Crítica: Violência e polêmica são tentativas da primeira temporada de The Boys

por Enoe Lopes Pontes

 

Adaptada da HQ homônima da Wildstorm*, The Boys chega no canal streaming Amazon Prime, com oito episódios. Num clima que mescla sátira e crítica ao espírito heroico tipicamente visto em produtos ficcionais e no imaginário estadunidense, a série possui um estilo claro e marcante desde o seu início. A utilização de temperaturas azuladas é o start para esta percepção da ambientação que já vem desde os quadrinhos e que é um pouco intensificada. A escolha pode criar no espectador a sensação de estar assistindo uma das adaptações da DC para o cinema, por exemplo. Existe algo lúgubre e taciturno no ar. Além disso, o tom remete a melancolia e a angústia retratadas na tela. Um exemplo disso é que a cor do super mais abalado emocionalmente é azul.

Neste universo, no qual o tempo inteiro os humanos acreditam que estão sendo salvos, quem tem poderes está constantemente perturbado e agindo de forma negativa, seja para sociedade ou para si mesmo. A lógica aqui é que os supostos protetores da Terra são os verdadeiros vilões. O ponto alto da qualidade do enredo é que, ainda que haja essa reversão de valores, não ocorre a planificação de suas personalidades. É possível notar as nuances em seus caracteres, a medida em que a trama avança.

 

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No entanto, apesar de uma premissa que chama atenção, The Boys é um tanto cansativa, porque possui uma história óbvia. Cena após cena, já é possível saber o que irá ocorrer, inclusive o final da temporada fica previsível em sua metade. A criação das tensões são perdidas pelas escolhas fáceis que Eric Kripke (Supernatural) e sua equipe de roteiristas fizeram. Mesmo partindo de uma outra perspectiva, a dos “supers” que não estão trabalhando para o planeta de verdade e sim são celebridades, todo o resto é semelhante a qualquer publicação com heróis, incluindo a figura do “mocinho”, Hughie (Jack Quai), sem poderes e injustiçado, buscando uma espécie de vingança.

Apesar deste fator, o como as situações acontecem é o que chama atenção. Existe certa coragem em possuir algumas sequências gráficas de violência e ação, que são o recheio principal deles. É este elemento que dá o tom certeiro do seriado: pinceladas de humor sombrio, desenvolvimento dramático** das personas retratadas e um leve dose de horror com a ação. A expectativa que falta no decorrer dos fatos é coberto pelo nervoso em saber como será o próximo cérebro esmagado, a morte seguinte ou algum tipo explosão.

 

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No geral, o resultado é aceitável e até equilibrado. O plot inicial se sustenta, ainda que seja seguido de caminhos previsíveis, o risco no “como” faz o tempo gasto valer. Um possível destaque é a atuação de Erin Moriaty (Jessica Jones), que construiu a jovem heroína com várias camadas, indo de expressões de ingenuidade até de crueldade e falta de empatia, ela consegue elevar os elementos da escrita e imprimir nos seus diálogos a sutileza e o peso necessários para sua Annie.

 

 

* Em seguida, as HQs passaram a ser publicadas pela Dynamite Entertainment.

** Drama mais no sentido mais próximo do trágico, de situações triste e não do significado atribuído pelas Artes Cênicas ao falar dos gêneros textuais (Épico, lírico e dramático).

Terror em Série: O Escolhido – Homem de Fé, Mulher com a Razão

O cinema brasileiro de terror vem crescendo cada vez mais e nomes como Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Juliana Rojas, trazem uma diversidade e características próprias a esses filmes. Produtos de gênero têm cada vez mais espaço e há um crescimento de produção e distribuição.

O público nacional é um dos públicos que mais consome terror no mundo. Mas, ainda existe certo preconceito de muitos espectadores para assistir produtos que lidam com o fantástico e O escolhido traz características que podem ajudar a reforçar essa crença de falta de qualidade nos filmes e séries de gênero brasileiros.

 

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A nova série da Netflix traz uma premissa interessante: médicos tentam extinguir o vírus zika do Pantanal, porém, no caminho, acabam achando uma estranha cidade onde ninguém fica doente, ninguém morre. Parece um bom argumento para ser vendido num pitching, por exemplo. Uma história que quando alguém conta tem sim certo impacto. Narrativamente, fora essa boa ideia, pouco caminha positivamente.

A questão principal de O escolhido são os diálogos. Textos engessados, ditos de maneira robótica, dificilmente conseguirão criar uma conexão com o espectador. Cenas inteiras para explicar acontecimentos, como funciona a cura feita pelo Escolhido. A maneira como a progressão dos fatos acontecem são dispensáveis, isso porque muito do mistério é desnecessário já que de pronto se entende o que está acontecendo na história. O fruto dessa tentativa de criar certo suspense são momentos em que o roteiro busca confundir o espectador, colocar obstáculos para ele demorar de chegar em alguma conclusão.

 

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Então, a série termina sendo um amontoado de explicações que são sempre revogadas ou colocadas em dúvida, mais atuações que despertam pouca crença na mitologia da série. Além disso, as personagens são mal desenvolvidas, o arco dramático de cada uma delas não consegue nem provocar empatia do espectador, nem deixar claro como as mesmas pensam e/ou se sentem em relação aos acontecimentos. Os habitantes da cidade dizem somente coisas clichês, frases de efeito. Os médicos, um pouco mais elaborados, tomam atitudes que movem pouco a trama para frente e são bastante previsíveis. Já o escolhido, é o rei das frases de efeito e diz suas falas de maneira empolada, cheio de gestos, mas, não imprime nuances em sua interpretação.

O seriado é bem filmado e tem seus bons momentos visuais. A escolha de enquadramentos consegue traduzir bem o olhar da protagonista, Dra. Lúcia, e a câmera escolhe bem o que mostrar durante as cenas onde o espectador entende aquele universo da mesma maneira que a médica. Talvez se a série focasse menos em diálogos e mostrasse mais momentos de percepção do fanatismo sem muitas explicações, deixando espaço para o público elucubrar, teríamos uma obra de mais qualidade. O fim da temporada deixa um cliffhanger interessante, se houver mais episódios a expectativa é de uma melhora, até porque há verdadeiro potencial para se explorar.

 

Crítica: Terceira parte de La Casa de Papel é morna e um grande déjà vu

por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de um hiato de quase dois anos, chega ao catálogo da Netflix a terceira parte de La Casa de Papel. Logo no início, é possível notar como o valor de produção cresceu. A percepção pôde ser confirmada pelo criador da série, Álex Pina (Vis a Vis), afirmou, em entrevista para o G1, que não havia limites de gastos por episódio. Assim, o espectador pode encontrar uma roupagem mais sofisticada imageticamente. Mais ângulos, mais locações, efeitos, quantidade de atores, figurantes e equipe técnica envolvida na obra etc.

Nesta parte, é inegável afirmar o avanço do seriado, em comparação com sua temporada anterior. Nos oitos novos episódios, com a maior fatia dirigida por Jésus Colmar (Vis a Vis), a câmera revela um clima de mais tensão e ação, com explosões intensas, revolta de uma multidão e perseguição de carro, que inclui capturas áreas da imagem. No entanto, apesar deste crescimento técnico, La Casa de Papel continua pecando em alguns mesmos aspectos vistos em 2017 e em questões outras.

 

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Primeiramente, existe um incomodo que são as repetições narrativas em relação ao assalto anterior. Situações  semelhantes são postas, apenas com mudanças de local e detalhes. A personagem Palermo (Rodrigo de la Serna), por exemplo, entra como um substituto de Berlín (Pedro Alonso), sendo o machista asqueroso e com textos que poderiam ter sido facilmente ditos pela personagem de Alonso. Este é apenas um caso de tantos outros que ocorrem. As cenas de cantoria, as discussões, os conflitos entre as figuras centrais da trama, tudo remete ao roubo da Casa da Moeda.

A sensação é de que os produtores queriam repetir seu sucesso e criar momentos memoráveis o tempo inteiro e isto faz com que o ritmo não se equilibre. As cenas de ação e os plots twists acabam tendo seus impactos reduzidos pela certeza dos próximos acontecimentos mostrados na tela, já que o público viu as mesmas estratégias, os mesmos problemas e resoluções anteriormente. Mas, existe o ponto alto deste fator e não siga para os próximo parágrafos se ainda não assistiu a terceira parte do enredo.

 

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Em um dado momento, nota-se que o Professor (Álvaro Morte) finalmente tem um ponto fraco e que ele é a sua namorada, Raquel Murillo/Lisboa (Itziar Ituño). Numa sequência que busca ser tensa, por seus cortes e música incidental, fica subentendido que a ex-inspetora Murillo foi executada. Quando o fato parece ter ocorrido, fica a reflexão de que o seriado parece tentar discutir a misoginia e trazer todo um discurso progressista, mas coloca a figura feminina mais forte da narrativa inteira para ser apenas o interesse amoroso do protagonista e eliminá-la seria o elemento que o deixaria mais forte e poderoso.

Como se não bastasse esta visão antiquada, fica-se sabido, minutos depois, que Lisboa não faleceu, está viva, no caminhão da polícia. Ou seja, além dela ser a isca para o homem que assume o comando de tudo, dela ter sido fraca e de pouca inteligência para escapar com suas escolhas, a obra não tem coragem de eliminar a personagem, tomando um caminho óbvio e sem graça, porque em todo o percurso que fez, jamais retirou personas mais importantes, sempre as deixando em grandes cliffhangers, para depois salvá-las.

 

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No final das contas, é perceptível que a discussão feminista é rasa, apenas de enfeite para demonstrar uma imagem positiva, mas que mantém o patriarcado incrustado completamente nos diálogos e ações, deixando as mulheres como mais fracas (Tóquio bêbada porque foi deixada por Rio; Nairóbi com um tiro porque seu instinto maternal foi mais forte do que ela e Raquel na prisão por estar apaixonada). Os rapazes ficam, assim, no comando de toda situação e retém todo poder. Não à toa, todos os episódios são comandados por diretores masculinos e os roteiristas são quase todos…? Homens.

No resultado geral, La Casa de Papel entrega um resultado mediano, nada além da já esperada estrutura feita para criar frases de efeito para internet, memes e posts que podem virar textão,  mas vazio por dentro. As personagens não ganham complexidades e a terceira parte é uma cópia das anteriores, criando tédio durante sua exibição.

 

Comédia em Série: Barry: E se Breaking Bad fosse engraçada?

Barry é uma série da HBO, lançada em 2018, com a sua terceira temporada confirmada para 2020. A produção acompanha Barry Berkman (Bill Hader), um ex-militar que foi à guerra do Afeganistão e, após voltar aos Estados Unidos, é recebido por um amigo de seu pai, Monroe Fuches (Stephen Root), um oportunista que acaba transformando o protagonista em um assassino de aluguel. Fuches é quem arranja as contratações dele, cuja única condição é que mate apenas pessoas ruins. (mais…)

Br em série: Guerras do Brasil.doc, revisionando nossa história, questionando nosso presente e pensando nosso futuro

Em tempos de governos que atacam os direitos humanos e, no Brasil, o fortalecimento do descrédito à educação, à filosofia, e à história, eis que surge um seriado documental, conciso, sobre momentos da história do país. No começo de junho, foi lançado na Netflix Guerras do Brasil.doc, do diretor Luiz Bolognesi (Ex- Pajé e Uma História de Amor e Fúria).

Distribuída originalmente pelo Canal Curta!,  traz versões sobre 5 conflitos da história do Brasil: “Guerras da Conquista”, que trata dos confrontos entre portugueses e outros colonizadores com os indígenas brasileiros;  “Guerras dos Palmares” sobre os conflitos com os escravos; “Guerra do Paraguai” desmistificando essa guerra que por muito tempo foi pouco questionada nas escolas e nos programas de comunicação; “Revolução de 30” sobre o período que o Getúlio Vargas esteve no poder; e finalmente o último episódio , “Universidade do Crime”, com tema atual, que fala sobre a criação das facções criminosas a partir das guerras e conflitos penitenciários (como por exemplo, o PCC e massacre de Carandiru).

O caminho é aparentemente cronológico, mas os episódios são independentes entre si e podem ser assistidos fora de ordem, de acordo com interesse pelo tema. Todos tensionam esses pontos históricos, trazendo questionamentos  para a história oficial e a situação atual, como por exemplo a questão das terras indígenas e conflitos de terra, que a toda hora (e mais ainda no atual governo) são debatidas.

 

 

O documentário é construído sem narração (sem a “voz de deus”*), segue através de depoimentos de historiadores, ativistas, professores e pesquisadores, aliados ao uso de intertítulos com dados, que compõem um painel sobre cada uma dessas guerras, possibilitando refletir sobre suas raízes e consequências até os dias atuais e pensar para onde estamos seguindo.

Todos trazem observações instigantes, uso expressivo de imagens com sons e músicas e imagens de arquivo, deixando a narrativa menos engessada e dando luzes à reflexões para buscarmos entender como nós, ditos Brasileiros, chegamos até aqui do jeito que somos, quebrando os velhos estereótipos e revisionando certos elementos da história que nos é ensinada.

Para estudar a história de um país, deveria-se atravessar todos seus momentos, incluindo suas páginas mais sangrentas e lamentáveis – e o Brasil, infelizmente, é pleno de confrontos trágicos desde sua fundação até hoje. É essa parte da história brasileira que a série conta: os fatos, as versões, as revelações e curiosidades sobre os principais conflitos armados da história do Brasil.

 

Brasil de guerras, opressões e resistências

 

 

“Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares e o tempo todo”, essa frase do historiador e filósofo indígena Ailton Krenak no primeiro episódio da série e que justifica a afirmação acima. Ele também alega que a “relação” dos europeus com os indígenas não foi pacífica, como hoje muitos ainda pensam, que praticamente exterminou povos e que esse conflito existe até então (e ele ainda acredita que não vai acabar tão cedo).

Durante os episódios vemos o questionamento e a negação de muitas famílias brasileiras, como por exemplo, o fato da “invenção” do Brasil (alguém ainda fala em descobrimento?) ter sido na verdade uma invasão, ou a ironia com o nome do aeroporto de Maceió ser Zumbi dos Palmares e lá ser um dos estados onde mais se matam jovens negros.

 

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No último episódio temos reflexões sobre o sistema prisional brasileiro, a ineficiência da guerra às drogas e a corrupção policial, temas que conversam com outra obra (lançada também na Netflix e no mesmo período), a minissérie americana Olhos que Condenam, da diretora Ava DuVernay. O Brasil tem a terceira maior  população carcerária do mundo. Em 2017, assistimos pelos jornais o massacre e rebeliões dos presos de Alcaçuz, um dos mais brutais e sangrentos episódios da história do sistema prisional. Dois anos depois, parece que nada mudou, mas as marcas seguem reverberando.

A história do que chamamos Brasil (pós-colonização) é uma sangrenta e contínua história de conflitos e violência, de opressão e resistência. Nada de indígenas preguiçosos e “africanos fáceis de serem escravizados”, o que a série faz é mostrar que o Brasil (ou os portugueses e europeus) não são pacíficos como normalmente se constrói. Esse “fio da meada” bate de frente com os “ideais” expostos hoje, como a campanha de armamento. Re-pensar essas questões pode ajudar a buscar construir um futuro mais justo, com menos confrontos, menos guerras.

 

Educacional e político

 

 

O Brasil tem tido boa repercussão de filmes documentários, muitos falam do nosso passado, nossa história, e muitos da nossa política recente, como o Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes e o Democracia em Vertigem, de Petra Costa, poderia citar vários outros títulos. Porém, no ramo das narrativas seriadas ainda não  há um mercado tão consolidado.

Guerras do Brasil.doc não inova em sua narrativa ou estética, não problematiza tão fortemente suas questões como outras obras, e tem um tom meio didático e educacional, então, para muitos não deve acrescentar muita coisa. Porém, mantém um posicionamento firme.

Por exemplo, na fala do historiador Marcelo D’Salete, que afirma que “devemos tratar os  territórios (quilombolas e comunidades indígenas) com dignidade e respeito, proporcionando direitos que eles precisam para continuar existindo”. Ou quando coloca uma jovem mulher negra ativista para recitar sua poesia/ rap sobre a situação do população negra no final do segundo episódio.

 

 

 

No fim, a série se faz informativa, educativa e dinâmica. Em tempos de algoritmos que nos sufocam de produções pouco memoráveis, se permitir dar play em obras como essas é, além de um respiro, relevante.

Guerras do Brasil.doc ressaltam, cada uma à sua maneira, a importância da memória e da compreensão de estruturas sociais e arranjos de poder para enxergarmos e entendermos os conflitos da contemporaneidade tal como eles são.

*“voz de Deus” como é comumente chamada o narrador ou locutor que não é visto em cena e também não é personagem

Críticas: Segunda Temporada de “Dark” é mais sólida e intensa

 

Por Enoe Lopes Pontes

 

Depois de uma espera de quase dois anos, a Netflix disponibilizou a segunda temporada da série Dark. Realizada na Alemanha, a produção chega neste novo ano com mais fôlego, um enredo menos óbvio do que a da sua antecessora e com mais fios para compor a sua teia de Ariadne. Após o cliffhanger do 1×10, o público descobre um pouco das consequências das ações de Jonas (Louis Hofmann) no “passado”, “presente” e no “futuro”. Com isto posto, o jovem precisa compreender quais os melhores passos seguir para evitar uma tragédia que está por vir.

Aqui, um dos maiores ganhos é a forma como o protagonista continua a ser o fio condutor da trama, mas agora deixando que as outras histórias se desenvolvam com mais profundidade e sob outras óticas além da sua. Não apenas as viagens no tempo, mas as decisões e suas consequências são postas nas mãos de todos os indivíduos importantes da trama, mas o gancho nunca deixa de ser a personagem principal. Assim, as escolhas de Baran bo Odar (Crimes na Madrugada), e dos outros roteiristas que assinam com ele, traz um equilíbrio e maiores surpresas para o desenvolver dos atos postos em cada sequência.

 

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O jogo de cores no figurino – criado por uma equipe de mais de dez pessoas – e o de luz e sombra na fotografia, feita por Nikolaus Summerer (Invasores: Nenhum sistema está salvo), continuam sendo marcas de linguagem selecionadas para ambientar o espectador em que período os fatos narrados estão acontecendo. Contudo,  sem nunca perder os tons neutros, principalmente bege e marrom, que instalam sensações ambíguas que vão de uma ambiente depressivo até um local caseiro, que inspira conforto e segurança.

A complexidade de Dark também está na direção, nos movimentos de câmera que revelam múltiplas visões de um mesmo fato, revelado apenas depois que o público descobre quem está envolvido na situação. Outro recurso bem utilizado é a câmera subjetiva que instaura um clima de tensão e dúvida, até que o narrador seja evidenciado, com uma plano médio ou até um close, criando uma espécie de cumplicidade com a plateia. Nestes instantes, sempre fica estabelecida uma incerteza se um plot twist virá ou não. Além disso, mais uma camada de informação é colocada, podendo instigar quem assiste e amarrando acontecimentos prévios.

 

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No entanto, apesar de conseguir elevar a qualidade em relação ao primeiro ano, os novos episódios pecam em não irem tão além do que já tinha sido mostrado. Apesar dos reforços em contar as trajetórias dos indivíduos mostrados na tela, dos fatos serem esmiuçados e duas revelações serem contadas – uma muito impactante e outra nem tanto – a finale deixa certo gosto de engano. Isto porque o cliffhanger é perigoso para a qualidade do desfecho do seriado – outras ficções já tentaram seguir por este caminho e falharam, ou não – e porque nenhum elemento diferente é posto. As ações prosseguem e as vidas permanecem. Resta apenas descobrir se toda a premissa original irá levar a história para algum lugar.

 

Plano em Série: As texturas de “The Marvelous Mrs. Maisel”

Amy Sherman-Palladino criou séries importantes para a televisão estadunidense e guarda em seu portfólio, por exemplo, a lendária Gilmore Girls, estrelada por Alexis Bledel (Rory Gilmore) e Lauren Graham (Lorelai Gilmore). A roteirista, e também produtora em 2017, dá então início a mais uma de suas obras, a série produzida pela Amazon Prime, The Marvelous Mrs. Maisel, centrada na jovem dona de casa Miriam (Rachel Brosnahan), que reside em Nova York, na década de 1950 e resolve dedicar-se ao stand up comedy (comédia de palco).

A obra de Sherman-Palladino tem vários acertos, a começar por escolher o contexto retrô da cidade mais famosa dos seriados estadunidenses. Se a Nova York contemporânea é inevitavelmente interessante, na década de 1950 contempla situações político-sociais cheias de vigor, sobretudo no que tange as temáticas femininas. Miriam (apelidada de Midge) precisa lidar com suas próprias questões íntimas, seu casamento, filhos e família ao escolher a comédia de stand up como carreira, em um contexto onde mulheres (sobretudo as ricas) geralmente não têm profissão.

 

 

Para criar a atmosfera ideal da comédia de época, os diretores de fotografia M. David Mullen e Eric Moynier adotaram o conceito de realismo romântico, com uma abordagem natural na iluminação, cheia de práticos (janelas, abajures, lâmpadas), assumindo uma certa intensificação que adiciona dramaticidade as cenas. Com a iluminação mais neutra, o design de produção consegue trazer a beleza dos tons pastéis e contrastes de cores sofisticados à personagem principal. As tomadas externas aconteceram em Nova York, Paris e Catskills (as duas últimas apenas na segunda temporada), e foram ambientalmente tratadas com uma luz peculiar para cada uma delas, reforçando as cores vibrantes e luz quente do verão em Catskills, assumindo a temperatura mais aquecida natural que há nas noites parisienses, assim com o inverno azulado da Big Apple.

Em se tratando de equipamento, os fotógrafos escolheram a Panavision para lentes (com uma preferência pela prime 24mm, uma lente grande angular) e a Arri Alexa para o trabalho de câmera principal. Essa dupla permitiu que houvesse praticidade nos movimentos de câmera (há pouco investimento em planos estáticos) e garantiu um acento os espaços geográficos das cenas para garantir a estética de iluminação que contemplasse luz natural.

 

 

 

Duas cenas merecem destaque do ponto de vista da fotografia, realizadas com um Steadycam: a cena de abertura da segunda temporada (S02E01) em um belíssimo plano-sequência e uma cena em flashback sobre a trajetória da vida matrimonial de Midge, com uma câmera que gira em 360 graus e uma montagem graciosa cheia de elipses temporais (S01E04). A premiada The Marvelous Mrs. Maisel é, sem dúvidas, uma série encantadora pela sua temática cheia de poder, em um contexto de interesse do público feminino que cuida de sua forma com um preciosismo impecável.

 

Vídeo de referência:

 

 

 

Trailer:

Terror em Série: American Horror Story – O Apocalipse Chegou

Após sete meses de especial American Horror Story (2011-), chegamos, finalmente, na temporada que deu origem a dedicação de sete meses desta coluna, a oitava season do seriado: Apocalipse. Com altas doses de crossovers, personagens ressuscitando, um crescimento de camadas nas histórias já conhecidas, um aprofundamento na mitologia do produto queridinho de Ryan Murphy; a obra deixou os fãs com muitas expectativas e conseguiu abarcar algumas delas.

A espera principal era o retorno de Cordelia Goode e de todo seu Coven. Elas foram protagonistas da terceira temporada que, apesar de não ser uma das melhores no quesito narrativo, com certeza foi uma das mais potentes no que diz respeito a criação de mitologia. Outro crossover de seasons anteriores era o de Murder House, a primeira história do universo de AHS. No final dela, inclusive, vê-se uma criancinha satânica e, desde então, ficou uma promessa velada de se fechar este arco narrativo, iniciado em 2011.

 

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Apocalipse é a mistura dessas duas temporadas: as mulheres poderosas, bruxas do já consagrado Coven versus o anticristo, o garoto demoníaco que cresceu e agora aparecer para cumprir sua missão na Terra: a de destruir a humanidade. A divulgação do seriado mostrou pouco e talvez tenha gerado nos fãs certa expectativa de já começar vendo no primeiro episódio Cordelia e todas as outras bruxas chegando com tudo.

Mas, não foi o caso. Murphy, como sempre, quebrou as expectativas e as personagens apresentadas no episódio de estreia eram todas novas. Sarah Paulson, por exemplo, interpreta Wilhemina Venable, uma mulher misteriosa e sádica que controla a casa onde alguns poucos afortunados conseguem se refugiar do apocalipse. Este pequeno início já começa dessa maneira, de forma desesperançosa, mostrando o fim do mundo sem dó ou piedade.

 

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O primeiro episódio consegue ser existoso e mantém um ritmo frenético. Mal conhecendo as personagens é difícil se apegar a eles, mas, a total falta de história prévia vem aqui como uma maneira de acrescentar camadas posteriores para a trama e pode prender o público pela curiosidade. Alguns dos atores já conhecidos de outras temporadas como Evan Peters, Leslie Grossman e Billie Lourd aparecem no meio do fim do mundo, desesperados , tentando se salvar.

Diferentemente de alguns outros anos da produção, em Apocalipse os rumos narrativos acontecem de maneira direta e a série não tem medo de arriscar em nenhum momento. (ALERTA DE SPOILER)!!!!! É claro que, com o desfecho da trama, fica muito fácil de entender a falta de receio em ter medidas tão drásticas durante todos os episódios. Contudo, a sensação de que nada dará certo em nenhum momento pode trazer uma emoção a mais, principalmente, para os que já conhecem muitas das escolhas feitas pelos roteiristas da obra.

 

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Um ponto muito importante de se apontar é a maneira  que o seriado mantém a estética de cada temporada, sem perder a uniformidade de cada episódio. Pode-se ter a sensação de estar retornando para cada um dos universos já vividos pelo espectador. A direção de arte, os tipos de enquadramentos, os figurinos, tudo isso se casa perfeitamente com a energia e a proposta de Apocalipse.  A única diferença é que tudo que envolve as bruxas de Conven tem ainda mais movimento de câmera, mais closes, mais neblina e certa palidez e falta de saturação, enquanto tudo que tem com as personagens de Murder House é ainda mais escuro, mais sombrio. Já os cenários originais da oitava temporada, trazem ou um vermelho forte, bem típico de tramas com demônios, ou ambientes aparentemente sem vida, sem cores, neutros de qualquer caracterização que demonstre personalidade.

O mais importante de destacar dessa temporada é a habilidade usar os crossovers amarrando-os bem na trama, sem quase nenhum gratuidade e ainda dando um bom fan service. Apocalipse é eficiente em contar sua história e tem uma trama bem amarrada que possui um desfecho um pouco previsível mas, não desapontante. Como sempre, algumas pontas são, propositadamente, deixadas soltas para esperarmos por algum tempo a volta dessas bruxas tão poderosas e girl power. Aliás, haja empoderamento feminino!!!! Talvez, essa seja a temporada com mais personagens mulheres que são interessantes e saem de suas zonas de conforto para se unirem entre si, cada uma de sua forma, com seu talento. Já fazia algum tempo que sr. Murphy não servia uma season com tantas qualidades. Agora é esperar pela safra 2019. Até lá!

 

Br em Série: Cordel Encantado, a novela que vale a pena ver de novo e de novo

Como falar de produtos seriados brasileiros e não falar de telenovelas? Apesar das mudanças que vêm ocorrendo no consumo televisivo nos últimos anos, e da permanência do preconceito estético em relação à enredos melodramáticos (ou “novelescos”), que supostamente elencam discussões sobre manipulação e alienação, elas ainda estão entre os principais gênero audiovisuais consumidos no Brasil.

Por certo, levando se em conta a longa história e quantidade de novelas produzidas, é compreensível, que assim como as séries, nem todas tenham sucesso, ou sejam produtos minimamente interessantes. O fato de serem exibidas em canais televisivos, ou seja, seguirem uma programação de horários fixos diários, tem contribuído para subtrair cada vez mais o número de espectadores que migram para as plataformas streaming. Porém, ainda é possível ver algumas “quebra-regras” como no caso da novela Cordel Encantado, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes.

 

 

A novela Cordel Encantado nos apresenta uma fábula que se estabelece a partir do encontro de dois universos fictícios, um reino europeu, Seráfia, e o sertão nordestino, Brogodó. A trama oferece referências, misticismo, humor e romance, na mistura de literatura de cordel (cultura popular) com a tradição europeia. A obra não só obteve bastante sucesso de público e crítica em sua primeira exibição na Globo em 2011, no horário de 18h, como também deixou sua marca no horário da tarde, finalizando com notável sucesso, no 03 de maio 2019, sua curta reprise no Vale a Pena Ver de Novo.

 

Inovações narrativas com base na mistura de clássicos

Oito anos depois, a novela de direção de Amora Mautner, mostrou que seu sucesso não foi pontual. Exibida no programa Vale a Pena Ver de Novo, bateu recordes de audiência, em um horário de pouco valor (entre 15h e 17h). Esse sucesso alcançado por Cordel Encantado se explica, logicamente, por suas muitas qualidades, primeiramente narrativas, visíveis desde o primeiro capítulo, e também como um sinal do cansaço do público com o modelo que tem dado a tônica da maioria das novelas nos últimos anos.

Ao invés do uso abusivo de realismo e naturalismo próprio da maioria das telenovelas, Cordel apostou em criar um mundo encantado próprio, da combinação dos contos de fadas com uma ambientação bem regional. O enredo traz elementos da literatura de cordel e das histórias do sertão, relembrando a celebridade que carrega esse tipo trama, como, por exemplo, Auto da Compadecida. O ritmo instigante e ágil, mas que não deixava de dar tempo necessário para que o público conhecesse os personagens e embarcasse na história, é sentido do primeiro ao último capítulo.

 

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A favor da novela também pesa o quesito tempo, na comparação com as novelas, teve a duração mais curta dos capítulos (40 minutos) e um menor tempo de permanência no ar (cinco meses). As autoras não adiaram nenhuma resolução. As tramas eram propostas e logo solucionadas de maneira adequada. Isso não só ocorreu com as subtramas, mas também o mote principal, como por exemplo, a revelação que Açucena (Bianca Bin) era a princesa perdida, ainda logo no início da novela. É comum ver novelas se arrastando com tramas simples por vários capítulos, ou mudando o enredo apenas pelo sucesso da obra com o público (o tão falado hoje, “fanservice”).

No entanto, esta “ligeireza” foi responsável, mais para o final da narrativa, por cair na famosa “enrolação”. Houve uma fase em que, semanalmente, o vilão o Timóteo (Bruno Gagliasso) tramava alguma emboscada ou malvadeza e Jesuíno (Cauã Reymond), o herói, descobria e salvava a princesa e/ou a cidade. Porém, para quem gosta (ou no mínimo sente nostalgia) dos contos de fadas, isso não interfere na apreciação da obra, principalmente porque esse suposto chicerismo se quebra quando se percebe que a princesa é uma nordestina, o mocinho é filho de cangaceiro e o vilão um louco mimado filho de coronel.

A expressão fanservice tem sua origem no universo dos animes e consiste na introdução de elementos supérfluos, com o simples objetivo de entreter o público. No entanto, o termo foi sendo gradativamente incorporado por outros domínios fictícios, agregando mais e mais amplitude ao seu significado. Diálogos pretensiosos, casais extremamente forçados, personagens tendo suas personalidades radicalmente alteradas do nada. Esses são alguns exemplos de fan services mais recorrentes dos produtos seriados (lembrou de algum?). A intenção esse tipo de estratégia é manter o público fiel e extrair dele reações positivas para conservar e até elevar o hype do programa.

 

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A diversão oferecida ao longo dos meses superou, de longe, esta limitação. O saldo de Cordel Encantado é positivo e  entra para o seleto grupo de novelas que o espectador lamenta quando termina, não é à toa que voltou à Globo. A reprise, inclusive, causou menos a sensação de enrolação, pois foi reeditada para o horário da tarde, e perdeu esses “excessos”.

Outra inovação narrativa é a inversão da ordem de exibição do último e do penúltimo capítulo. O da véspera é típico dos finais novelescos, cheio de emoção e desfechos, incluindo a morte do vilão Timóteo e o casamento de Jesuíno e Açucena em Seráfia. Já o final, praticamente não tem emoção nem surpresas, exceto pela apresentação de um novo vilão, dando brecha, quem sabe (talvez) para uma continuação.

 

Qualidade e cuidado ao detalhes: Música, figurinos e inovações tecnológicas

 

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Além dessas inovações narrativas, e de um elenco bem escalado, a direção de Amora Mautner e de Ricardo Waddington foi feliz em muitos outros aspectos, como em trazer o padrão de cinema (24 quadros por segundo) para a fotografia (inclusive com cenas aéreas belíssimas dos dois cenários e closes generosos no elenco). Também a qualidade dos figurinos, e da iluminação não ficam atrás. As vestimentas primorosas de época poderiam ilustrar modernos editoriais de moda. Por sinal, um elogio as personagens femininas, que mesmo numa trama de princesas, sertão e cangaço, são fortes cada uma em seu jeito particular. Daria para escrever um artigo sobre cada personagem.

O que fica um pouco problemático é a questão da regionalidade. Vê-se que há uma pesquisa e cuidado quando se trata de situações da história do sertão nordestino (ainda mais se referindo a um período antigo), e o fato de se passar em uma cidade fictícia, tira um pouco o peso da representação. Mesmo assim, é possível ver alguns sotaques mais exagerados e estereotipados. Também faz falta mais atores e atrizes nordestinas, apesar de este ser, o melhor papel da vida de muitos atores do elenco.

 

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Outra questão é em relação a trilha sonora, artifício forte das telenovelas. Algumas pessoas sentiram falta de músicas e músicos mais tradicionais do cordel e do sertão (o que seria uma ótima forma de divulgação), porém, creio que trazer, Alceu Valença, Karina Buhr, Lenine, Zé Ramalho, Núria Mallena, entre outros, efetiva essa sensação de nostalgia e regionalismo da trama. Inclusive a abertura, cantada e contada por Gilberto Gil e Roberta Sá, consagram a combinação entre regional e moderno.

A novela se despediu mais uma vez levando seus personagens, cenários e músicas. Foi se embora com seu conto de fadas, suas referências literárias, à História, e a filmes famosos, com seu toque pop e moderno. Só resta esperar por outra reprise, ou quem sabe uma continuação, e lembrar que até as novelas, com criatividade e respeito a nossa história e tradições, podem ser muito mais que melodramas manipulativos ou sem conteúdo.

 

Série em Pauta: O dia de Star Wars virou festa dupla em Salvador

Texto: Enoe Lopes Pontes

Fotos: Laís Prado

Numa galáxia não muito distante, Rey e Kylo-Ren se encontraram com o Darth Vader! Sabres de luzes piscaram, o Yoda apareceu com bastante frequência e vendedores comercializaram naves feitas em impressora 3D. As crianças correram vestidas com fantasias e blusas em homenagem a Luke Skywalker e Leia Organa. Os corpos foram gravados com tinta permanente, simbolizando a eternidade de suas paixões.

O lugar que deu espaço para este ambiente de fantasia foi o Portela Café, localizado no Rio Vermelho. Toda esta dinâmica aconteceu devido ao May the 4th. Inaugurado por George Lucas, criador de Star Wars (SW), o dia é exaltado pelos fãs da saga, que se reúnem para festejar a franquia. O motivo da data vem trocadilho da famosa frase “Que a força esteja com você”, em inglês: “may the force be with you”, que tem som semelhante ao 4 de maio, na língua inglesa.

Pensando na relevância da comemoração para o fandom deste universo, o Conselho Jedi Bahia organizou, pelo segundo ano, este acontecimento na cidade. Divida em duas etapas, uma pela tarde, o May the 4th Pop e outra à noite, a May the 4th Party. O objetivo foi reunir os fãs e trazer atividades lúdicas e divertidas, buscando fazer jus ao amor por SW. Paulo Metting é presidente do Conselho e assiste aos filmes desde criança. A ideia veio da vontade de propor algo que realmente marcasse o dia na lembrança dos fãs. “O pessoal da casa abraçou a ideia e foi um sucesso”.

 

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GRAVADO NA PELE E NA MEMÓRIA

Se a ideia do Conselho era fixar fortemente o ensejo na recordação de cada amante de Star Wars, ele conseguiu este intento! Pelo menos, na figura de Amanda Magalhães, 29. A jovem publicitária foi pedida em casamento no May the 4th de 2018 e, neste ano, resolveu fazer uma tatuagem dos bastante conhecidos Stormtroopers, soldados do Vader. O detalhe especial é que ela colocou duas orelhas de bulldog na figura, pois é fascinada pelo tipo de cão e tem três cachorros da raça.

O amor gravado na pele também é vivido por Nill Ojuara, 36. Espectador assíduo da saga, ele não só possui três tattos de personagens de SW, como também é tatuador. Concentrado em sua atividade, ele foi contando suas motivações para estar trabalhando naquele sábado. “O negócio aqui nem é lucrar, lucro menos em uma dia como esse. Faço pelas amizades com o Conselho e por gostar tanto de Star Wars”.

 

Na foto 01, Amanda Magalhães, 29, faz tatuagem com Nill Ojuara, 36. Nas imagens 02 e 03, Magalhães mostra o esboço de sua tatto.

 

Esse sentimento que motiva e encanta os fãs também é passado de geração para geração. Durante o evento foi possível ver muitas crianças fantasiadas, correndo pelo espaço, colorindo desenhos e brincando com os jogos ali propostos. Olhando ao redor, a equipe notou uma garotinha vestida de Princesa Leia. A sua acompanhante, a cantora Lorena Cerqueira, explicou que é dinda da menina e que foi ela quem apresentou para a afilhada este universo.

Contudo, Lorena garante que agora a jovem Padawan* é quem é a fã número 01 da família. “Enquanto todas as coleguinhas estão com mochila da Frozen, ela vem arrastando a dela, toda preta, do Darth Vader”. As duas fazem, eventualmente, noites especial com maratona dos longas e chamam de “Noite de Star Wars”.

 

Na foto 04, a afilhada de Lorena Cerqueira, 40, veste cosplay da Princesa Leia. Na imagem 05 está um dos desenhos que o Conselho Jedi Bahia disponibilizou para as crianças pintarem.

 

REUNIÃO DO FANDOM E O CONSUMO

De acordo com a professora doutora Adri Amaral, o compartilhamento de conteúdo e reunião entre o fandom ocupa um espaço de sociabilidade e afetividade na vida deles. Para a pesquisadora, a produção ocupa uma importância forte na vida dessas pessoas, gerando um consumo intenso.

“Tem até um certo nível de competição entre os fãs por conta de quem compra mais por exemplo gerando assim uma disputa de capital social e do próprio entendimento do que é ser fã a partir das coleções etc”, explica Amaral. No entanto, ela aponta que também existe muitas práticas solidárias dentro da comunidade, para ajudar os que não possuem recursos para adquirir a imensa quantidade de produtos ligados à saga.

 

Na fot0 06, Yasmin Uchôa, dona da Mimo Cadernos. Na foto 07, um Chewbacca e uma Leia de bisciot, do Mundo Biscuit.

 

TENDÊNCIA GEEK

Ligada no mercado do mundo nerd, a empresária Yasmin Uchôa decidiu embarcar na feitura de cadernos com símbolos de produções famosas. Desde o primeiro ano da May the 4th, ela expositora fiel de seus produtos em feiras voltadas para este tipo de público, justamente por considerar um grupo que gosta de investir em materiais focados em suas paixões.

Porém, comprar não é o foco exclusivo desta comunidade. Outras características habitam esta sociedade. Um destes elementos é o costume de fazer cosplays. Trajando as vestimentas de suas personagens preferidas, eles desfilam com suas elaboradas roupas, com expressões faciais que demonstram contentamento. Membro do Conselho Jedi da Bahia, Kauana Hervan, 29, queria muito se vestir de figuras que admirava nas telas e nos quadrinhos, mas nunca teve coragem. Contudo, já tem um ano que começou a incorporar a Rey, persona dos filmes mais novos de SW, e tem gostado muito desta experiência.

 

 

* Padawan é a criança que está em fase de treinamento para ser Jedi

**Essa matéria contou com a colaboração de apuração de Laís Prado

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