Br em série: Guerras do Brasil.doc, revisionando nossa história, questionando nosso presente e pensando nosso futuro

Em tempos de governos que atacam os direitos humanos e, no Brasil, o fortalecimento do descrédito à educação, à filosofia, e à história, eis que surge um seriado documental, conciso, sobre momentos da história do país. No começo de junho, foi lançado na Netflix Guerras do Brasil.doc, do diretor Luiz Bolognesi (Ex- Pajé e Uma História de Amor e Fúria).

Distribuída originalmente pelo Canal Curta!,  traz versões sobre 5 conflitos da história do Brasil: “Guerras da Conquista”, que trata dos confrontos entre portugueses e outros colonizadores com os indígenas brasileiros;  “Guerras dos Palmares” sobre os conflitos com os escravos; “Guerra do Paraguai” desmistificando essa guerra que por muito tempo foi pouco questionada nas escolas e nos programas de comunicação; “Revolução de 30” sobre o período que o Getúlio Vargas esteve no poder; e finalmente o último episódio , “Universidade do Crime”, com tema atual, que fala sobre a criação das facções criminosas a partir das guerras e conflitos penitenciários (como por exemplo, o PCC e massacre de Carandiru).

O caminho é aparentemente cronológico, mas os episódios são independentes entre si e podem ser assistidos fora de ordem, de acordo com interesse pelo tema. Todos tensionam esses pontos históricos, trazendo questionamentos  para a história oficial e a situação atual, como por exemplo a questão das terras indígenas e conflitos de terra, que a toda hora (e mais ainda no atual governo) são debatidas.

 

 

O documentário é construído sem narração (sem a “voz de deus”*), segue através de depoimentos de historiadores, ativistas, professores e pesquisadores, aliados ao uso de intertítulos com dados, que compõem um painel sobre cada uma dessas guerras, possibilitando refletir sobre suas raízes e consequências até os dias atuais e pensar para onde estamos seguindo.

Todos trazem observações instigantes, uso expressivo de imagens com sons e músicas e imagens de arquivo, deixando a narrativa menos engessada e dando luzes à reflexões para buscarmos entender como nós, ditos Brasileiros, chegamos até aqui do jeito que somos, quebrando os velhos estereótipos e revisionando certos elementos da história que nos é ensinada.

Para estudar a história de um país, deveria-se atravessar todos seus momentos, incluindo suas páginas mais sangrentas e lamentáveis – e o Brasil, infelizmente, é pleno de confrontos trágicos desde sua fundação até hoje. É essa parte da história brasileira que a série conta: os fatos, as versões, as revelações e curiosidades sobre os principais conflitos armados da história do Brasil.

 

Brasil de guerras, opressões e resistências

 

 

“Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares e o tempo todo”, essa frase do historiador e filósofo indígena Ailton Krenak no primeiro episódio da série e que justifica a afirmação acima. Ele também alega que a “relação” dos europeus com os indígenas não foi pacífica, como hoje muitos ainda pensam, que praticamente exterminou povos e que esse conflito existe até então (e ele ainda acredita que não vai acabar tão cedo).

Durante os episódios vemos o questionamento e a negação de muitas famílias brasileiras, como por exemplo, o fato da “invenção” do Brasil (alguém ainda fala em descobrimento?) ter sido na verdade uma invasão, ou a ironia com o nome do aeroporto de Maceió ser Zumbi dos Palmares e lá ser um dos estados onde mais se matam jovens negros.

 

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No último episódio temos reflexões sobre o sistema prisional brasileiro, a ineficiência da guerra às drogas e a corrupção policial, temas que conversam com outra obra (lançada também na Netflix e no mesmo período), a minissérie americana Olhos que Condenam, da diretora Ava DuVernay. O Brasil tem a terceira maior  população carcerária do mundo. Em 2017, assistimos pelos jornais o massacre e rebeliões dos presos de Alcaçuz, um dos mais brutais e sangrentos episódios da história do sistema prisional. Dois anos depois, parece que nada mudou, mas as marcas seguem reverberando.

A história do que chamamos Brasil (pós-colonização) é uma sangrenta e contínua história de conflitos e violência, de opressão e resistência. Nada de indígenas preguiçosos e “africanos fáceis de serem escravizados”, o que a série faz é mostrar que o Brasil (ou os portugueses e europeus) não são pacíficos como normalmente se constrói. Esse “fio da meada” bate de frente com os “ideais” expostos hoje, como a campanha de armamento. Re-pensar essas questões pode ajudar a buscar construir um futuro mais justo, com menos confrontos, menos guerras.

 

Educacional e político

 

 

O Brasil tem tido boa repercussão de filmes documentários, muitos falam do nosso passado, nossa história, e muitos da nossa política recente, como o Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes e o Democracia em Vertigem, de Petra Costa, poderia citar vários outros títulos. Porém, no ramo das narrativas seriadas ainda não  há um mercado tão consolidado.

Guerras do Brasil.doc não inova em sua narrativa ou estética, não problematiza tão fortemente suas questões como outras obras, e tem um tom meio didático e educacional, então, para muitos não deve acrescentar muita coisa. Porém, mantém um posicionamento firme.

Por exemplo, na fala do historiador Marcelo D’Salete, que afirma que “devemos tratar os  territórios (quilombolas e comunidades indígenas) com dignidade e respeito, proporcionando direitos que eles precisam para continuar existindo”. Ou quando coloca uma jovem mulher negra ativista para recitar sua poesia/ rap sobre a situação do população negra no final do segundo episódio.

 

 

 

No fim, a série se faz informativa, educativa e dinâmica. Em tempos de algoritmos que nos sufocam de produções pouco memoráveis, se permitir dar play em obras como essas é, além de um respiro, relevante.

Guerras do Brasil.doc ressaltam, cada uma à sua maneira, a importância da memória e da compreensão de estruturas sociais e arranjos de poder para enxergarmos e entendermos os conflitos da contemporaneidade tal como eles são.

*“voz de Deus” como é comumente chamada o narrador ou locutor que não é visto em cena e também não é personagem

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