Cenário de cartão postal, praias paradisíacas, cultura, memória coletiva e economia solidária na Bahia: saiba mais sobre a Ilha de Matarandiba

Na Ilha de Vera Cruz, a 26km de Mar Grande, do lado de lá da Baía de Todos os Santos, para quem está acostumado a circular apenas pela capital, a vegetação esconde um paraíso a céu aberto na Bahia.

“Abraçada”, na contracosta de Itaparica, a Vila de Matarandiba, que reúne cerca de 900 habitantes, em área de Mata Atlântica preservada, é praticamente uma “ilha dentro da ilha”.

E, embora a vila tenha virado notícia em 2018, quando uma grande cratera de 83,5 metros de comprimento e mais de 40 metros de profundidade se abriu, na região, chamando a atenção de pesquisadores, biólogos, da Agência Nacional de Mineração e da imprensa nacional, movimento intenso não é a regra entre os moradores de Matarandiba.

É que a vila de pescadores, que tira, do ato de “mariscar”, o sustento para muitas famílias, encontra no ecossistema marinho e na própria forma de interagir com a natureza o equilíbrio para manter a riqueza natural que salta aos olhos, na terra de águas mansas e calmaria.

A vida por lá tem ar de interior. O céu desponta cedo e quem chega de fora é logo notado, porque o morador da ilha conhece bem o vizinho e o vizinho do vizinho, que é primo do dono da mercearia, irmão do rapaz do quiosque, amigo do dono da pousada local, nessa rede de rostos conhecidos que de imediato se atinam quando alguém que não é de lá chega pra dar um mergulho na praia.

Mas a chegada é bem-vinda, e a natureza, acolhedora. Mar aberto, pra pisar descalço e sentir os pés na areia que é areia, mas parece lama, no ecossistema costeiro de transição entre os biomas terrestre e marinho.

A cor da água, o lodo, dizem logo de cara sobre a predominância de manguezais na região e enquanto a imensidão do mar parece demasiadamente convidativa, a vila conta sobre a diversidade de manifestações da cultura popular no local.

Foto: Ana Maria Simono

Samba de roda, festa de São Gonçalo, história de “Zé do Vale”, cantoria de casa em casa, nos festejos tradicionais. E quando o mês de dezembro anuncia a virada de um novo ciclo, a comunidade se reúne, cantando de rua em rua até a praça pública “Aruê, aruê, aruá, entregar o ano velho que um novo vai chegar”.

Foto: Ana Maria Simono

Lugar paradisíaco para conhecer, se aconchegar e desbravar, em meio às histórias de gente que mantém a tradição da pesca, a identidade cultural, a memória e a relação fundamental com a natureza.

A Associação Cultural de Matarandiba, a Ascomat, ajuda a preservar a cultura local, com projetos, estímulos, atividades e empreendimentos solidários desenvolvidos em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Dow Química, que extrai sal-gema da região.

E a economia, na ilha, faz da cooperação e do trabalho voltado ao consumo local caminhos possíveis para ampliar a geração de renda.

A terra singular nas histórias, raízes e no cenário de cartão postal ainda não invadido pela corrente do turismo tem também moeda própria. A “Concha” (C$), como é chamada, equivale ao real e circula desde 2008 na localidade, ressignificando as relações de mercado junto à comunidade e estimulando que o consumo seja revertido em moeda para a própria região. A moeda social é gerida pelo Banco Comunitário Ilhamar, que disponibiliza serviços financeiros solidários para a comunidade, e é uma das pouco mais de 100 moedas desse tipo que circulam no território nacional, segundo dados da Secretaria de Economia Solidária, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

O lugar paradisíaco, de moeda própria e atrativos naturais, não fica muito longe da capital baiana. Do Terminal São Joaquim, em Salvador, saem de hora em hora ferry boats que levam visitantes e moradores para a travessia além-mar. A passagem – R$ 5 reais para pedestres – assegura a chegada a Mar Grande, de onde saem topiques com destino direto a Matarandiba.

Para quem vai de carro, a dica é pegar a estrada de Vera Cruz, sentido Ponte do Funil. A entrada da vila fica na sede da Daw Química, e o percurso de Mar Grande a Matarandiba leva cerca de 20 a 30 minutos, entre asfalto e chão batido, em Itaparica.

Se vale a pena? Além da grande área verde de Mata Atlântica, visível durante todo o caminho, a Ilha de Matarandiba reserva um cantinho particular de trilhas e praias paradisíacas. A sugestão, para quem quer aproveitar um pouco mais dessa energia singular, é o passeio de barco que te leva à Fonte do Tororó, uma pequena corrente de água doce que escorre em meio à vegetação e encontra o mar da baía.

Foto: Ana Maria Simono

Tem coisa melhor que esse encontro da natureza para reenergizar a alma? Chame os amigos, convoque o mozão ou se jogue, de peito aberto, na “aventura solo”. Matarandiba vale a parada, a pedida, a estrada, o fim de tarde, a brisa fresca e o papo aberto com a comunidade local. A Bahia, “minamiga”, tem é história, e dá pra ouvir um pouco de toda a narrativa de braços abertos para o mar. Bora lá?

  • O quê? Vila de Matarandiba
  • Onde? Na contracosta de Itaparica, a 26km de Mar Grande
  • Como? De ferry-boat, partindo do Bom Despacho, em Salvador, ou de lancha, via Terminal da França. Chegando em Mar Grande, na Ilha de Itaparica, existem pelo menos 2 opções: partir de carro sentido estrada do Funil ou embarcar na topique com destino a Matarandiba.
  • Por quê? Além da vegetação de Mata Atlântica e das praias paradisíacas, a Vila de Matarandiba é conhecida pela riqueza das manifestações culturais e pela moeda social, gerida pelo Banco Comunitário, que estimula a economia solidária na região.
  • #Dica: Passeio de barco com parada na Fonte do Tororó (procurar pelo barqueiro “Buba”, próximo à mercearia)

Confira outras fotos da Ilha de Matarandiba:

Foto: Ana Maria Simono

Foto: Ana Maria Simono

Foto: Ana Maria Simono

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