cordel Encantado, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes.

 

 

A novela Cordel Encantado nos apresenta uma fábula que se estabelece a partir do encontro de dois universos fictícios, um reino europeu, Seráfia, e o sertão nordestino, Brogodó. A trama oferece referências, misticismo, humor e romance, na mistura de literatura de cordel (cultura popular) com a tradição europeia. A obra não só obteve bastante sucesso de público e crítica em sua primeira exibição na Globo em 2011, no horário de 18h, como também deixou sua marca no horário da tarde, finalizando com notável sucesso, no 03 de maio 2019, sua curta reprise no Vale a Pena Ver de Novo.

 

Inovações narrativas com base na mistura de clássicos

Oito anos depois, a novela de direção de Amora Mautner, mostrou que seu sucesso não foi pontual. Exibida no programa Vale a Pena Ver de Novo, bateu recordes de audiência, em um horário de pouco valor (entre 15h e 17h). Esse sucesso alcançado por Cordel Encantado se explica, logicamente, por suas muitas qualidades, primeiramente narrativas, visíveis desde o primeiro capítulo, e também como um sinal do cansaço do público com o modelo que tem dado a tônica da maioria das novelas nos últimos anos.

Ao invés do uso abusivo de realismo e naturalismo próprio da maioria das telenovelas, Cordel apostou em criar um mundo encantado próprio, da combinação dos contos de fadas com uma ambientação bem regional. O enredo traz elementos da literatura de cordel e das histórias do sertão, relembrando a celebridade que carrega esse tipo trama, como, por exemplo, Auto da Compadecida. O ritmo instigante e ágil, mas que não deixava de dar tempo necessário para que o público conhecesse os personagens e embarcasse na história, é sentido do primeiro ao último capítulo.

 

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A favor da novela também pesa o quesito tempo, na comparação com as novelas, teve a duração mais curta dos capítulos (40 minutos) e um menor tempo de permanência no ar (cinco meses). As autoras não adiaram nenhuma resolução. As tramas eram propostas e logo solucionadas de maneira adequada. Isso não só ocorreu com as subtramas, mas também o mote principal, como por exemplo, a revelação que Açucena (Bianca Bin) era a princesa perdida, ainda logo no início da novela. É comum ver novelas se arrastando com tramas simples por vários capítulos, ou mudando o enredo apenas pelo sucesso da obra com o público (o tão falado hoje, “fanservice”).

No entanto, esta “ligeireza” foi responsável, mais para o final da narrativa, por cair na famosa “enrolação”. Houve uma fase em que, semanalmente, o vilão o Timóteo (Bruno Gagliasso) tramava alguma emboscada ou malvadeza e Jesuíno (Cauã Reymond), o herói, descobria e salvava a princesa e/ou a cidade. Porém, para quem gosta (ou no mínimo sente nostalgia) dos contos de fadas, isso não interfere na apreciação da obra, principalmente porque esse suposto chicerismo se quebra quando se percebe que a princesa é uma nordestina, o mocinho é filho de cangaceiro e o vilão um louco mimado filho de coronel.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e consiste na introdução de elementos supérfluos, com o simples objetivo de entreter o público. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado. Diálogos pretensiosos, casais extremamente forçados, personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Esses são alguns exemplos de fan services mais recorrentes dos produtos seriados (lembrou de algum?). A intenção esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa.

 

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A diversão oferecida ao longo dos meses superou, de longe, esta limitação. O saldo de Cordel Encantado é positivo e  entra para o seleto grupo de novelas que o espectador lamenta quando termina, não é à toa que voltou à Globo. A reprise, inclusive, causou menos a sensação de enrolação, pois foi reeditada para o horário da tarde, e perdeu esses “excessos”.

Outra inovação narrativa é a inversão da ordem de exibição do último e do penúltimo capítulo. O da véspera é típico dos finais novelescos, cheio de emoção e desfechos, incluindo a morte do vilão Timóteo e o casamento de Jesuíno e Açucena em Seráfia. Já o final, praticamente não tem emoção nem surpresas, exceto pela apresentação de um novo vilão, dando brecha, quem sabe (talvez) para uma continuação.

 

Qualidade e cuidado ao detalhes: Música, figurinos e inovações tecnológicas

 

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Além dessas inovações narrativas, e de um elenco bem escalado, a direção de Amora Mautner e de Ricardo Waddington foi feliz em muitos outros aspectos, como em trazer o padrão de cinema (24 quadros por segundo) para a fotografia (inclusive com cenas aéreas belíssimas dos dois cenários e closes generosos no elenco). Também a qualidade dos figurinos, e da iluminação não ficam atrás. As vestimentas primorosas de época poderiam ilustrar modernos editoriais de moda. Por sinal, um elogio as personagens femininas, que mesmo numa trama de princesas, sertão e cangaço, são fortes cada uma em seu jeito particular. Daria para escrever um artigo sobre cada personagem.

O que fica um pouco problemático é a questão da regionalidade. Vê-se que há uma pesquisa e cuidado quando se trata de situações da história do sertão nordestino (ainda mais se referindo a um período antigo), e o fato de se passar em uma cidade fictícia, tira um pouco o peso da representação. Mesmo assim, é possível ver alguns sotaques mais exagerados e estereotipados. Também faz falta mais atores e atrizes nordestinas, apesar de este ser, o melhor papel da vida de muitos atores do elenco.

 

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Outra questão é em relação a trilha sonora, artifício forte das telenovelas. Algumas pessoas sentiram falta de músicas e músicos mais tradicionais do cordel e do sertão (o que seria uma ótima forma de divulgação), porém, creio que trazer, Alceu Valença, Karina Buhr, Lenine, Zé Ramalho, Núria Mallena, entre outros, efetiva essa sensação de nostalgia e regionalismo da trama. Inclusive a abertura, cantada e contada por Gilberto Gil e Roberta Sá, consagram a combinação entre regional e moderno.

A novela se despediu mais uma vez levando seus personagens, cenários e músicas. Foi se embora com seu conto de fadas, suas referências literárias, à História, e a filmes famosos, com seu toque pop e moderno. Só resta esperar por outra reprise, ou quem sabe uma continuação, e lembrar que até as novelas, com criatividade e respeito a nossa história e tradições, podem ser muito mais que melodramas manipulativos ou sem conteúdo.

 

Série em Pauta: O dia de Star Wars virou festa dupla em Salvador

Texto: Enoe Lopes Pontes

Fotos: Laís Prado

Numa galáxia não muito distante, Rey e Kylo-Ren se encontraram com o Darth Vader! Sabres de luzes piscaram, o Yoda apareceu com bastante frequência e vendedores comercializaram naves feitas em impressora 3D. As crianças correram vestidas com fantasias e blusas em homenagem a Luke Skywalker e Leia Organa. Os corpos foram gravados com tinta permanente, simbolizando a eternidade de suas paixões.

O lugar que deu espaço para este ambiente de fantasia foi o Portela Café, localizado no Rio Vermelho. Toda esta dinâmica aconteceu devido ao May the 4th. Inaugurado por George Lucas, criador de Star Wars (SW), o dia é exaltado pelos fãs da saga, que se reúnem para festejar a franquia. O motivo da data vem trocadilho da famosa frase “Que a força esteja com você”, em inglês: “may the force be with you”, que tem som semelhante ao 4 de maio, na língua inglesa.

Pensando na relevância da comemoração para o fandom deste universo, o Conselho Jedi Bahia organizou, pelo segundo ano, este acontecimento na cidade. Divida em duas etapas, uma pela tarde, o May the 4th Pop e outra à noite, a May the 4th Party. O objetivo foi reunir os fãs e trazer atividades lúdicas e divertidas, buscando fazer jus ao amor por SW. Paulo Metting é presidente do Conselho e assiste aos filmes desde criança. A ideia veio da vontade de propor algo que realmente marcasse o dia na lembrança dos fãs. “O pessoal da casa abraçou a ideia e foi um sucesso”.

 

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GRAVADO NA PELE E NA MEMÓRIA

Se a ideia do Conselho era fixar fortemente o ensejo na recordação de cada amante de Star Wars, ele conseguiu este intento! Pelo menos, na figura de Amanda Magalhães, 29. A jovem publicitária foi pedida em casamento no May the 4th de 2018 e, neste ano, resolveu fazer uma tatuagem dos bastante conhecidos Stormtroopers, soldados do Vader. O detalhe especial é que ela colocou duas orelhas de bulldog na figura, pois é fascinada pelo tipo de cão e tem três cachorros da raça.

O amor gravado na pele também é vivido por Nill Ojuara, 36. Espectador assíduo da saga, ele não só possui três tattos de personagens de SW, como também é tatuador. Concentrado em sua atividade, ele foi contando suas motivações para estar trabalhando naquele sábado. “O negócio aqui nem é lucrar, lucro menos em uma dia como esse. Faço pelas amizades com o Conselho e por gostar tanto de Star Wars”.

 

Na foto 01, Amanda Magalhães, 29, faz tatuagem com Nill Ojuara, 36. Nas imagens 02 e 03, Magalhães mostra o esboço de sua tatto.

 

Esse sentimento que motiva e encanta os fãs também é passado de geração para geração. Durante o evento foi possível ver muitas crianças fantasiadas, correndo pelo espaço, colorindo desenhos e brincando com os jogos ali propostos. Olhando ao redor, a equipe notou uma garotinha vestida de Princesa Leia. A sua acompanhante, a cantora Lorena Cerqueira, explicou que é dinda da menina e que foi ela quem apresentou para a afilhada este universo.

Contudo, Lorena garante que agora a jovem Padawan* é quem é a fã número 01 da família. “Enquanto todas as coleguinhas estão com mochila da Frozen, ela vem arrastando a dela, toda preta, do Darth Vader”. As duas fazem, eventualmente, noites especial com maratona dos longas e chamam de “Noite de Star Wars”.

 

Na foto 04, a afilhada de Lorena Cerqueira, 40, veste cosplay da Princesa Leia. Na imagem 05 está um dos desenhos que o Conselho Jedi Bahia disponibilizou para as crianças pintarem.

 

REUNIÃO DO FANDOM E O CONSUMO

De acordo com a professora doutora Adri Amaral, o compartilhamento de conteúdo e reunião entre o fandom ocupa um espaço de sociabilidade e afetividade na vida deles. Para a pesquisadora, a produção ocupa uma importância forte na vida dessas pessoas, gerando um consumo intenso.

“Tem até um certo nível de competição entre os fãs por conta de quem compra mais por exemplo gerando assim uma disputa de capital social e do próprio entendimento do que é ser fã a partir das coleções etc”, explica Amaral. No entanto, ela aponta que também existe muitas práticas solidárias dentro da comunidade, para ajudar os que não possuem recursos para adquirir a imensa quantidade de produtos ligados à saga.

 

Na fot0 06, Yasmin Uchôa, dona da Mimo Cadernos. Na foto 07, um Chewbacca e uma Leia de bisciot, do Mundo Biscuit.

 

TENDÊNCIA GEEK

Ligada no mercado do mundo nerd, a empresária Yasmin Uchôa decidiu embarcar na feitura de cadernos com símbolos de produções famosas. Desde o primeiro ano da May the 4th, ela expositora fiel de seus produtos em feiras voltadas para este tipo de público, justamente por considerar um grupo que gosta de investir em materiais focados em suas paixões.

Porém, comprar não é o foco exclusivo desta comunidade. Outras características habitam esta sociedade. Um destes elementos é o costume de fazer cosplays. Trajando as vestimentas de suas personagens preferidas, eles desfilam com suas elaboradas roupas, com expressões faciais que demonstram contentamento. Membro do Conselho Jedi da Bahia, Kauana Hervan, 29, queria muito se vestir de figuras que admirava nas telas e nos quadrinhos, mas nunca teve coragem. Contudo, já tem um ano que começou a incorporar a Rey, persona dos filmes mais novos de SW, e tem gostado muito desta experiência.

 

 

* Padawan é a criança que está em fase de treinamento para ser Jedi

**Essa matéria contou com a colaboração de apuração de Laís Prado

Colunas: Morte, sedução e evolução em Killing Eve (Primeira Temporada)

Quando comecei a pesquisar (academicamente) críticas feministas aos produtos culturais, me propus o exercício constante de, além de buscar aqueles que promovam o protagonismo feminino e que tragam mulheres nos cargos técnicos “principais” (como direção, roteiro e montagem), analisar também a qualidade, por assim dizer, dessa representação. Explico: acredito que devemos ser criticamente exigentes com o “nível” que as representatividades assumem nas narrativas, mais do que exigir somente uma presença em tela ou nos sets. Ou seja, não anseio uma série ou um filme protagonizado por mulheres mas com desenvolvimento raso das personagens, ou um roteiro que reproduz estruturas tradicionais* ou que pouco tensione os silenciamentos e os estereótipos que nós quase sempre sofremos. Quero mais. Espero personagens com personalidades complexas, cujas ações evoluam na trama e que as relações com as demais figuras femininas nos ofereçam outros olhares sobre sororidade e rivalidade.

 

Diante de um produto como Killing Eve, vemos como uma boa narrativa pode explorar nuances das suas personagens, fazer o roteiro evoluir junto à evolução destas, em suas performances e na relação construída entre elas, especialmente quando uma é psicopata e assassina de aluguel e a outra uma funcionária da Inteligência Inglesa (MI5) – posições centrais nas histórias de perseguição tradicionais que aqui adquirem contornos maiores do que o lado bom x lado mau. A série dramática é uma produção britânica para a BBC America, baseada nos romances seriados Codename Villanelle, de Luke Jennings, criada por Phoebe Waller-Bridge e estrelada por Sandra Oh (Cristina Yang, de Grey’s Anatomy) e Jodie Comer (de My Mad Fat Diary). A Maratone como uma Garota! discute um pouco a primeira temporada, especialmente a concepção das duas protagonistas!

 

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Eve (Sandra Oh) é uma agente da Inteligência Britânica muito sagaz, porém subestimada no trabalho, que tem uma fixação por assassinatos e mulheres criminosas e começa a investigar uma assassina profissional internacional, Villanelle (Jodie Comer). Logo, Eve se vê diante de uma grande organização do crime e Villanelle parece apreciar sua busca incessante. Elas vão adquirindo uma fixação mútua, o que move o roteiro, que economiza suspenses. Com 8 episódios, a velocidade das ações é rápida e as coisas se resolvem sem muitas delongas. O apelo ao espectador, aqui, vem muito menos do mistério e da ansiedade de revelações que um thriller policial normalmente oferece e mais de uma curiosidade para com as motivações e ações da antagonista e da protagonista.

 

Eve, envolta no prazer de estar à frente de algo tão grandioso (como ela diz, “salvar o mundo da assassina”), começa a romper barreiras éticas e revelar outros lados de sua personalidade. Ela vai “morrendo” aos poucos (Killing Eve traduz-se por “Matando Eve”) para renascer e experimentar outra vida, em outro nível de ação. E é em Villanelle que encontra um ponto de transformação. Sim, o trunfo da série é a interação narrativa e artística entre as duas atrizes principais, ainda que outras mulheres também assumam papéis de destaque. A esfera psicológica tem, portanto, um papel central no desenvolver da trama, movendo as personagens e desestabilizando expectativas do público. Tudo isso se expressa na montagem, especialmente no encadeamento de planos e contra-planos, que não se limitam a contrapor pontos de vista, mas engendrar a intimidade que sendo estabelecida, e nos enquadramentos que sempre revelam alguma nuance característica de cada uma.

 

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A premissa do jogo de perseguição policial – bandido está, aqui, recheada com o tom de imprevisibilidade que a psicopatia e frieza da antagonista, Villanelle, proporciona. O que esperar de alguém cujo prazer do trabalho de assassina não lhe impõe limites? Poucos clichês emergem, ainda que alguns pontos soltos eventualmente surjam, o que não atrapalha o desenrolar da história, justo porque Eve e Villanelle não são óbvias, não são arquétipos fixos e previsíveis. Assim, as incoerências na narrativa, como perseguições óbvias, viagens imprevistas, resoluções e recursos que não existiriam na prática, se tornam “irrelevantes” quando o que se sobressai é na verdade a lógica de dominação e sedução estabelecida. Ainda que seja um enredo de perseguição, as fronteiras do jogo se tornam nebulosas e já não se percebe tão nitidamente as reais motivações dessa busca.

Grande parte do êxito e da potência da produção está na performance das atrizes, incluindo aqui não somente Sandra e Jodie, mas também Fiona Shaw, que interpreta Carolyn, da inteligência russa e quem recruta Eve. Kirby Howell-Baptiste, única mulher negra da produção, interpreta Elena Felton, a assistente de Eve, e vai perdendo presença com o passar dos episódios, ponto em que a série peca, já que parece não valorar suas ações e subjugar sua trama. A estética corporal e a atuação carregam traços de personalidades – como os trejeitos ora joviais e despreocupados de Villanelle, ora violentos. Sandra Oh imprime no corpo a satisfação e a segurança que sua personagem vai desenvolvendo ao longo dos episódios.

Para quem aprecia histórias policiais, sem dúvida Killing Eve reserva uma experiência de suspense e envolvimento subjetivo muito interessante. A segunda temporada já está no ar e a série, que fez Sandra Oh ser a primeira atriz de origem asiática indicada ao prêmio Emmy de Melhor Atriz, já foi renovada para uma terceira!

 

 

 

* Por tradicionais, pretendo me referir aos modelos a que comumente as mulheres são associadas, como por exemplo: maternal, protetora, amável, o elo frágil do grupo, ou quando as ações de uma personagem, ou sua personalidade, são moldadas em função de um personagem masculino.

**Letícia Moreira é produtora cultural, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Unicamp. Além disso, é crítica de cinema, pelo site Mais que Sétima Arte (https://maisquesetimarte.wordpress.com/)

Plano em Série: Sharp Objects – Um Olhar Sobre a Cinematografia

Desde o sucesso de Game Of Thrones (2011) a HBO tem investido em conteúdos originais cada vez mais sofisticados. Este também é o caso da série Sharp Objects (Objetos Cortantes, em português). Lançada em 2018, pelo canal fechado e estrelada por Amy Adams, a criação é assinada por Marti Noxon, uma produtora influente no universo seriado estadunidense. Noxon tem no seu currículo a produção executiva de Mad Men, Grey’s Anatomy, Prision Break e Buffy, a caça vampiros, por exemplo. O diretor dos oito episódios é o canadense Jean-Marc Vallée, o que mantém uma unidade interessante na mini-série, contrariando o modismo (ora produtivo, ora cansativo) de um diretor por episódio. Vallée já vinha da competente direção de Big Little Lies, outra mini-série premiada da HBO.

Sharp Objects conta a história da repórter Camille (Adams), jovem que precisa retornar à sua cidade natal para escrever uma matéria sobre o desaparecimento de uma garota. Em uma relação completamente instável com sua mãe, Adora (Patricia Clarkson), e sua meia-irmã, Amma (Eliza Scanlen), Camille vive o conflito do desaparecimento alheio no vórtice de seus problemas familiares de forma a intensificar a sua condição psicológica – ela sofre de auto-mutilação.

 

 

Para construir a personalidade e os displays comportamentais de Camille, a dupla de diretores de fotografia Ronald Plante e Yves Bélanger assumem estratégias eficientes assim como o time de montadores liderados por Jean-Marc Vallée. Aqui vale a pena uma dedicação aos princípios da cinematografia utilizados por Plante e Bélanger para compreender um pouco da engenhosidade dos episódios centrados em uma linguagem de suspense. A câmera majoritariamente utilizada foi uma Arri Alexa Mini e um conjunto de lentes Prime Arri Zeiss – e isso significa que a equipe conseguia um aspecto imagético mais escuro (subexposto) com segurança, além de escolher uma espécie de textura na imagem mais próxima da realidade, evitando luzes artificiais e fugindo da perfeição. Assumir essa estrutura imagética como linguagem facilitou, inclusive, o tratamento de colorização final, já que a cinematografia teve poucas exigências quanto as diferenças na luminosidade – mas não dispensou o rigor na aplicação do LUT (Look Up Table) que uniformizou o visual de toda a série.

As sequências externas foram filmadas com prioridade para a luz natural. Neste sentido, é possível perceber a diferença na intensidade da luz a depender do episódio. Há realidade em assumir que os dias e as nuvens interferem nos tons de pele e nos reflexos dos objetos, por exemplo. A luz era proveniente de janelas, sempre presentes na casa de Adora e de práticos (objetos de cena que projetam luz, como abajures, lustres, velas, lâmpadas, tubos fluorescentes, letreiros luminosos, etc.). Essa composição influencia absolutamente na relação que Camille tem com o espaço, como ela transita por ele, se relaciona com a sua dependência com o álcool e também com sua família. E para além das definições de luz, há um investimento na estratégia de utilização da câmera – ela está sempre na mão e sempre com Camille. A câmera não se distancia da protagonista mesmo durante os flashbacks frequentes ou quando ela visita memórias inconscientes, subjetivamente é possível ver o olhar de Camille e objetivamente é possível ver quase que através dela (há um acento no famoso POV – Point of View). Neste sentido há uma decupagem livre, acompanhando os desejos da personagem e suas ações de forma sensível e corajosa.

 

E a Arri Alexa Mini está na mão. Ela trepida, se mexe, se desestabiliza sempre. Assim como Camille está destroçada em reviver memórias difíceis, a câmera conversa com a protagonista ora como se fosse ela mesma, ora como se assumisse o seu alterego. Um trabalho impreciso e por isso precioso, sufocando a intimidade de Camille, arrebatando suas inseguranças e vivendo com ela todo o suspense que Sharp Objects deseja sustentar.

**Marina Lordelo é fotógrafa, crítica do audiovisual, pesquisadora e diretora de fotografia.

BR em Série: Coisa Mais Linda: Um retrato moderno da Bossa Nova

Existem inúmeras histórias sobre mulheres empreendedoras e a frente do seu tempo. Atualmente esse tipo de enredo tem adquirido maior sucesso e prestígio nos programas seriados, obtendo, inclusive, pontos positivos de audiência e crítica. Dentro nessa estimativa, a Netflix estreou a série brasileira Coisa Mais Linda, criada e produzida por Heather Roth, e Giuliano Cedroni, criador das séries (FDP) e Outros Tempo- Velhos, da HBO. A premissa principal é bem comum, representar um contexto histórico a partir da perspectiva de quatro mulheres bem diferentes, Maria Luiza (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa). Nesse caso, o contexto é final de década de 50 e início dos anos 60, quando o Rio de Janeiro estava fervendo culturalmente e a política vivia um momento de esperança com Juscelino Kubitschek. Isto é emblemático e a escolha define não só o plot da série, como também toda sua construção narrativa e simbólica.

É nesse período que nasce a Bossa Nova, gênero musical brasileiro (ou seria melhor dizer carioca) que mistura samba com Jazz, e que se consagrou internacionalmente, sendo muitas vezes considerado “símbolo do Brasil”. Com o tempo, acarretou a imagem da boemia, de praia, de letras românticas e profundas, que foram compostas por jovens músicos de classe média alta. Mesmo sem viver essa época, nosso imaginário (brasileiro e qualquer pessoa que procure estudar/ler sobre esse gênero) já está carregado com esses símbolos, e também por muitos estereótipos.

 

 

O seriado traz justamente essa atmosfera da Bossa para construir sua narrativa, como fica explícito já no título, em homenagem a música mais marcante de Jobim e Vinícius de Moraes, “Garota de Ipanema”. Coisa Mais Linda tem um bom aparato técnico, como a fotografia, o figurino, a ambientação e, claro, a trilha sonora nostálgica. Escala atrizes jovens e bonitas, com personagens fortes e especiais, que nos trazem aquela sensação de esperança e fantasia. Em resumo, traz a típica da imagem de exportação do Rio turístico, ressaltando as atrações conhecidas pelos turistas, como o samba, as praias e pontos turísticos, valorizados  em plano aberto.

O problema não é essa ordinariedade, afinal, é bem sucedida em tentar captar seu objetivo e seu público alvo. Quem gosta de narrativas melodramáticas e despretensiosas, com certeza aproveita esses pontos positivos. O que quebra a lógica é justamente a série tentar, mas não assumir, o drama político que se propõe (como fica evidente por exemplo, na correria da trama em resolver as coisas). As questões de gêneros e feminismo, acabam se tornando quase como “citações”, justamente, talvez, por essa vontade de falar de tudo sem se aprofundar.

 

Música, referências e superação

 

 

Assim como os seriados As Telefonistas e Maravilhosa Sra. Maisel, Coisa Mais Linda deixa claro que o foco está nas histórias de vida e superação das mulheres protagonistas. É um artifício comum colocar mulheres diferentes (quase opostas) no jeito, personalidade e na aparência como um grupo de amigas, cúmplices, e que ajudam umas às outras a superarem seus desafios, que no caso, é a luta, enquanto mulheres, por sua independência e liberdade. Apesar da ingenuidade retratando essas relações, (ainda) é necessário ver mulheres nas telas não colocadas como rivais, e vê-las trabalhando juntas, mesmo que em um muitos casos, essa ideia de união não aprofunde questões íntimas e de desigualdade entre elas.

Por tanto, trata-se de uma série leve, do tipo que dá para se assistir de uma só vez, mesmo trazendo à discussão assuntos sérios como preconceito racial, abuso sexual e psicológico e violência. Isso porque a narrativa se constrói de maneira direta, os micro conflitos têm resoluções rápidas e simples. Além disso, é recheada de músicas da Bossa Nova, do samba e do jazz, além outras referências desse período (como o próprio nome das personagens e suas personalidades remeterem a músicas).

Você pode se perguntar, por que falar da lutas de mulheres com um gênero musical tão masculino, que justamente coloca as mulheres como musas e objeto de admiração? Acredito que a proposta da série seja justamente tentar subverter essa questão (inclusive, acho que vem daí a escolha da produção pela versão de Amy Winehouse da música de abertura, além do fato de ser mais interessante a versão em inglês para o público internacional). Não só a Bossa Nova, mas o samba, os meios de comunicação (inclusive os que falam e são para nós, como a revista que Thereza trabalha), tudo é comandado por homens, ou é mais valorizados se feitos por eles. E a série foca bastante nessa problemática, quando, por exemplo, o crítico famoso elogia o músico Chico e menospreza Lígia e Malu, ou, no desfecho da temporada, que simboliza essa eterna sabotagem da sociedade com as mulheres, que mesmo quando tudo vai bem, parece dar certo, somos negadas, roubadas e mortas, diversas vezes.

 

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Resoluções fáceis e problematizações frias

Apesar desses atributos convidativos, a série está longe de trazer grandes discussões e falha em tentar problematizar questões que não consegue sustentar. O primeiro grande problema, é a escolha da protagonista Malu. Isso não é um problema somente dessa narrativa, outras como, Orphan Black, fazem o enredo girar em torno de uma das mulheres ditas protagonistas (afinal o conflito principal começa com elas), só que na maioria dos casos, elas e seus conflitos se tornam chatos e superficiais. No caso de Malu ela ganha na comicidade, mas perde quando tentam forçadamente encaixar ela com a típica protagonista de comédias românticas, que é atrapalhada, mas inteligente, e vive dilemas amorosos com o galã (ou pior, mas não fica claro, criar aquela dúvida de ter que escolher entre dois caras).

Outro ponto sobre isso é o questionamento do por quê ela ser a escolhida para guiar a história, se seu arco é menos interessantes se pensarmos em Brasil. Mesmo com a cena instigante do embate entre Malu e Adélia, quando a primeira quer desistir do empreendimento, e em que se discute justamente questões como, lugar de fala, meritocracia, privilégios, Adélia (mas também as outras duas) não têm seu arco valorizado para além de cenas rápidas como essa. Tanto que, depois desse momento, que ocorre no início da série, não voltam a problematizar essa relação, pois, seguindo a lógica da narrativa, Malu parece se dar conta dos seus privilégios e tudo se resolve de maneira muito ingênua, sem mais embates nesse sentido. Adélia, uma mulher negra, solteira que trabalha como empregada, mas que é muito forte -a ponto de ficar em dúvida se casa com Capitão (Ícaro Silva) ou não-  também perde força, quando sua trama se volta quase que exclusivamente para quem é o pai da sua filha, e de novo esse conflito entre escolher entre dois homens é empregado.

 

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No fundo tudo se resume a essa correria narrativa, sentida na montagem (cortes bruscos) e no ritmo estranho, que concretiza um final apressado, e soluções pouco convincentes para os problemas que eram interessantes de acompanhar, como a questão do pai da filha de Conceição, ou a relação entre Thereza e Helô (Thaila Ayala). O equívoco poderia ser resolvido talvez com mais episódios, ou menos cenas de transição (cenas figurativas que não acrescentam nada à narrativa). A série propõe desenvolvimentos interessantes, mas tira o peso de algumas situações e problemas, como exemplo, todo drama de Lígia, que no começo sentimos seu sofrimento num casamento abusivo e o medo de sair dele, por conta do amor e por pressões da sociedade, mas todo esse impasse é resolvido e superado dentro de quase um episódio (até a discussão sobre aborto quase passa despercebido).

Além disso, a série ainda sofre com alguns vícios novelescos, como o excesso de falas explicativas, e não é por uma questão de atuação. A verborragia excessiva  torna o diálogo sem graça e óbvio, tirando a imersão do público, que mal tem tempo de pensar e já ganha respostas prontas. Outra questão é a marcação de núcleos com a trilha sonora. Se a cena está na praia, ou na classe média toca Bossa Nova, mas no morro, por exemplo, começa a tocar um samba. Sintoma de de pouca criatividade e reforço de estereótipos, mesmo que seja com a intenção de ambientar. A música fundo das cenas de romance, por exemplo, acabam chamando mais atenção por conta da repetição demasiada que cansa o espectador. Por isso, pode se dizer que Coisa Mais Linda é audiovisualização de uma Bossa Nova, só que essa com mulheres protagonistas.

 

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

Terror em Série – O horror na era pós Trump

Após seis temporadas lidando com temas ligados ao oculto e buscando metáforas entre o sobrenatural e os conflitos da convivência humana, o seriado criado por Ryan Murphy mergulha numa esfera mais realista e decide explorar o horror em sua mais pura forma, o horror da realidade. Nesta penúltima edição do nosso especial American Horror Story, chegamos na season do terror após a eleição de Donald Trump, chegamos em Cult.

A temporada começa estabelecendo quem são as personagens, mostrando um cenário polarizado, reflexo do período das eleições nos Estados Unidos. O primeiro episódio já começa revelando um clima de tensão e coloca em destaque ignorância x conhecimento, demonstrando o ódio daqueles que acreditam que estão perdendo muito ao ter que dividirem seus privilégios.

 

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Vemos na temporada essa dualidade o tempo inteiro. A protagonista, Ally (Sarah Paulson), tem estudo formal, tem consciência política, mas é mulher e lésbica, alguém que lutou muito por suas conquistas e que, por sua batalha e de outras pessoas, tem uma vida confortável, um casamento com outra mulher e um filho adotado. Devido ao seu passado, apesar de ter conforto financeiro e estabilidade, possui diversas fobias.

Já seu antagonista, é um homem branco, que, em sua primeira cena, comemora a eleição de Trump cheio de salgadinho laranja nas mãos, mostrando esse homem que procura culpar o outro pela sua falta de sucesso, como ele mesmo não pudesse ser responsabilizado pelos problemas que causou a si mesmo. A construção dessa dualidade é bem realizada e estabelecida no começo da série, contextualizando bem o enredo e os possíveis encaminhamentos.

 

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Murphy também sabe que o público, depois de sete temporadas, já está treinado e consciente de sua linguagem. Logo, ele tenta jogar com os códigos já entendidos por seus fãs. Os enquadramentos mais fechados nas cenas de Ally, traduzem esse sufocamento da personagem, mas também, deixa o espectador mais confuso sobre a sanidade de sua protagonista. Todos as conspirações, elementos sobrenaturais, coisas estranhas que sempre foram realidade na série, podem nessa temporada ser somente ilusão e a linguagem reforça essa impressão.

A primeira metade da temporada sabe conectar suas personagens, sabe segurar a tensão dos acontecimentos e une trama e visual numa viagem sobre o horror cotidiano, sobre o perigo iminente que são as pessoas ao redor, as pessoas de bem. O Culto, termina sendo o menos forte de certa maneira, porque suas cenas são desnecessariamente alegóricas e quando começamos a ver coisas demais, perde-se a metáfora do inimigo invisível, do olhar ao redor e se perguntar: “será que a aquele cara na outra rua votou em Trump? E se votou, do que ele é capaz?

 

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Por isso, a segunda parte da série se perde um pouco, ainda que mantenha certa qualidade, porque ao invés de se manter criticando um aglomerado de pessoas ególatras, capazes de fazerem mal para toda humanidade para manter o que as fazem felizes, sem pensar nas consequências, a série parte para se focar na vilania de Kai e relativizando todos os erros das outras personagens, tão sedenta por reviravoltas que termina quebrando um pouco o pacto com o espectador, quando o tempo inteiro o confunde com as intenções de suas personagens.

O maior louro de Cult é traduzir em imagens o que está na mente de cada eleitor de Hilary, de cada minoria social que vê a onda conservadora vindo como um tsunami desesperado para apaga-los da humanidade e também a mensagem final de que, quem sofre a vida inteira sem privilégios tem uma única vantagem, a vantagem de saber lutar, de saber esperar calmamente o contra- ataque, deixando uma mensagem de esperança para seu público.

 

 

**Hilda Lopes Pontes é cineasta e crítica cinematográfica. Formada em Direção Teatral e Mestre em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia, hoje, ela é sócia-fundadora da Olho de Vidro Produções, empresa baiana de audiovisual.

BR em Série: Nem 8 nem 80, distopia brasileira “3%” apresenta inovações, mas mantém velhas problemáticas

A série 3%, desde seu lançamento em 2016, dividiu opiniões e proporcionou debates a respeito das produções nacionais. O seriado já caminha para sua terceira temporada, em 2019, tendo sido a série de língua não-inglesa mais assistida dos EUA, além de ser uma das séries brasileiras da Netflix de maior sucesso. É impossível não se questionar o que proporciona esse efeito se, por outro lado, tantas foram as críticas desfavoráveis por grande parte do público e da crítica brasileira. Uma conclusão mais ingênua levaria a velha falácia, “falem mal, mas falem de mim”, isto é, todo o burburinho em torno da série teria influenciado na sua visibilidade. Essa afirmação não é de todo falsa, porém, esse não é único responsável. Dois pontos podem ser considerados importantes para pensar essa recepção: primeiro, trata-se de uma trama que mistura gêneros clássicos e populares, um mundo ficcional distópico carregado de ação, aventura e suspense; e segundo, a exigência por narrativas mais coesas e coerentes.

O enredo é típico das histórias sobre mundos ou futuros ficcionais edificados sob uma organização política-social que representa a antítese da utopia ou uma “utopia negativa”, a chamada distopia. Esse tipo de enredo não é novo, ficou famoso principalmente na literatura com George Orwell e Aldous Huxley, e no meio audiovisual se consagrou e persiste até hoje. Muitos compararam, inclusive, 3% à saga Jogos Vorazes, que também retrata uma distopia política e social e que obteve muito sucesso de público. Contudo, no seriado temos marcas de uma distopia contextual, no caso, bem brasileira. Mesmo se passando num universo fantasioso, a trama encara vestígios do Brasil real e atual. Nesse universo, os habitantes do lugar chamado Continente, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo cruel em que apenas três por cento deles são aprovados e aceitos para irem ao outro lado (Maralto), bom e perfeito. Criada pelo jovem Pedro Aguilera – que pensou a trama em 2011 e colocou três episódios no youtube com esperança que comprassem sua ideia – e dirigida na sua primeira temporada por Daina Giannecchini e o fotógrafo César Charlone (Cidade de Deus), a série em princípio carrega um caráter ensaístico, mas vai ganhando contornos e profundidade à medida que avança, por outro lado, desmonta nos detalhes e em aspectos básicos do roteiro, como diálogos e construção de personagens.

 

Crítica política com metáforas comuns 

O ponto chave da série é trazer os aspectos do gênero ficção, futurismo, e distopia para o Brasil, tanto narrativamente quanto na produção. A Rede Globo ensaiou algumas outras séries nesse sentido, mas sem dúvida a Netflix conseguiu produzir uma das maiores histórias de ficção científica seriada brasileira até agora. Nesse sentido, é injusto criticar o enredo como um todo. Finalmente temos um fim de mundo brasileiro, subtramas de infiltrados, conspiração, anarquia, num lugar fictício, mas notadamente uma metáfora do país. Mesmo que não esteja explícito na série, fica claro que a história se passa num lugar como Brasil. O plot principal, “O Processo”, é quase uma alegoria do vestibular e todo discurso sobre meritocracia e desigualdade social.

 

 

O que muitos chamam de “clichê”, são artifícios típicos do gênero, ou recriações de outras produções – que podem, inclusive, funcionar inclusive como referências (como é o caso da série Strange Things). Porém, não se pode atribuir todas as críticas a chamada “síndrome de vira-lata”, que vê os produtos nacionais com pessimismo e como inferiores.  Essa “síndrome” ainda é muito forte e real, mas a Netflix vem quebrando essa regra produzindo séries em diversos países e muitas com alta qualidade. Por outro lado, as narrativas muitas vezes acabam se enquadrando num padrão trivial e globalizado, influenciado bastante pela plataforma, que é o caso de 3%. O enredo simples e convencional, e muitas vezes redundante, acaba funcionando como uma crítica superficial, mas não deixa de ser atrativo, ainda mais porque foi lançado no momento da polarização política que tem consequências até hoje. Do meio para o final das temporadas, começa a se rechear a trama com ação e suspense, o que eleva a narrativa a um bom entretenimento para quem gosta do gênero. Claro, fica difícil ver isso, quando se compara outras narrativas desse tipo. Poderia ser feito algo mais filosófico, estilo Black Mirror, por exemplo, mas, perderia, talvez, essa carga simplória e melodramática.

Quanto aos termos mais técnicos, para uma produção com pouco dinheiro, consegue-se criar uma atmosfera de ficção científica, principalmente com a montagem e fotografia. O figurino e o cenário do Continente (lado pobre), muitas vezes é forçado para apresentar essa desordem e caos, mas por outro lado, vê-se que há um cuidado com os detalhes. Já no Maralto, acontece o contrário, poucos detalhes e uma representação muito lugar-comum desse “paraíso”. Porém, este poderá ser mais desenvolvido na terceira temporada.

 

Complexidade e Profundidade: Conceitos menosprezados

A principal crítica é sem dúvida ao roteiro. É muito comum ver séries, novelas e minisséries brasileiras muito interessantes de conteúdo, produção e elenco, porém, sempre parece que se dá pouca atenção ao roteiro, principalmente na profundidade dos personagens e diálogos. Problemas no roteiro também geram a sensação de excesso, com muita coisa desnecessária e inútil, que acaba por cansar o público. Da mesma forma parece que tentam preencher “buracos” ou criar situações para agradar o público, típico de muitas produções mais comerciais. Por exemplo, colocando um casal que não faz sentido, simples e puramente porque o público gosta (ou porque acha que o público gosta). É comum esse tipo de estratégia em produções do melodrama, pois o objetivo é emocionar, com um sentimentalismo exagerado, mas aqui se torna trivial, até para o provável público alvo, os adolescentes.

 

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Os erros de roteiro criam personagens artificiais e estereotipados, sem qualquer indício de sutilezas emocionais ou ambiguidades psicológicas. A dramaturgia é frouxa e há pouca ligação entre fatos, atitudes dos personagens e diálogos. Não se espera um grande enigma ou tese, mas espera-se que as coisas façam sentido. Tudo isso deixa grande parte dos personagens chatos e pouco interessantes, como o caso do personagem Fernando (Michel Gomes) que tem um enredo inicial interessante, mas acaba se tornando o mero par romântico, o herói apaixonado.

Não se trata de atuação como muitos tentaram justificar, temos atores célebres desde o elenco principal, como o baiano João Miguel e a própria Bianca Comparato. O problema não são os atores e atrizes, são os personagens e os diálogos. O roteiro tem furos, e os personagens também parece que querem “preencher buraco”, deixando as ações rasas e muitas vezes previsíveis. Em outros momentos, os personagens agem de forma aleatória, como por exemplo, o “vai e volta” da personagem Michele (Bianca). Os diálogos são supérfluos, curtos e sem carga. A melhor personagem com pouco tempo de aparição é Zezé Mota (inclusive um personagem que precisa ser mais explorado). Os antagonistas são sempre muito maniqueístas, quando tentam dar um lado humano a eles, construir um arco a partir de suas relações e histórias de vida (como com Ezequiel e sua mulher Julia), se perdem, e na segunda temporada isso volta se repetir com a personagem Marcela (Laila Garin).

O problema com atuação pode ser atribuído mesmo, a figuração e aos atores secundários (problema de muitas produções brasileiras), que parecem ser pouco preparados e, por isso, agem de forma caricata e exagerada. Não se trata de dar explicações para tudo, você até aceita o mundo que eles criam (mesmo sem necessidade de falar como aconteceu para virar esse cenário distópico), mas por conta do roteiro fraco, não cria laços afetivos com os personagens.

 

Amadurecimento e alegorias

 

 

Em compensação, a partir do meio da temporada, a série ganha maior ritmo de suspense e ação, com micro-tramas interessantes, como a relação com os infiltrados. Aliás, toda a trama da Causa, movimento que propõe a derrubada do modo tradicional, que ganha força na temporada, é bem desenvolvida, mesmo que personagens como Michele e Fernando ainda estejam perdidos.

A crítica metafórica ao Brasil também se fortalece. Com o foco no Continente, vemos surgir pautas como a violência e sujeição  policial, e a atuação de milícias (sim, com esse mesmo nome), debates sobre corrupção e desigualdade se aprofundam, e debate as formas de resistência e revolução com um viés mais filosófico. Tratam também de religiosidade, ainda que superficial para falar de alienação, e do carnaval (com uma cena com música e performance da cantora Liniker), com intuito de tratar da ideia de pão e circo. Apesar disso, ainda se percebe que muita coisa do roteiro é pensado para conectar o público a realidade brasileira, mas, por exemplo, na cena do que se configura como um carnaval, apesar de belíssima, não faz diferença nenhuma para a trama como um todo, se configurando quase como um videoclipe.

Dentro da Causa, os personagens vão ganhando mais contorno, aliados a pensamentos de ideologia que questionam a lógica revolucionária, como por exemplo como ministrar a sociedade após a quebra do sistema, e o debate sobre individualismo e egocentrismo, representado por alguns integrantes que são impulsionados muito mais por motivos particulares que por uma teoria revolucionária.

A terceira temporada estreia ainda esse ano. Segundo informações da produção, esta irá focar no Concha, um terceiro lugar, representando a esperança.  A questão que fica é, se tivéssemos o poder para recomeçar, fazer algo novo, conseguiríamos fazer diferente? É esperar para ver! Abaixo o link da primeira e da terceira temporada.

 

 

**Vilma Martins é jornalista, cineasta, produtora, pesquisadora e mestranda em Comunicação, pela Universidade Federal da Bahia.

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